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O tempo é o novo regente Giuliana Capello - 05/01/2010 às 19:37
Há algo de novo (ou muito velho) no ar, que gostaria de compartilhar com você neste início de ano. Tenho pensado muito a respeito das confusões climáticas e, desta vez, queria pousar aqui um olhar mais esperançoso embora sem eufemismos.
Em tempos remotos, o homem atribuía às forças da natureza o poder de deuses. O sol, o vento, a lua, a chuva, o trovão. Entidades que ditavam o ritmo e os rituais das tribos. O clima regia a vida na Terra e, por isso, havia uma maior conexão com os ciclos naturais. Mas a trajetória do desenvolvimento científico e tecnológico, juntamente com a era dos produtos sintéticos e artificiais, mudou sensivelmente isso tudo, rebaixando as antigas divindades e colocando o homem no altar-mor do planeta. Durante séculos, não foi preciso interromper tarefas por causa da chuva, do sol forte ou de tempestades de verão. As máquinas que inventamos funcionaram como bolhas à prova de quase qualquer intempérie.
Nossa pretensão de sobrepor a humanidade aos poderes da natureza parecia plenamente realizada. Até que o remédio, por excesso, tornou-se veneno. E como essa parte da história, evidenciada na Dinamarca, você já conhece, vou logo ao ponto no qual quero chegar: sinto como se tivesse sendo convidada a olhar mais para o céu, os rios, os mares, as florestas. Como assim? Ora, quantas vezes nos últimos meses você teve algum contratempo causado pelo clima? Pode ter sido uma chuva forte que complicou o trânsito da cidade ou uma gripe causada pelas alterações bruscas de temperatura, por exemplo. Não importa. O fato é que fazia tempo que não prestávamos atenção ao que acontecia à nossa volta.
É como se, de repente, mas não tão de repente assim, o tempo virasse regente da orquestra. Nas minhas férias de fim de ano, a chuva que caiu sobre São Paulo fez o comandante do avião em que eu estava sobrevoar Santos por cerca de uma hora e meia, à espera de uma condição climática mais segura para pousar em Congonhas. Nem mesmo a ponte aérea Rio-SP, antes percorrida em 45 minutos, escapa da sensação de que não somos mais os controladores do mundo.
Ontem, a viagem de volta da Ecovila Clareando para São Paulo parecia mais um trailer do filme que, embora sem data marcada, estamos prestes a assistir. A abertura das comportas das represas de Piracaia e Nazaré Paulista, que estão acima da capacidade máxima, provocou inundações em vários bairros da vizinha Atibaia. Da estrada, vi dezenas de casas submersas, áreas de pastagem totalmente alagadas, plantações de flores debaixo dágua. Tudo muito triste. Logo que cheguei em casa, sã e salva, mas um tanto abalada pelos estragos da chuva, o céu desabou sobre São Paulo, provocando enchentes em diversos pontos. Na TV, mais notícias sobre deslizamentos de terra e mortes.
Até onde vai isso tudo? Ninguém sabe ao certo. Mas é tempo de observar o tempo. É tempo de adequar os horários das reuniões de trabalho para escapar das chuvas do fim do dia, de evitar viajar para lugares que estão sob risco de desastres climáticos, de organizar o dia-a-dia de acordo com as forças da natureza.
A diferença entre as comunidades ancestrais e as civilizações contemporâneas está na qualificação que damos à natureza. Antes deuses, hoje demônios… É preciso que haja uma reconciliação, uma retomada do equilíbrio. Neste momento em que muitos consultam previsões climáticas antes mesmo do café da manhã, olhar para o planeta com compaixão e mais empatia pode ajudar a transpor esse período de maneira mais pró-ativa, esperançosa e, digamos, realista.
Como dizem os budistas, os problemas são inevitáveis, mas sofrer é uma opção. Agora é hora de agir e não se deixar paralisar pelo medo. Encaremos os desafios como oportunidades de transformação, de reordenação de nossas vidas para um ritmo mais natural, mais humano, mais justo para todos e para o planeta. É preciso ter força para transgredir, como estão fazendo os moradores de São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba, que optaram pela garra e determinação para cuidar do pouco que restou da cidade, certos de que o melhor a fazer é unir esforços e reerguer a vida. O carnaval, desta vez, dará lugar ao espírito da cooperação. E que esta seja uma maneira de nos reencontrarmos no tempo do tempo do tempo.
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06/01/2010 às 11:56 Anonymous - diz:
Elza Dupré – diz:“Ora, quantas vezes nos últimos meses você teve algum contratempo causado pelo clima?”…Isso muito me tem feito pensar e repensar. Quando menina… e não faz tanto tempo assim, afinal tenho 52 anos, todos os dias contrariando minha mãe e fugindo do alcance de seus olhos, saia bem no horário da chuva da tarde no verão… caminhava pela enchurrada de água tão limpa e clara aqui em Sampa… incrível né.Hoje, sou artesã e trabalho com produtos naturais, procurando ser o mais ecológica possível, e me pego fugindo das chuvas quando de minhas exposiçãoes ao ar livre, que chegam de surpresa e ferozes e causando em menos de 4 meses, estragos e perdas de minhas peças e três gripes fortes. Precisamos pensar… e… repensar SIM, e muito. Obrigada pelo espaço de desabafo…Um Feliz e CONSCIENTE 2010!!!
06/01/2010 às 12:25 Anonymous - diz:
Jessica Meireles – diz:Algumas pessoas ainda acham os índios e as civilizações antigas ultrapassadas ao tratarem a natureza como um deuses. O que eles desconhecem ou não admitem é que a natureza sempre ditou as regras, por um tempo ainda tivemos a ilusão que estávamos no controle e agora ela vem mostrar que não. Homens quiseram tirar a divindade e o poder na natureza, mas não somos maiores do que ela. Estamos inseridos nela, não sabemos controlá-las. Agora temos que admitir a nossa vulnerabilidade e voltarmos a tratá-la não como realmente um deus, mas como um conjunto que merece o nosso respeito. Muito bom o texto! Parabéns pelas colocações!
11/01/2010 às 11:59 Anonymous - diz:
Paulo Bastos – diz:Giuliana,Adorei a abordagem do clima antes “Deus” e agora “Demôino”, e questão da consciliação.O seu último parágrafo está totalmente budista… Parabéns!
12/01/2010 às 13:32 Anonymous - diz:
Giuliana – diz:Olá, Paulo, Jessica e Elza, feliz 2010 para vocês! Obrigada pela partilha de ideias e sentimentos. É muito bom quando sentimos que nossas emoções têm ressonância no coração de outras pessoas… Um abraço grande, Giuliana.
13/01/2010 às 14:09 Anonymous - diz:
Vivi Miguez – diz:Adorei o seu texto! Excelente reflexão! Que 2010 seja maravilhoso!!! Abraço.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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