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Terra fértil e sangue menstrual Giuliana Capello - 08/06/2010 às 11:45

Antigos registros indígenas dão conta de rituais feitos pelas mulheres durante o tempo da lua, ou seja, a menstruação. Elas acreditavam que o sangue menstrual trazia visões, sonhos especiais e poder de cura. De cócoras sobre a terra, as índias deixavam o sangue escorrer livremente e penetrar o solo “para nutrir a terra e garantir a manutenção da vida no planeta”. Era uma espécie de retribuição à energia vital, um jogo de equilíbrio que mantinha forte a ligação das mulheres com a terra e com Gaia – terra com “t” maiúsculo.

Já faz algum tempo, li um texto de uma líder indígena que dizia que os homens entraram em guerra na Terra quando as mulheres deixaram de jorrar seu sangue sobre a terra. Fatos históricos à parte, faz muito tempo que as mulheres não menstruam sobre a terra, sequer sentem o cheiro de seu sangue porque os absorventes industrializados trazem perfumes para disfarçar o aroma do sangue e confundir o olfato. A mulher anda tão distante de seu ciclo natural que sente nojo do próprio sangue, prefere não senti-lo, não vê-lo.

Há cinco anos, adotei o absorvente ecológico em meus “tempos da lua” – e já até escrevi sobre isso aqui no blog. A experiência começou para alimentar minha curiosidade sobre como faziam as mulheres antes dos descartáveis – e também para ver se eu seria capaz de reduzir o lixo gerado com os descartáveis (que não são nem um pouco ecológicos). Sim, porque muitas de nós sequer conseguem imaginar o tamanho do incômodo de passar pela menstruação com paninhos laváveis. Não é verdade?

Neste feriado eu estava na ecovila conversando com o Hiroshi, amigo, idealizador da comunidade e agrônomo defensor dos orgânicos. O papo girava sobre como adubar a terra com o composto da cozinha, quando resolvi contar a ele que eu adubava algumas plantas em casa com o meu sangue menstrual. Parênteses: os absorventes ecológicos, feitos de tecido de algodão, ficam de molho na água durante 24 horas, antes de serem lavados com sabão de coco. Essa água recebe o sangue com muitos nutrientes e hormônios que são excelentes fertilizantes para a terra. Pois bem. Ele adorou a história e me pediu para doar um pouco dessa solução para ele, para que possa testar em algumas plantas. Achei engraçado e confesso que, por um momento, achei íntimo demais para compartilhar. Mas, em seguida, um pensamento simples tomou conta de mim: por que não? Que mal haveria em adubar a terra?

Bom, se você chegou até aqui no texto é porque se interessou pelo assunto ou, então, ficou tão intrigada(o) e enojada(o) que não conseguiu interromper a leitura. Seja como for, que bom que você chegou até aqui! Gosto dessas coisas estranhas que parecem chacoalhar nossos costumes. Lembra-me aquela história dos macacos no laboratório, conhece essa? É mais ou menos assim: Cinco macacos foram colocados numa jaula. No centro dela havia uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para pegar as bananas, os cientistas jogavam água fria nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco tentava apanhar as bananas, os outros o impediam, com uma grande surra. Após algumas brigas, um dos macacos foi substituído. O novato, é claro, logo tentou chegar às bananas, mas foi reprimido a tapas pelos demais. Tempos depois, ele já não tentava alcançar as bananas. Um segundo macaco foi, então, substituído e o mesmo ocorreu: levou uma surra antes que pudesse pegar uma banana, agora com a ajuda do primeiro macaco trocado. Em poucos dias, um terceiro macaco foi substituído, e depois um quarto e, finalmente, o último dos veteranos. Agora eram cinco novos macacos que, mesmo sem nunca terem tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse comer as bananas. Diz a história que se pudéssemos perguntar a algum deles porque o grupo batia em quem tentasse subir a escada, a resposta seria algo do tipo “não sei, mas sempre foi assim”…

Estamos em tempo de rever hábitos arraigados, executados por repetição sem crítica ou reflexão. Antes de dizer que você não faria isso, que é nojento, que é coisa do passado ou da sua avó, experimente. As surpresas só ocorrem àqueles que tentam. A mulher precisa aprender a valorizar a menstruação como uma época de renovação e cura. Menstruar é natural, bonito e pode ser muito ecológico. Acredite, a terra irá agradecer. As plantas do meu quintal, pelo menos, ficaram muito gratas…

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Comentários

08/06/2010 às 13:26 Anonymous - diz:

Andiana – diz:Formidável! São visões assim que fazem a diferença… e diferença sensata! Valeu!

08/06/2010 às 18:27 Anonymous - diz:

Cecília – diz:Achei o texto muito interessante, e quem sabe daqui a pouco não tem mais mulheres experimentando essa ideia, só ñ sei se eu vou regar as plantas srsrsr.

08/06/2010 às 21:54 Anonymous - diz:

Edna Barros – diz:Muito interessante essa sugestão. Não vejo nada de nojento, pois valorizo a forma perfeita como que Deus me criou. Mas esta prática requer treinamento. Vou pensar muito no assunto. Te admiro muito pela coragem do feito, mas principalmente, pela divulgação do feito.

09/06/2010 às 13:47 Anonymous - diz:

Daniel – diz:Meio nojento…..

09/06/2010 às 14:11 Anonymous - diz:

Lívia Corazza Nogueira – diz:Olá, Giuliana! Sincronicidade é o máximo, né? Há um tempo deixei uns comentários aqui.Eu tava pra me formar em Gestão Ambiental em SP e vc me ajudou muito com seus temas em meus trabalhos e no meu dia-a-dia.Hj moro em Floripa e fui conhecer o Instituto Çarakura ontem, um sítio bem conectado à Permacultura e num momento conversei exatamente sobre isso que vc abordou.Aliás, mais uma vez vc tá de parabéns pela forma de abordagem sobre conscientização! Adorei a história dos macacos! Não lido com a menstruação com nojo, mas não agrego nenhuma função a ela. Vou repensar sobre isso e tentar modificar algo. Valeu pela leitura! Grande abraço!

09/06/2010 às 15:58 Anonymous - diz:

Raciel Gonçalves Junior – diz:Giuliana,Parabéns pelo texto. Considerando que ele está em linha com um assunto levantado na Rede Social Arca de Noé (http://arcadenoe.ning.com/profiles/blogs/primeira-menstruacao-de-jovem), tomei a liberdade de publicá-lo na íntegra lá com o devido crédito.Lá o assunto começou a partir do seguinte texto (parte): “A menarca — primeiro fluxo menstrual — de uma índia de 12 anos foi o argumento utilizado pela advogada Karla Pinhel, que defende os cerca de 300 indígenas acampados na Esplanada dos Ministérios desde janeiro, para impedir a remoção dos manifestantes de 12 etnias e solicitar a retirada dos cerca de 80 homens das polícias Federal e Militar e do Batalhão de Operações Especiais (Bope). Sensível à tradição, que prevê o isolamento da menina por sete dias em sua cabana, a juíza federal substituta da 6ª Vara do Distrito Federal Maria Cecília Rocha revogou um mandado judicial, emitido por ela mesma, e concedeu uma liminar para que o grupo permaneça na região central de Brasília sem o monitoramento da polícia.”O que me levou ao seguinte comentário: “Na condição de Ator Social no Sistema de Garantia de Direitos da Criança e Adolescente, ocorreu-me (aproveitando a Cultura e os ensinamentos presentes neste costume dos Guajajaras) de iniciar uma mobilização para encontrar Advogados, que agindo voluntariamente, com base no Estatuto da Criança e do Adolescente, buscassem um meio jurídico de garantir que a primeira menarca da “menina não indígena vivendo em situação de vulnerabilidade” também venha a ser em lugar sagrado, ou seja, em uma moradia digna e no seio de uma família.A princípio – uma MISSÃO IMPOSSÍVEL-, mas podemos tentar, certo?”[ ]‘s,Raciel Gonçalves JuniorRede Social Arca de NoéCriador e Netweaver…

12/07/2010 às 14:30 Anonymous - diz:

Diana Gilli – diz:Como eu disse da outra vez Giu, é um conceito diferente de vida e eu respeito. :)

09/03/2012 às 12:08 Josiane - diz:

Adorei o texto!
Gostaria de saber um pouco mais sobre a Ecovilas.

obrigada

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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