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Você quer ser bom ou justo? Giuliana Capello - 04/10/2011 às 20:50
Certa vez, durante uma aula sobre comunicação não-violenta, ouvi do professor Dominic Barter um pouco de sua experiência com grupos bastante heterogêneos. Ele costumava trabalhar com executivos, crianças e presidiários, ensinando-lhes técnicas de prevenção e resolução de conflitos. Tanto nas empresas e escolas como nos presídios, quando Barter perguntava sobre os valores fundamentais na vida de cada um, as respostas dos grupos eram muito semelhantes: de modo geral, todos falavam em felicidade, paz, amor, prosperidade.
Mas, então, por que será que na prática nossas ações não caminham efetivamente na direção daquilo que queremos para nossas vidas? Por que há uma lacuna tão grande entre nossos valores e nossas ações? Seriam nossos valores apenas retórica ou um desejo idealizado de nós mesmos? Se você diz que a paz é importante nas suas relações, por que é tão difícil assumir uma postura de não violência para com os mais próximos?
Tempos atrás, na ecovila, organizamos um encontro para refletir sobre nossos valores e o tipo de agir no mundo que mais se sintonizaria com eles. Fizemos diversas vivências, exercícios, diálogos, e chegamos a uma lista belíssima de “boas intenções”. Sim, porque hoje sinto que os valores lançados como base da comunidade são, na verdade, aquilo que nós queremos ser, mas ainda não conseguimos por completo. Eles são um norte, uma direção, um destino mais do que desejado – mais ou menos como nossa constituição ou nossas leis ambientais, tidas como uma das melhores do mundo, mas que no mundo real só são bonitas mesmo no papel…
Simplicidade, amorosidade e cooperação são alguns dos valores-chave definidos pela comunidade. Mas nada como um conflito real para testar a sintonia entre teoria e prática… Mês passado, tivemos alguns problemas com o gado de um dos vizinhos que insistia em entrar na ecovila (já diz o ditado que a grama do vizinho é sempre mais verde e, nesse caso, aqui os terrenos ainda não construídos têm capim alto e abundante, bem diferente do pasto ralo que os bois encontram em casa…). Felizes, os animais comeram parte de algumas hortas, pisaram e defecaram na beira da nascente (que fornece nossa água) e ainda deixaram uns carrapatos pelo caminho.
O que fazer? Em reunião, a comunidade lançou algumas sugestões de como resolver isso com o vizinho, que se mostrou arredio à ideia de pagar metade da cerca que precisaria ser refeita – prática comum entre vizinhos de lotes rurais, pelo menos aqui na região. Todas as ideias, devo confessar, me decepcionaram. Não quero aqui entrar em detalhes, culpar uns e outros, mas apenas aproveitar o fato para refletir sobre a diferença entre ser bom e ser justo. Você já parou para pensar nisso?
A monja budista Charlotte Joko Beck (que faleceu este ano) dizia que “a melhor resposta para a injustiça não é a justiça, mas a compaixão”. Isso me lembra (pelo lado oposto), as telenovelas e as notícias policiais, que têm “sede de justiça”, mas, cá entre nós, tratam a tal justiça como sinônimo de vingança, como se a desgraça alheia pudesse fazer alguém menos infeliz…
Para mim, a história da cerca poderia ser resolvida sem qualquer drama: bastaria que a ecovila se responsabilizasse por suas fronteiras, com ou sem a parceria dos vizinhos para o pagamento da estrutura. E ponto. Sem gado, sem brigas, sem desarmonia. Mas não. Alguns integrantes querem justiça, querem que o vizinho dos bois espertinhos pague pela cerca de um jeito ou de outro, ou que resolva o problema de alguma outra maneira. E isso, na visão de muitos, significa pedir a mediação da justiça, da polícia e por aí vai.
“Às vezes, ser bom nos leva a ser bobos”, ouvi de um amigo, quando sugeri que simplesmente pagássemos pela cerca toda. “E ele não se responsabiliza por nada? Mas isso não é justo”, exclamou um terceiro. Eu, que já assumia a voz dissonante na reunião, disse que não me importaria se o vizinho me achasse boba, e que sentia que uma ação pacífica serviria de exemplo – ou terreno mais fértil – para possíveis futuras aproximações amistosas. Citei o profeta Gentileza para justificar minha crença de que uma ação gentil tem muito mais chances de gerar uma reação na mesma medida, e que, do mesmo modo, pedir justiça seria assumir uma incapacidade para o diálogo (coisa que, na minha opinião, ainda não podia ser dada como ineficaz ou inútil neste caso).
Prefiro sempre tentar ser boa a ser apenas justa. O conceito yogue de ahimsa (não violência) ou as ideias pacifistas de Gandhi ou, ainda, os princípios do kung fu são todos exemplos de filosofias que se estruturam na habilidade de agir evitando conflitos (com o outro e com você mesmo, pois poupar a guerra e terminar numa batalha interna também configura uma violência). Acredito que se queremos mudar alguns paradigmas – eu, pelo menos, tenho essa pretensão – é preciso buscar lá no fundo aquilo que ainda nos mantêm presos a um discurso que pouco conversa com nossas ações cotidianas. Para mim, ser bom ou ter compaixão antecede qualquer intervenção da justiça – que tem, sim, sua utilidade, mas nos casos extremos. Boba ou não, é com essa atitude que sinto criar ao meu redor, um pouquinho mais a cada dia, um mundo mais humano, amoroso e terno.
p.s.1: hoje é dia de São Francisco de Assis…
Crédito da imagem: Harlan Harris / Creative Commons
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05/10/2011 às 15:45 Flavio Pinto - diz:
Sensacional!
É também o que busco há anos. Entretanto tem sido realmente difícil, principalmente com o eu interior.
05/10/2011 às 16:50 Bella - diz:
Muito bom o texto!
Vou mostrar pras minhas irmãs que sempre me acusaram de frouxa porque sempre fui de dar um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra sair da mesma…
Que bom ver que existe gente como eu!
08/10/2011 às 22:02 Martin Winter - diz:
Olha, eu acho que faria o mesmo. Pagava a cerca com o meu dinheiro e não arrumava confusão com os bois – nem com o dono. Mas, infelizmente, acho que seríamos vistos como idiotas. Aí está, infelizmente, o problema do mundo. Martin http://www.valehistorico.blogspot.com
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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