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Teste drive do banheiro seco Giuliana Capello - 07/02/2012 às 17:10
Esqueça aquele botãozinho mágico que nos faz pensar que tudo está em ordem. Apertar a descarga não significa que o problema dos dejetos esteja resolvido. Muito pelo contrário. Infelizmente, a maioria esmagadora da população mundial não tem rede de coleta e (muito menos) de tratamento de esgoto. No entanto, muita gente continua achando que o modelo de banheiro que utilizamos em casa é adequado.
Nada contra o vaso sanitário, mas eu queria que na minha casa fosse diferente. Por isso, decidimos construir um banheiro seco ou compostável, em que as fezes são coletadas e armazenadas em tonéis, posicionados para a direção Norte, de forma a receber o calor do sol durante boa parte do dia. Assim, os dejetos entram em processo de decomposição e, misturados à serragem despejada no vaso sanitário após o uso, viram adubo para as plantas em cinco ou seis meses.
É simples, pode acreditar. E funciona. A parte mais difícil, na verdade, não é técnica nem tecnologia. O desafio tem outro nome: chama-se preconceito. Isso mesmo. A maioria das pessoas não conhece e, no entanto, ao ver uma foto faz careta e rejeita a ideia. Por quê?
Lá em casa estamos felizes pela opção e fazemos questão de espalhar a solução para o maior número de pessoas possível. Alguns amigos já até desistiram de inventar perguntas difíceis, questionar, procurar problema onde não existe. Se bem construído e manejado, não há o que dar errado. É questão de costume, de abertura para mudanças de hábitos. Com um pouco de disponibilidade para repensar algumas coisas – e gostaria de lhe pedir isso nesse momento – é possível encontrar outras formas (muito mais sustentáveis) de encarar o funcionamento natural de nossos intestinos…
No lugar da descarga, basta despejar no vaso uma pá de serragem após cada uso. A escadinha permite que o usuário não tenha contato visual com os dejetos, além de esconder a rampa que leva as fezes até a caixa de armazenamento, localizada do lado de fora da casa. Antes que você me pergunte: o banheiro é seco, mas tem pia com água para lavar as mãos e uma área com chuveiro.
Aliás, a água da pia e do chuveiro também tem destinação ambientalmente correta. Nada de gastar com tubos para levar os resíduos para bem longe, fingindo que não é com você. Bem atrás do banheiro, do lado de fora da casa, construímos uma pequena bacia de evapotranspiração: um tanque impermeabilizado que irá receber plantas de folhas largas, que consomem muita água e evaporam-na através das folhas, filtrando as impurezas (é o caso da taioba e da bananeira, por exemplo). E pronto. Problema resolvido, sem impactos negativos para o entorno ou para a minha família.
Vale a pena dizer que tivemos outros cuidados também: a água do banho será aquecida com coletores solares; o revestimento da escada, em mosaico, reaproveitou restos de pisos dos vizinhos; usamos tinta à base de cal e pigmentos minerais, para manter a qualidade do ar interno; a bancada da pia foi construída pelo maridão com restos de madeira da estrutura da casa; os azulejos pintados à mão foram presente de uma amiga querida; e a maior parte de todo esse trabalho foi feita com nossas próprias mãos.
Mês que vem sigo para a comunidade de mala, cuia, piano e esperança – e na companhia do moço da foto, que preferiu preservar a identidade, ainda que vestido, bonitinho, apenas testando a ergonomia do novo equipamento doméstico… Mais adiante eu conto outros detalhes pra você.
p.s.: já escrevi sobre o tema em outros posts: Banheiro seco? Como assim?! e E quando não há rede de esgoto?.
ver este postcomente
07/02/2012 às 18:37 Janete Canteri - diz:
Parabéns pela tua coragem em mudar aquilo que é considerado como o correto e aceitável, sem inibições. Quem sabe se num futuro próximo não tenhamos todos que adotar o banheiro seco?
Abraços,
07/02/2012 às 21:43 licia castro - diz:
Não fica cheiro ??? Como é essa rampa, ela tem que ser limpa de tempos em tempos ??? Fiquei bem curiosa !!
Obrigada
09/02/2012 às 18:02 Léia - diz:
O mês de março promete, hein? Boa sorte, nessa nova fase, com marido, cachorro, piano, banheiro seco, amigos e tudo o mais!. bj.
28/02/2012 às 11:12 Giuliana Capello - diz:
Lícia, quando o banheiro é bem projetado, não fica cheiro nenhum. A rampa, no meu caso, foi feita de maneira que é possível lavá-la de tempos em tempos – basta retirar o recipiente que recebe os dejetos, para que não sejam molhados. É simples, barato, ecológico e educativo. Com essa tecnologia, seria possível resolver o problema do esgoto em todo o país, de maneira autônoma e independente da falta de vontade dos governos… Que tal?
02/04/2012 às 13:39 Claudia Chow - diz:
Só vi um problema no seu banheiro Giuliana: Acessibilidade… Tem como fazer sem degraus?
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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