

Talvez pela convivência na ecovila, tendo tido a chance de conhecer crianças muito especiais, dessas que gostam de comer folha de couve tirada do pé, que não têm medo de formiga nem de banho de chuva. E elas sempre têm sacadas ótimas sobre o planeta. Pérolas do tipo: “O homem está destruindo a natureza e vai acabar ficando sem ter onde morar”, ou “já reparou que nossa espécie é a única que não sabe cuidar do planeta?”, ou ainda “o problema é que as pessoas só pensam em gastar dinheiro comprando coisas que destroem a natureza”. E nós adultos, do alto de nossa prepotência, só podemos engolir calados, com vergonha da verdade...
Gosto de ouvir as crianças. Gosto do modo como elas escancaram suas necessidades básicas, de afeto, alimento, descanso e brincadeiras. E nada mais. Quando pequenas, não precisam de brinquedos caros nem de roupa da moda. Qualquer pedaço de madeira ou papel vira diversão. E roupa bacana é aquela que pode ser usada para brincar na lama sem culpa.
Mas eis que elas crescem, são bombardeadas pelos pais, pela escola e pela mídia, e “adquirem” desejos de consumo sem freios nem fronteiras. Perdem, muitas vezes, a espontaneidade original. Respiram ar poluído, bebem água que vem de longe, comem comida industrializada, ficam horas em frente à tv... O que vai ser delas se não dermos a chance de perceber que há mais sobre o mundo para muito além dos muros das escolas, das lan houses e dos shopping centers?
As novas gerações precisam de esperança e rotas alternativas e, para isso, merecem ser ouvidas e acolhidas em seus sonhos de um planeta mais limpo, mais feliz e cheio de vida. Você conversa sobre isso com seus filhos, sobrinhos, netos? Já foi questionado(a) sobre o porquê do aquecimento global ou do terremoto no Haiti? Que tal dar a atenção que essa curiosidade tanto merece?
Hoje, no dia em que recebo a notícia da gravidez de minha irmã (mais que querida, admirada), olho para o céu com olhos mareados e peço profundamente que esta criança seja mais uma a trazer uma mensagem de paz e harmonia entre os seres, que seja sempre criança no jeito de olhar a natureza e que possa inspirar adultos e mais adultos a não ter medo de se emocionar com o nascer do sol, a beleza dos filhotes e a força da flor mais delicada.
Foto: minha sobrinha com seu melhor amigo, Trovão.

Minha casa na ecovila está em obra há 2,5 anos. No início, contratamos uma equipe para fazer a fundação, a estrutura de madeira de eucalipto de reflorestamento e o telhado. Após essas etapas, começamos a organizar alguns mutirões com amigos para levantar paredes de terra (adobe, pau-a-pique e COB) e tijolo de solo-cimento, além da colocação de terra sobre o telhado verde.
Nunca imaginei que um dia eu participaria da construção da minha própria casa. Mas hoje, passado algum tempo, sinto a experiência como um grande presente. Eu e meu marido-companheiro já somos praticamente “biopedreiros”. Já investimos muita energia em cada cantinho da casa que, por isso, já tem história e memória, antes mesmo de ser inaugurada.
Anos atrás, quando li o Manual do Arquiteto Descalço, do holandês Johan van Lengen, fiquei encantada com a possibilidade de resgatar a autonomia que muitos de nós tinham de construir sua morada. O regime de mutirão era a regra nas comunidades. Um ajudava o outro a erguer a casa, geralmente com técnicas que atravessavam gerações. Hoje em dia, porém, a autoconstrução é extremamente mal vista pelos empreendedores do mercado imobiliário, que afirmam ser um modo perigoso e inseguro de construir. (Será que o fato de serem os grandes interessados em vender moradias tem alguma influência nessa posição?)
Seja como for, é sempre um prazer relatar um pouquinho do que acontece na minha casa na ecovila Clareando. E é isso que gostaria de fazer, mais uma vez, a partir de agora.
Desde o início do ano, estamos trabalhando para tentar concluir tudo até março. Nos últimos quinze dias, fizemos o revestimento de algumas paredes com cal e proteção hidrorrepelente (com baba de cacto palma). Finalizamos as paredes internas de Cord Wood (ou parede de toquinhos de madeira), iniciamos a hidráulica da casa com tubos flexíveis doados pelos vizinhos Rosana e Victor. Cada pequena tarefa concluída tem um sabor especial.
Com criatividade, estamos conseguindo baratear o custo de alguns produtos industrializados. Exemplo disso é a pia do banheiro social: não uma peça de cerâmica, mas sim um tacho de pastelaria (!!!) adaptado para a função. Meu marido, para essas invenções malucas, é praticamente um professor Pardal (lembra dele?). A peça de ágata custou R$ 18 e só foi preciso fazer um furo para receber o encanamento. A torneira será um colmo de bambu, recobrindo o tubo hidráulico. Mais uma economia.
É claro que não temos apenas o critério do mais econômico. As reflexões sobre se é sustentável, ecológico, saudável, eficiente e prático também fazem parte de cada decisão. E olha que elas não são fáceis... A tinta para revestir as paredes, por exemplo. Escolhemos uma mistura natural de cal, mais barata, atóxica e até inseticida. Quando queremos dar uma corzinha, acrescentamos um pouco de terra ou pigmento químico (pó Xadrez) - que, ainda assim, acaba sendo mais saudável do que as tintas industrializadas.
Esta semana visitaremos alguns cemitérios de azulejos, em busca de sobras interessantes para fazer mosaicos artesanais. Já fiz um ou outro mosaico, mas não sou nenhuma especialista e isso definitivamente não é um problema. É preciso tentar, certo? Essa “filosofia”, acredite, dá motivação para seguir adiante. Se alguém, lá atrás, me perguntasse se eu sabia fazer uma parede, eu diria que não. Hoje posso dizer que sim, ainda que a ajuda de outras pessoas seja sempre bem-vinda.
Assim, enquanto assistimos de muito perto à construção da casa, vamos aprendendo coisas novas, inventando, criando, testando. É verdade que, às vezes, não dá certo e é preciso refazer. Mas se não ousarmos, nunca descobriremos nada, será tudo sempre igual. Nesse ponto, mais uma vez meu marido é muito melhor do que eu. Ele, sim, ousa de verdade: quer fazer a hidráulica, a elétrica, o aquecedor solar, o banheiro compostável e até o filtro das cisternas de água de chuva. Tudo sem experiência, na cara e na coragem mesmo. E sabe de uma coisa? Está sendo ótimo! Estou aprendendo a repensar muita coisa, de conceitos estéticos a preconceitos antigos, arraigados.
É tudo um grande exercício constante de inovação, que se encaixa perfeitamente nesse nosso plano de mudar de estilo de vida. Porque não basta encomendar uma casa ecológica e achar que só o fato de morar nela irá tornar alguém mais ecológico e consciente de seus atos. A casa deve ser o reflexo de seus moradores - e não uma máscara (ou maquiagem) falsa... Semana que vem volto para contar mais novidades. Um grande abraço e até lá!
Foto: Parede de toquinhos que separa o quarto da sala. Sobras de madeira foram utilizadas para dar forma à estrutura, que também contou com detalhes em garrafas de vidro... Tudo feito artesanalmente.