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Trocas solidárias que enriquecem Giuliana Capello - 29/03/2011 às 18:37
O antropólogo Darcy Ribeiro deu um recado a todos nós quando notou que o índio não guarda para si nenhum saber ou conhecimento. Ele o compartilha com todos na aldeia, porque sabe que assim todos se beneficiam. Dessa maneira, aquele que tece ensina o dom ao grupo, e o mesmo ocorre com os que dominam técnicas de caça, pesca, pintura e de preparo de alimentos. Imagine como seria viver num lugar em que alguns poucos detêm determinados conhecimentos e somente os transmitem a quem pode pagar por eles… Você conhece uma sociedade assim? Eu também.
É claro que existem exceções. Ufa. Nem tudo tem preço por aqui e muita gente vive feliz compartilhando dons, talentos e saberes com os mais próximos, gratuitamente. Agora imagine se essa forma de viver fosse multiplicada por muitos de nós. Como seria o mundo?
Em escala menor, procuro fazer isso entre amigos e posso dizer que é muito gostoso. Tenho pensado bastante no assunto nos últimos tempos, em função dos projetos na Ecovila Clareando, que sempre perpassam por esse tipo de economia, digamos, mais solidária. Por conta disso, passei a reparar nos exemplos que vão nessa direção.
Já faz algumas semanas que dois grandes amigos e vizinhos, Débora e Ângelo, praticam yoga comigo todas as manhãs. Como já pratico há alguns anos e quase completei um curso de formação para ser instrutora de yoga, me ofereci para conduzir as práticas aqui em casa, sem cobrar nada por isso. Assim, acordo mais cedo, preparo a aula, afasto os móveis da sala, acendo um incenso e fico esperando pela chegada deles. É muito gostoso porque isso me estimula a manter um ritmo constante, sem deixar que a preguiça matinal vença a vontade de cuidar do corpo e da mente.
Da mesma forma, o Ângelo, que é agrônomo, vive dando dicas interessantes de como cuidar da horta caseira. Tempos atrás, ele me deu diversas mudas de ervas medicinais, que meu marido plantou no quintal. A Débora já me ensinou algumas receitas de bolos e quando vai viajar, traz para mim tudo o que em sua geladeira não duraria até a sua volta. São atitudes simples, singelas mesmo, mas que fazem toda a diferença. O resultado é um ambiente de confiança, beleza e muita esperança. Sinto que a economia solidária, quando fala de princípios e valores, refere-se também a esses pequenos gestos do dia a dia. E não é nada complicado. É só começar, dar o primeiro passo.
Outro dia, na minha casa, estávamos falando sobre troca de saberes com os amigos Camila e Bruno que, apesar de muito jovens, têm uma série de habilidades incríveis: sabem fazer papel reciclado, têm experiência em hortas caseiras, são ótimos artesãos de fibras naturais, sementes e afins, e ainda cozinham que é uma beleza. Tudo isso está pertinho de mim, disponível de forma amorosa. Não é o máximo?
Cultivar habilidades nos dá mais autonomia na vida, e isso, como costume dizer, reduz nossa necessidade de dinheiro e, portanto, de trabalho remunerado. O resultado é uma vida mais simples e prazerosa, em que luxo significa se alimentar, num sentido mais amplo, daquilo que plantamos e preparamos com nossas próprias mãos.
Nesse mesmo espírito, doar ou trocar aquilo que não tem mais utilidade para nós é outra forma de fazer girar uma economia com menos moeda e mais atenção a quem está perto da gente. Outro dia enchi uma caixa grande com livros e revistas que já li e não quero mais guardar. Deixei num canto da casa, para que os amigos pudessem olhar e levar embora o que interessasse. Metade já se foi e é incrível como sempre tem alguém precisando exatamente daqueles itens.
Nosso planeta é abundante demais, mas isso não nos dá o direito de desperdiçar seus recursos. O que parece óbvio, na prática está longe de ser um princípio norteador de nossas atividades. Descobrir maneiras prazerosas de mudar essa realidade é a chave para fazer a solidariedade se expandir cada vez mais entre nós. Há um mundo inteiro a ser redescoberto e reinventado.Vamos nessa?
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29/03/2011 às 20:14 Anonymous - diz:
Janete Canteri – diz:Gosto muito do que vc escreve pois embora eu não viva em uma ecovila tenho árvores frutíferas em meu quintal, o que atrai pássaros. Reciclo meu lixo há uns vinte anos. Dôo o que não quero mais e alguém pode precisar. Sou adepta da Simplicidade Voluntária e penso como vc, que a vida é muito melhor quando procuramos vivê-la simplesmente.Deus te abençôe.Janete
30/03/2011 às 11:07 Anonymous - diz:
Ricardo Zylbergeld – diz:É a tal da Simplicidade Voluntária:http://pt.wikipedia.org/wiki/Simplicidade_voluntária
30/03/2011 às 14:32 Anonymous - diz:
Alexandre Capello – diz:Gostei muito de sua matéria. Acho que temos o sobre nome em comum, será que somos parentes? Mande notícias no meu e-mail, pois quero te conhecer. Acho que somos parentes.Abraços
05/04/2011 às 21:22 Anonymous - diz:
denise vida – diz:Feliz em saber noticias de pessoas queridas!Posso compartilhar passeios de bikes com vocês!?beijos…saudades!
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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