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O que é viver bem? Giuliana Capello - 31/08/2010 às 15:38

Para acelerar nosso processo de mudança para a ecovila, eu e meu marido estamos considerando a possibilidade de alugar uma casa na cidade de Piracaia. Assim, saindo de São Paulo, ficaríamos mais próximos da ecovila – e da nossa casa em obra – e poderíamos fazer uma transição para lá mais tranquila, passo a passo, na medida do possível. Digo isso porque morar lá ainda tem seus desafios: a internet não funciona tão bem (o sinal some com alguma frequência), o que dificultaria trabalhar em casa. Sem falar na estrada, que na época de chuva chega a ficar intransitável até mesmo com um 4×4, e outros percalços que, sabemos, teremos pelo caminho. Morar na cidade, então, seria uma forma de estar mais perto também da prefeitura, para pressionar por obras de drenagem na estrada, coleta de lixo e outros serviços básicos que ainda não chegam à comunidade.

Enfim, pensando nisso, no fim de semana fizemos nossa primeira incursão por imobiliárias da cidade, para sondar preço de aluguel, conhecer um pouco mais os bairros, sentir um pouco a coisa mais de perto, concretamente. O que mais me intrigou nessa história foi o conceito de ‘morar bem’, que traz sempre a ideia de casa de ‘alto padrão’. Um dos corretores, logo no início, nos perguntou que tipo de casa estávamos procurando. Dissemos que podia ser uma casa simples, de dois quartos, mas que era preciso ter um bom quintal para o cachorro – no caso, nossa vira-lata, Sofia. Ele, então, separou algumas chaves e, minutos depois, lá fomos os três visitar as casas.

Não gostei de nenhuma delas. E explico por quê. Em comum, elas não tinham um centímetro sequer de terra no quintal. O chão era ou de cimento ou de piso cerâmico. Nada de terra, nada de plantas, nem uma árvore ou floreira na janela. Nada! Pensei comigo: que estranho, cidade pequena no interior sem espaço para plantar…  Em uma das casas, era tudo tão asséptico, tudo tão revestido com tinta branca, lajotas, portões e grades que cheguei a me sentir claustrofóbica. Também não havia recuos entre as casas e, com isso, o sol tinha pouco espaço para entrar, iluminar e aquecer os ambientes.

Não cheguei a ficar desanimada, porque sei que é apenas o começo. Até vimos uma casa interessante, sim, e prefiro não comentar, por enquanto. Mas a questão que me marcou nessa experiência foi sentir que aquilo que, para mim, mais tem valor naquela cidade (que é o clima interiorano, vestígios de uma cultura rural, casas com pomar, gente nas calçadas, festas na praça etc.) é refugada pelos corretores – e, talvez, por boa parte da população, não sei bem. E por quê? Como disse meu marido, depois que comentei minha impressão, “o que eles têm aqui não é o aparece nas novelas, nas revistas, nos jornais”. Ou seja, não é o que se tem como modelo de progresso, de crescimento econômico, de cidade desenvolvida. Então, ter uma casa com terra para plantar (e deixar a chuva penetrar o solo e evitar enchentes e respirar melhor) é coisa de lugar atrasado no tempo. Como o corretor sabia que éramos de São Paulo, talvez tenha querido mostrar aquilo que, para ele, estava mais perto da cidade grande…

É triste ver o quanto as cidades pequenas espalhadas pelo Brasil não valorizam e não aproveitam a condição maravilhosa que têm de fazer uma transição para cidades mais sustentáveis. Elas têm, potencialmente, mais condições de planejar o crescimento urbano de acordo com pilares importantes de desenvolvimento sustentável – ou envolvimento indispensável, como gosta de chamar o amigo Hiroshi, da ecovila que, como eu, anda cansado da banalização do termo “desenvolvimento sustentável”…

O movimento das cidades em transição (transition tows) mostra-se mais e mais possível nas cidades de pequeno e médio, em que há mais espaço para manobras urbanísticas e soluções capazes de resolver questões importantes como saneamento básico, transporte, gestão de resíduos, abastecimento de água e energia, produção de alimentos e tantas outras. Mas, enquanto o ideal de desenvolvimento for a metrópole caótica e sabidamente insustentável, será difícil convencê-los a aproveitar vocações locais para planejar um crescimento com características próprias, que respeite a cultura e a natureza da região.

É por isso que acredito tanto na preciosidade das ecovilas. Até a ONU já declarou que essas comunidades são modelos interessantes de assentamentos urbanos para o século XXI. Ainda não há fórmula – talvez nunca a tenhamos – para o sucesso dessas vilas ecológicas que propõem um jeito de morar capaz de conciliar o melhor dos mundos urbano e rural. Mas, como já existem experiências bem-sucedidas, quero apostar que elas podem inspirar municípios a adotar alguns de seus conceitos no planejamento urbano e também no ideário de seu povo. Sonho que se vive junto é realidade, certo?

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Comentários

31/08/2010 às 16:11 Anonymous - diz:

Mari Bruno – diz:Adorei, Giu! Uma pena mesmo que as cidadezinhas, com tanto potencial verde, adotem o estilo de grande cidade…

31/08/2010 às 23:28 Anonymous - diz:

Alessandra – diz:Por isso acredito tanto e sou militante da educação… É por meio dela que podemos sensibilizar pelo menos parte das pessoas que habitam essas áreas… se assistissem menos TV seriam menos inundados com tanta baboseira consumista.

01/09/2010 às 12:05 Anonymous - diz:

Michel – diz:Olha seu fã aqui! heheO negócio é não ter fórmula… fórmulas negam a diversidade do mundo…Um abrazote!

01/09/2010 às 16:00 Anonymous - diz:

Lia Pereira – diz:Nasci e cresci em cidades pequenas do interior de São Paulo, morando em casas bem arejadas e iluminadas, que além disso contam (até hoje) com árvores frutíferas no quintal, por isso ter me identificado tanto com seu relato e me angustiar às vezes, com a possibilidade de fazer o caminho contrário, do interior para a capital. Desejo que em sua busca, encontre muito gratas surpresas no que considero um caminho para a real Qualidade de Vida.

08/09/2010 às 16:30 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Lia, Michel, Alessandra e Mari, obrigada pela “visita” aqui no blog e pelos comentários de vocês – ah, sim, e pela torcida boa. Grande abraço!

23/09/2010 às 22:19 Anonymous - diz:

luciete santos – diz: sai do rio de janeiro a 13 anos atras e ouvia muito hehe de algumas pessoas do local riamos muito da fala hehe e hoje guase nao se houve mais devido muitas pessoas como eu cheguado e nosso som de adimiraçao esta sumindo da boca do povo como era gostoso conversa com as pessoas criadas aqui mas amo esse lugar tenho terra mato cheiro gostoso da naturesa pela manha o som da natureza nao coisa melhor e o ceu a noite de luar e estrelas colorindo nosso ceu tudo aqui e lindo com pouca iluminaçao do homem moderno amo tudo como deus fez para nos.

26/10/2010 às 13:05 Anonymous - diz:

Tais – diz:Achooo que esteee sitee não temm nadaaa a verr com “O que é viver bem”!!!!é uma bosta este siteeeeeeeeeee

21/12/2010 às 07:24 Anonymous - diz:

Alexandre Mendes – diz:Olá Giuliana,parabénspor tudo q.vc escreve.Tenho visto dezenas,talvez centenas de sites sobre:permacultura,ecovilas,comunidades,etc….Já tem um tempo q.visito o site da Clareando,me desculpe a franqueza,mas me parece um condomínio de luxo,apesar dos conceitos de sustentabilidade.Inclusive tem uma casa a venda por mais de R$200.000,00(poucos teriam acesso a esse valor).Um terreno de mil metros quadrados p/R$45.000,00?

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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