Nesta semana em que os blogueiros do Planeta Sustentável voltam-se para a possibilidade de São Paulo conquistar uma política de mudanças de clima, convido você, leitor, a uma reflexão: como uma megacidade como São Paulo teria condições de se tornar mais sustentável, se ela é, em si, uma medida urbana insustentável?
Já ouviu falar no conceito de ‘escala humana’, que resgata aquela dimensão em que nós humanos nos sentimos confortáveis para viver e interagir com o meio? Aquela medida em que reconhecemos as pessoas nas ruas ou somos capazes de percorrer a cidade de um lado para outro a pé ou de bicicleta? Pense nas primeiras cidades que surgiram no planeta. Como elas eram? Uma pequena parte do menor bairro de São Paulo (se muito), com muita área verde, produção de alimentos e (acredite!) sem petróleo! E não é que as pessoas viviam sem ele!
Pense agora na idéia das ecovilas. O que são esses assentamentos humanos senão pequenas amostras do que a humanidade pode (re)aprender a fazer para recolocar nosso estilo de vida em trilhos mais sustentáveis - para nós e para a Terra? Não estou dizendo que as ecovilas são a quintessência da sustentabilidade, mas não tenho dúvidas de que elas caminham para isso – tanto que foram eleitas pela ONU como modelos sustentáveis de habitação humana para o século XXI.
Veja, por exemplo, a ecovila Findhorn, na Escócia, uma das mais conceituadas e antigas do mundo, localizada a dez minutos de Forres, uma pequeníssima cidade ao norte do país. Lá vivem cerca de 800 a mil pessoas. As casas são energeticamente eficientes, construídas com materiais ecológicos, abastecidas com energia eólica produzida na própria ecovila. A alimentação é garantida pela plantação local de legumes, verduras e frutas. Queijos, leite, ovos e grãos vêm de sítios vizinhos que garantem a produção orgânica. Uma padaria própria oferece à comunidade pão integral diariamente.
Mais: o esgoto é tratado localmente por filtros de raízes de plantas, que sugam as impurezas e devolvem água limpa para ser novamente usada. As ruas são estreitas, para privilegiar o pedestre, o ciclista e a segurança das crianças, que brincam à vontade. Os poucos carros que circulam em algumas ruas da ecovila são comunitários, pois os moradores fazem uma escala diária para o uso dos automóveis, que raramente saem de lá com apenas uma pessoa no veículo. Há ainda uma moeda solidária de circulação interna, o Eko, que facilita a troca de bens e serviços, fortalecendo a economia e os saberes locais.
Findhorn fez recentemente um estudo para medir a pegada ecológica da ecovila e, adivinhem, descobriu que tem uma das menores de toda a Grã-Bretanha. A meta agora é estudar ainda mais a fundo as emissões de CO2, para reduzir ainda mais o impacto de seus moradores sobre as mudanças climáticas.
Quer outro bom exemplo? Beddington Zero Energy Development (BedZed), na periferia de Londres, uma espécie de condomínio auto-sustentável em termos energéticos, que faz uso exclusivamente de energias renováveis. As casas foram planejadas para minimizar a necessidade de energia e água. Placas fotovoltaicas produzem energia solar, lascas de madeira servem ao aquecimento das residências e escritórios e 50% da água é tratada e reutilizada. BedZed prioriza carros elétricos ou movidos a gás e encoraja os moradores a aproveitar a boa oferta de transporte coletivo nas proximidades.
Bill Dunster, arquiteto responsável pelo projeto, costuma dizer que não inventou nada, apenas agrupou soluções já conhecidas de todos e que, sem dúvida, combatem sem rodeios o aquecimento global. Está aí a grande sacada: pensar holisticamente, integrar elementos, planejar para consumir pouco. Tudo que, digamos, falta a São Paulo e a outras tantas e tantas cidades.
Para mim, remendar São Paulo é tarefa das mais complicadas. Mas não impossível. Acredito que a saída está nos bairros, nas pequenas células de vida da cidade. É na valorização dos bairros que mora a chave para a redução das emissões de CO2. No meu dia-a-dia, procuro resolver tudo o que preciso no meu bairro, começando pelo trabalho, mais em casa do que na redação. Meus mercados preferidos são os pequenos, de comerciantes heróicos que ainda resistem às redes estrangeiras de hipermercados. Uma ida ao banco ou um almoço fora de casa podem render uma caminhada. A escola de ioga também fica perto, além da padaria, do sapateiro (eles ainda existem!), da vendinha de legumes e verduras, uma loja ou outra, farmácia homeopática, o parque da Aclimação, e por aí vai.
Cortar as emissões de carbono deve começar em casa, depois no bairro, depois na cidade. Sem essa lógica, fica difícil. E pode vir o projeto de lei mais lindo do mundo que de nada adiantará. Mas se a população estiver desperta, a mais simples mudança trará resultados efetivos, dignos de se comemorar nessa entrada da primavera.