Gaiatos e Gaianos

Publique
o selo
no seu blog

O valor do silêncio Giuliana Capello - 16/03/2010 às 18:37

O silêncio é um daqueles bens preciosos de que a gente só se dá conta quando ele se ausenta. E, curiosamente, ele agora deu para desaparecer da ecovila. Pois é, ele que fora nosso grande companheiro de contemplação e de sonhos sonhados à beira da fogueira, agora dá lugar a uma agitação incrível – e sem precedente.

Durante os primeiros anos da comunidade, as pessoas se encontravam para falar de ideias, de utopias, de possibilidades. Aí, sempre que um encontro nos nutria de esperança e expectativas, o silêncio se fazia presente, como amigo leal que acalentava os corações. Contemplar o futuro que se planejava ali pedia quietude de espírito.

Agora, no entanto, a efervescência de planos começa a querer ganhar corpo e forma. Sai do plano das ideias para pousar na realidade. E isso pede reuniões e mais reuniões, discussões via internet e tempo (muito tempo) para ouvir o outro – que, no caso, significa mais de 100 pessoas…

Mas como captar tanta informação? Como fazer a gestão dessa brainstorm sem hora e data para acabar? Como administrar os interesses conflitantes? É aí que, para mim, é preciso dar espaço novamente para o silêncio. Sim, ele mesmo. Nada pode ser mais reconfortante do que uns bons minutos de suspensão de palavras (aliás, que tal experimentar isso aqui também?).

…Respirou? Então, continuemos. Ando pensando muito no silêncio, quase que como um pedido interno do meu corpo – minhas crises recentes de enxaqueca, por exemplo, talvez sejam mais do que um sinal de saturação. Quem mora em cidades grandes, talvez nem perceba mais o quanto passamos dias e noites sem um segundo de silêncio. Silenciar, nessa nossa sociedade mais-do-que-pós-moderna, para muita gente é perda de tempo, dinheiro e até status. É preciso preencher cada milímetro quadrado com informações de todo tipo, que borbulham e se multiplicam na velocidade das mensagens instantâneas dos meios eletrônicos.

Mas será que precisa ser sempre assim? Será que para construir uma comunidade mais sustentável não poderíamos propor também uma mudança de ritmo que seja mais coerente com a proposta da ecovila? Por outro lado, queremos construir logo o nosso centro comunitário e precisamos, o quanto antes, definir total ou parcialmente nosso manual de acordos comunitários, melhorar a condição da estrada de terra, viabilizar a internet para todos, dar início à horta comunitária, fortalecer os laços com os vizinhos etc. etc. etc. E como fazer isso sem trocas, sem partilhas, sem conflitos, sem zilhões de palavras?

Ai, ai, isso me lembra uma história do Chico Bento que meu marido conta sempre que o momento parece conveniente… Estava o pequeno Chico em visita à cidade grande, quando tudo à sua volta lhe pareceu feio, bagunçado, poluído. Bem diferente de sua casa na roça, cheia de natureza e beleza em todo canto. Ele, então, fez um comentário sobre suas impressões e seu criador (não um deus, mas o Mauricio de Sousa mesmo) se revoltou, apagou tudo do quadrinho e lançou o desafio: “quero ver você fazer melhor, então”. Para resumir a história, Chico Bento começa a botar um gramado aqui, uma árvore ali, um campinho acolá. Mas as pessoas reclamam da falta de conforto, pedem calçadas, ruas asfaltadas, iluminação, carros, mais segurança… E eis que o paraíso se torna, de novo, uma babel…

Quero crer que exista um meio termo para o fim dessa história. Enquanto isso, sigo meditando alguns minutos por dia, no aconchego de um canto qualquer, em busca de silêncio, instantes de paz e vigor para seguir adiante com as mudanças que precisam deixar de ser sonhos de papel ou inocência pueril que não cabe neste mundo. Quero tomar o desafio do Chico Bento para mim e para a ecovila (com a ajuda de todos, é claro) e, assim, quem sabe um dia eu possa olhar para isso tudo e sorrir, contente e plena. Sei que é querer muito, mas perder a utopia seria perder a direção do caminho. E perder a bússola, mesmo em tempos de GPS, não é exatamente uma boa opção…

 

ver este postcomente
Comentários

16/03/2010 às 21:06 Anonymous - diz:

Carla – diz:Olá Giuliana! É incrível encontrar pessoas, no caso, blogs com pensamentos semelhantes aos nossos. O silêncio é sim, pra mim, uma das maiores riquezas de hoje em dia. Daqui de longe, ainda na cidade grande eu entendi cada situação que você descreveu, e senti como se estivesse aí. Eu espero encontrar a mesma paz, a mesma ‘utopia’ na minha casa , ainda no papel, mas num lugar que daria uma perfeita ecovila. Mas as pessoas, mesmo que futuros vizinhos, ainda têm aquele pensamento de cidade grande. Vou guardar a minha uotpia e aos poucos ir ‘sugerindo’ por lá. mais uma vez, eu quero elogiar o seu blog. Me inspiram muito. Mil beijos.

20/03/2010 às 20:51 Anonymous - diz:

Vivi – diz:Giuliana, acompanho seu trabalho e sua dedicação pessoal à causa ambiental já fiz até alguns comentários no seu blog mas hoje estou aqui para pedir sua ajuda. Meu tio está tentando divulgar o trabalho dele sobre poluição luminosa, um assunto muito interessante e atual, afinal o evento A Hora do Planeta está chegando. Se vc souber de alguém com quem possa falar por favor me avise. Ele tem um artigo que gostaríamos de publicar e ele também dá palestras sobre o assunto. Posso te mandar o artigo que ele escreveu? Por favor me responda no e-mail: vivibcm@gmail.comDesde já agradeço sua atenção.

21/03/2010 às 11:36 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Olá, Vivi, olá, Carla, obrigada pelos comentários. Vivi, enviei um email para você, ok? Carla, fico feliz pelas palavras de apoio e cumplicidade. Espero que possas encontrar no silêncio interior a paz que tanto deseja. Um grande abraço, Giuliana

09/04/2010 às 16:29 Anonymous - diz:

Ana Elisa – diz:Oi, é a primeira vez que passo por aqui. Tenho “viajado” nesta ideia de ecovila. Que coisa mais chique, era tudo o que eu queria desde a minha juventude… Onde eu descubro ecovilas aqui no sul de Minas, mais precisamente prox. à Varginha? abraço.

13/04/2010 às 09:48 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Olá, Ana Elisa, em Minas tem a Ecovila Terra Una e a Viver Simples. Não sei dizer qual delas está mais perto de você, mas vale a pena fazer uma pesquisa na internet. São duas experiências muito inspiradoras! Boa sorte para você, abraço, Giuliana

22/04/2010 às 12:08 Anonymous - diz:

bernadete mattos – diz:Trabalho como Assessora do Secretario de Meio Ambiente de Três Rios, RJ., e gostaria de saber se vc poderia participar de alguma forma da nossa Semana do Meio Ambiente, de 1 a 5 de junho. Acompanho seu trabalho e temos muuita vontade de implantar algumas idéias e projetos, juntamente dom a Secretaria de Educação e outras…Um abraço e aguardo sua reposta.Bernadete Mattos

Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!

Enviar

Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

Posts anteriores

• Ser limpinho num planeta sujinho?

• Eu, você e o fim do mundo

• Esterco, palha e felicidade

• No compasso da natureza

• A simplicidade e a crise de imaginário

• Criança precisa de natureza

• Dias de mudança e gentilezas!

• Mudança para a ecovila!

• Meio ambiente: por que custo e não investimento?

• A lição básica do lixo

• Discurso sustentável tem limite

• A cidade, o campo e a estrela Sinhá

• A mágica das trocas de saberes

• Carnaval em comunidade

• Ideias para esverdear a construção

• Teste drive do banheiro seco

• O planeta numa bandeja (de isopor)?

• Reflexões sobre o slow life e a internet

• A face feia dos cosméticos

• Vasos para melhorar o trânsito

• Primeira virada em casa!

• 2012: ano para entender o planeta

• Pratique a observação!

• Greenbuilding para pássaros

• Belo Monte, Rachel Carson e minhas velas artesanais

• O caipira e a mobilidade urbana

• O que dar a alguém que já tem “tudo”?

• Pela volta do fogo doméstico

• O empurrãozinho que faltava…

• Um lugar em você chamado Ahimsa

• RPPN El Nagual: cooperação, amizade e inspiração

• Dez anos de um sonho

• Você quer ser bom ou justo?

• É primavera em mim

• E viva o decrescimento

• Um guarda-chuva para dois verões

• E quando não há rede de esgoto?

• Quem casa quer casa (ecológica!)

• Se não é divertido, não é sustentável

• Lunática com muito orgulho

• Secador solar e generosidade

• Doze metros de muita história

• Velhice x terceira idade

• Infância desplastificada

• Um dia sem telas

• Um luxo chamado Tempo

• Horta de fundo de quintal

• Liberdade anda junto com sustentabilidade

• Produtos que não deveriam existir

• Lixo é uma questão topológica

• Celebração de blogueira

• Você e o fim da sacolinha em SP

• A lição do Ubuntu ancestral

• Ecovila: no pasto ou na mata nativa?

• Cada um com seu entulho

• O descaso com o lixo orgânico

• Espiritualidade e vida comunitária

• Produzir ou consumir cultura?

• Fukushima e você

• Trocas solidárias que enriquecem

• Lavar roupas sem sabão!

• Acordos comunitários para a ecovila

• O valor de uma árvore

• A chegada de uma nova vida

• Por que o simples é tão complicado?

• Impressões do interior

• Só tecnologia não salva o planeta

• Bioconstrução na serra fluminense

• Um bairro em transição

• Petrofóbicos e locávoros, uni-vos!

• Permacultura para transformar

• Água de chuva, muita chuva…

• Partida e chegada

• A nova história dos três porquinhos

• 365 dias mais ecológicos

• Maternidade e natureza

• Livrai-nos dos pecados do greenwashing!

• Pesadelo de consumo

• Dias de mudança (e desapego)

• Sustentável e mais barato, sim!

• Quem faz a sua comida?

• Ecovila: mutirão na represa!

• Cohousing: morar com amigos

• Esgoto bacana e ecológico

• Superadobe ou terra ensacada

• Primavera com onça e lobo-guará!

• Bioconstrução para multiplicar

• Feriado unplugged

• O que é viver bem?

• Jardim de histórias

• Por que adoro hortas permaculturais

• O joio e o trigo

• Máquinas descartáveis?!?

• Parques x hidrelétricas

• Atire bolas de semente!

• Sobre as boas tradições

• Precisamos de uma escola!

• Sobre a formação de uma ecovila

• Festa junina na ecovila

• Quando o tamanho é documento

• Terra fértil e sangue menstrual

• O tempo de uma casa

• O centro comunitário da ecovila

• Tempo para a arte

• Medicina ecológica?

• O céu de todos e de cada um

• Aqui e agora

• Sabedoria das ervas

• Qual é a sua sustentabilidade?

• Privacidade numa comunidade

• Ecodesign para cuidar do planeta

• Home centers e produtos ecológicos

• O valor do silêncio

• Ecovila com horta… e sem delivery

• A conta de gasolina na ecovila

• Patos, galinhas e outros bichos

• Despedida na ecovila

• Conectada, finalmente!

• Menos tv, mais horta

• O recado das crianças

• Os pedreiros somos nós!

• Esperança e cooperação na ecovila

• O tempo é o novo regente

• Sobre a proximidade do fim

• A COP15 e a síndrome do panetone

• Histórias de uma parteira na Amazônia

• Multiplicar é muito bom

• Governança na ecovila

• Morar em vila…em São Paulo

• Gestão do lixo na ecovila

• Ecovila e sustentabilidade econômica

• Um carro, um jipe ou um cavalo?!

• Parede de toquinhos

• Casa com água da chuva

• Para iluminar a casa e curtir a noite

• Festa da primavera

• Uma casa para abrigar nossos sonhos

• Uma moldura para o horizonte

• A composteira da minha avó

• Quando o ecológico não é bem ecológico

• Tijolos de adobe

• Não sei se é verdade, mas repasso?!?

• Por que adoro feiras de trocas

• Ecovila sem internet?

• Entre amigos

• Minha casa num programa de tv…

• Ah, esse excesso de e-mails…

• Trabalho de formiguinha

• Socorro, não aguento mais SP!

• Para tecer uma vida na ecovila

• Entre na onda das roupas usadas

• Mão na massa, sem discursos

• Mata atlântica: mais que uma efeméride

• Como construir uma ecovila?

• O que fazer com a madeira que sobrou?

• Histórias de reúso, economia e bons amigos

• Frio na barriga…

• Mutirão de solo-cimento

• Encontro de ecovilas!

• Sua casa pode ser uma ecovila

• Meu telhado verde, verdinho, verdinho

• Celebrar ajuda a enfrentar problemas

• Yoga e sustentabilidade

• O segredo da abóbora mágica…

• Dona-de-casa, eu?!?

• Quanto vale o nosso trabalho?

• Forno de pizza de barro

• Meus vizinhos, minha família

• Mosaico de vidros usados

• A insustentável mão-de-obra

• Sorvete de inhame!

• De que é feita a minha casa?

• Parede de garrafa?!

• Composteira de novo!

• O Natal pode ser ecológico?

• A alegria de viver em comunidade

• Infância ecológica

• Devagar é mais gostoso

• Mitos e vícios modernos

• Crise financeira ou chance para o planeta?

• O que eu vou fazer numa ecovila?

• Fãs de pau-a-pique

• Construir com as próprias mãos

• Parto natural e ecológico

• Confissão: eu não passo roupas

• As ecovilas e as mudanças climáticas

• Slow life: vida mais calma, lenta e confortável

• Paredes vivas de Cob

• Dividir para ter mais

• Tomada de decisão por consenso

• Simplicidade voluntária

• Bicho de ecovila

• Brechó arquitetônico

• Histórias de João-de-barro

• Tapioca: regional, gostosa e sustentável

• Para ter uma composteira caseira

• Mutirão de telhado verde

• Malhação para o planeta

• Minha casa na ecovila

• Catadores de esperança

• Água no copinho plástico? Tô fora!

• Música para sentir a natureza

• Bioconstrução e desastres naturais

• Democracia, consenso ou autocracia??

• Entulho não é lixo!

• Viva o pequeno agricultor!

• Educação para o campo

• Meu bairro, minha cidade

• Por trás do velho clichê

• Para construir uma comunidade

• O prazer das compras solidárias

• O tempo do sol e da lua

• Poluição e Arte dentro do túnel

• Riqueza para além do dinheiro

• Catadora, com muito orgulho

• Nós e a natureza, conectados

• High tech ou low tech?

• Impressões de uma ecochata (?) na Campus Party

• Horta vertical para pequenos espaços

• Receitas naturais para curar a ressaca do carnaval

• Aprendendo a costurar com a avó

• Festa infantil não precisa ser descartável!

• Telhado ou jardim?

• Consumo verde: tarefa difícil mas necessária

• Permacultura: do linear ao cíclico

• Um mergulho na Permacultura

• Cinco dias com o arquiteto descalço

• Banheiro seco? Como assim?!

• Sustentável é também saber ouvir

• Permacultura: transformando problemaem solução

• Uma delícia de mutirão

• O dia em que adotei a Sofia

• Falta de civilidade é fogo (na mata)!

• Design natural é tudo de bom!

• Dividir a lavanderia com o vizinho?!?

• Abaixo as fraldas descartáveis!

• Sim, absorvente ecológico!

• Histórias de uma outra gastronomia

• Uma outra gastronomia – parte 2

• Sem carro e sem delivery

• Por uma dieta que respeite o planeta

• Minhocas via Sedex

• Mais adubo e menos lixo

• Lugar de madeira é…

• Construtoras precisam se adaptar

• Seu Zé e as arvrinhas

• Reunião de condomínio? Não, de ecovila!

• Disk-pizza e permacultura na geladeira

• Domingão na feira de trocas

• Feira de trocas – parte 2

• Feira de trocas – parte 3

• Guarda-roupa coletivo espanta o frio

• Até quando seremos gaiatos?

PATROCÍNIO: