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O valor de uma árvore Giuliana Capello - 08/03/2011 às 18:36
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Você alguma vez já se perguntou quanto vale uma árvore? Ou já se viu encantado por um exemplar específico que, de algum jeito, tocou seu coração pela beleza, pela grandeza, pela cor de suas flores ou pela resistência às chuvas e ao frio intenso? Várias vezes, quando estou na ecovila ou mesmo na cidade, observo as árvores em busca de histórias que elas possam me contar. Bem perto da minha casa, no alto do morro, tem uma araucária belíssima, frondosa, que deve ter uns 50 ou 60 anos, talvez. De braços abertos, é ela quem me recebe na varanda quando chego para me deliciar com o horizonte, sempre em metamorfoses. Sinto uma força interna extra quando olho para aquele ser imponente, que parece abraçar todo o vale. Era assim também com a amoreira em frente à minha antiga casa em São Paulo. Era ela quem anunciava a mudança das estações, com suas folhas cobrindo o chão de cores, ou seus frutos maduros à espera da colheita se bem que, verdade seja dita, nos últimos tempos ela parecia meio perdida, fora do tempo, talvez por conta das alterações que causamos no clima…
Durante toda a minha vida, sempre cultivei amizades especiais com árvores. Lembro-me da jovem tipuana que ficava na calçada da casa da minha infância. Ela foi cenário e parte importante de muitas brincadeiras minhas e da minha irmã, e até do nosso gatinho Dudu, que tinha um dom especial de subir em segundos até o último galho e descer sozinho, ufa!, muito tempo depois. Tínhamos o hábito de sentar debaixo dela para jogar dominó, bater papo, tomar sorvete ou simplesmente receber por alguns minutos alguém que chegava dizendo não ter tempo nem para um cafezinho.
Mesmo no interior, no entanto, há quem se incomode com as árvores. Já vi muita gente pedir à prefeitura a poda da árvore, porque ela sujava o quintal ou a calçada. Poucos são aqueles e sempre vistos como saudosistas que enaltecem a árvore como um patrimônio a ser preservado e respeitado. Parece incrível que, mesmo com tantas campanhas e obviedades explícitas, ainda exista quem não repare ou faça questão das frondosas e generosas árvores.
Aqui em Piracaia, SP, o projeto de reforma da praça do Rosário, uma das principais da cidade, parece não ter levado em conta as árvores centenárias que tornam o lugar agradável e aconchegante. Por alguma razão que não tem razão alguma, além do antigo coreto que foi demolido, o projeto prevê o corte de sete grandes árvores. Não é maluco que a reforma de uma praça implique a eliminação de árvores? O que é uma praça sem suas árvores?!? Tudo bem que o lugar é palco frequente de festas populares, como as festas juninas e as quermesses do feriado de Corpus Christi. Mas, suprimir árvores para instalar quiosques ou aumentar a área impermeável, definitivamente, não me parece nada plausível.
É aí que entra uma nova moda, que ultimamente tenho visto com olhos bastante desconfiados: a tal da (badalada) compensação. Agora, toda ação humana que incorre em crime ambiental parece passível de compensação. Basta plantar umas árvores em qualquer canto para que todos pensem que está tudo certo. É estranho porque, muitas vezes, a ideia de compensar vem antes do princípio de se evitar o estrago. Como no caso da praça, será que o projeto não poderia considerar as árvores e transformá-las, quiçá, em protagonistas ao contrário de serem encaradas como obstáculos a serem transpostos?
Tirar daqui e colocar ali, quando se fala em natureza, não é tão simples como contar dois mais dois ou cantarolar Escravos de Jó. Ainda que a prefeitura divulgue que irá plantar 100 árvores para cada exemplar suprimido da praça, ficam as perguntas: onde ela irá plantar? Quem irá cuidar dessas mudas? Quanto tempo levará para que essas árvores atinjam a maturidade daquelas que foram cortadas? Vale a pena? Por quê? Para quê? Há quem se impressione com os números e até ache que a prefeitura está agindo como um fervoroso ambientalista, ao multiplicar por cem o número de árvores existentes hoje. Na prática, o que ficará, no entanto, será uma praça com menos passarinhos, mais cimento e um saque na verba municipal suficiente para construir uma nova escola ou até duas, que poderiam, com sorte, ensinar aos mais novos lições realmente importantes.
(Feito o desabafo) Deixo para os amantes das copas bojudas, um trecho da música Paineira Velha, da dupla Tonico e Tinoco…
Paineira velha abandonada
Lá na estrada de meu sertão
Tens uma história de meu passado
Que está guardada no coração(…) Paineira velha fiel amiga
Nossos destinos são sempre iguais
Se estou contente você floreceQuando eu padeço suas flores caem
ver este postcomente
Nascemos juntos, paineira velha
Vamos morrer nesta união"
09/03/2011 às 14:12 Anonymous - diz:
Ricardo Zylbergeld – diz:Olá Giuliana,É a tal da crise de percepção. A compensação não leva em consideração as infinitas conexões que esta árvore mantém com todos os elementos do seu entorno nem o quanto ela é fundamental para o equilíbrio deste sistema. Mas, como vivemos em uma sociedade de números e índices (míopes), acabamos aceitando que cortar 1 plantar 1 é uma ação equivalente.Abraços! Adoro seu blog!RicardoInstituto Ambiente Total – Piracicaba
19/03/2011 às 23:42 Anonymous - diz:
Rosineia – diz:Oi, Giuliana! Nesta última sexta-feira participamos de uma reunião na escola e houve uma dinâmica em que passeamos no entorno da escola, observando as casas e principalmente as árvores. Depois cada um disse sobre uma árvore que marcou sua infância. Uma das professoras, além de dizer sobre o que foi pedido, não deixou de lembrar sobre várias árvores que foram cortadas ali mesmo, no bosque da escola, para ser construído um auditório. E o termo usado pelos engenheiros foi exatamente este que você mencionou: compensação. Vão plantar muitas outras “em troca” das que foram arrancadas. A professora citada escreveu até para um jornal, antes do fato acontecer, mas foi em vão. Voltando ao seu título: Qual é “o valor de uma árvore”?Neia
21/07/2011 às 09:32 Anonymous - diz:
Gabriel Tapiti – diz:Ah… como você eu compartilho desse amor por esses seres extraordinários que habitam nossas memórias ancestrais e de infância e o nosso querido planeta…com o som das suas folhas e dos pássaros em seus galhos levo na eternidade da minha existência efêmera a vida junto das árvores..Agardecidíssimo pelas suas plavras e pelo seu blog, sempre muito inspirado. Lições de amor e sustentabilidade. Paz a ti
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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