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Velhice x terceira idade Giuliana Capello - 26/07/2011 às 22:58
Quando estava pensando sobre o que escrever hoje, depois do post sobre infância, uma amiga me ligou para avisar que dia 26 de julho é o dia da avó. Não se esqueça de ligar para ela, hein, disse. Não sou nem um pouco ligada em datas desse tipo, mas achei curioso ver brotar esse tema assim, tão de repente. Aí pensei na palavra velhice, que acho linda, apesar de pouco usada ultimamente – por conta do culto descarado à juventude e certo exagero de gente politicamente correta, que prefere sempre o termo terceira idade. Coisas do Ocidente.
Aqui a lógica diz que os mais velhos são, em geral, os esquecidos, os chatos, os lentos, os ultrapassados. É por isso que muitos tentam esconder os efeitos da velhice sob a insígnia da tal terceira idade, que seria, para esse pessoal, aquela etapa da vida em que se todo mundo faz de tudo para não ter de encarar o passar do tempo, arrumando sempre um jeito de prolongar o espírito jovem, de manter hábitos dos vinte ou trinta e poucos anos, de curtir a vida sem restrições causadas pela idade. Ou seja, de não envelhecer jamais…
Li recentemente que, no Oriente, se alguém chega e diz que você aparenta ser mais novo(a), isso é considerado uma ofensa, um sinal de que a pessoa não inspira maturidade, sabedoria, experiência. É como se envelhecer, por lá, significasse tornar-se um pouquinho melhor a cada dia. Já pensou nisso?
Ainda estava refletindo sobre essas ideias quando soube de uma notícia na tv sobre um povo africano de Botsuana. Não vou entrar em detalhes porque peguei a coisa pela metade e não gostaria de contar bobagens por aqui. Mas era algo assim: o governo do país havia removido um povo de sua terra, para transformar a área em reserva natural. Em troca, as famílias receberam novas terras, casas, animais de criação e até água encanada (um luxo que eles nunca haviam tido antes). Para a surpresa do governo, o líder da comunidade entrou com um pedido de reintegração de posse na mais alta corte do país, e ganhou a causa. A explicação dele: Mais importante do que a água é ter nossas terras ancestrais de volta. Fiquei arrepiada… Tão lindo isso, essa reverência aos antepassados…
Curiosamente, domingo fui a uma festa numa colônia italiana, com meu pai, que ficou emocionado algumas vezes com as caras familiares que o faziam lembrar a todo instante de seus pais e avós, já falecidos. Mas não sentia nele exatamente uma tristeza. Era saudade misturada a lembranças boas, felizes. (Talvez uma dádiva de ficar mais velho seja a serenidade, a capacidade de sentir intensamente sem brigar com o coração, de simplesmente vivenciar a dor, o amor, a perda, a chegada dos netos, o que quer que seja, como testemunha silente.)
E por que estou dizendo tudo isso? Sei lá, o tema me rodeou nos últimos dias, especialmente numa certa manhã da semana em que vi, diante do espelho, um fio de cabelo branco ofuscando todos os outros que ainda permanecem castanhos em minha cabeça. E não foi a primeira vez. É que nas anteriores, talvez por medo ou rebeldia sem causa, arranquei rapidamente o intruso e fiz de conta que não era comigo. Mas aí prometi a mim mesma que o próximo serviria como um desafio: quero ver se consigo enxergá-lo como conquista (e não derrota) do meu tempo de vida. Afinal, não pretendo ser consumidora de cremes antissinais, tinturas de cabelo, botox e outros cosméticos do gênero que nem de longe lembram qualquer referência, ainda que distorcida, à palavra sustentabilidade. É claro que não estou me sentindo velha. Não tenho razões para isso, mal passei dos trinta e um tantinho. Mas é que sempre defendi que é melhor viver uma velhice feliz do que uma terceira idade mal resolvida, se é que você me entende…
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30/07/2011 às 14:16 Anonymous - diz:
denise – diz:sim, entendo você, mas a grande maioria prefere se disfarçar e se mascarar….já perdi uma boa oportunidade por causa de pessoas que se preocupam com a aparência, e não são sequer capazes de perceber que a máscara, as vezes deixa aparecer o rosto de verdade…..”quem é de verdade, sabe quem é de mintira….”bj
10/08/2011 às 19:39 Anonymous - diz:
Ieda Ester de Mendonça – diz:Giuliana!Gostei da matéria, tava pensando nisso hj. Deixei meu cabelo tomar a cor natural, cortei ontem a ultima camada de tinta. Ficou interessante, tô parecendo aquelas escritoras francesas, chiques. Pintava o cabelo desde os 30 e hoje com 55 achei que era hora de viver o que prego. Sou educadora ambiental há 40 anos e isso é uma das coisas que posso economisar. Abração.
16/08/2011 às 11:18 Anonymous - diz:
Taíse Figueira Motta – diz:Aeee, vizinha. Welcome to the team of people with grey hair!Acho q confere um ar de originalidade, autenticidade, sei la,otherwise, it looks fake – nada contra quem gosta de tinta no cabelo – que tal roxa, pink, verde, mas nao necessariamente pra camulhar os brancos
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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