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O tempo de uma casa Giuliana Capello - 02/06/2010 às 11:11
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Em julho, a obra da minha casa completará três anos. Tempo demais para uma construção, não?! À vezes, acho isso. Noutras, no entanto, penso que está adequado às possibilidades. Quando começamos, tínhamos em mente a ideia de construir da forma mais sustentável possível. E a pressa (o relógio do tempo), muitas vezes, dificulta todo o processo. É preciso tempo para pesquisar materiais, testar, buscar mão de obra que conheça a técnica ou esteja aberta para aprender algo novo.
A casa, em termos de etapas da obra, já foi concebida de modo diferente do convencional. Criamos primeiro uma grande estrutura de madeira, um paliteiro de eucalipto de reflorestamento (da região de Piracaia, SP, onde fica a ecovila). A Lara Freitas, arquiteta e amiga querida, topou a história. Tínhamos, então, esse paliteiro e o telhado, metade verde (com um gramado) e metade com telhas cerâmicas. Nenhuma parede.
Só essa fase consumiu cerca de um ano. Tudo feito artesanalmente, com madeira roliça (e não aparelhada, retinha) e montada com apenas duas ou três pessoas. Soma-se aí a dificuldade de se construir no campo, longe das lojas de materiais de construção, sem telefone para a comunicação com os funcionários da obra (à época, não tínhamos celular que funcionasse direito na ecovila), sem falar no fato de estarmos em São Paulo durante a semana e só conseguir visitar a obra nos fins de semana.
Depois, veio a fase dos mutirões para levantar paredes de barro. Pau-a-pique, adobe, COB. Reunimos alguns amigos, mas que também só podiam ajudar nos sábados e domingos. E nem sempre rendia bem. Mas eram, sem exceção, momentos gostosos, prazerosos e de muito aprendizado (muitos deles, aliás, compartilhados com você aqui no blog). Nunca havia imaginado botar a mão num bolo de terra misturada a esterco de gado! E, no entanto, descobri ser algo natural, sem nojo, sem preconceitos.
O tempo, em algumas ocasiões, impôs limites ao nosso desejo de construir aos pouquinhos. As madeiras tinham de ser protegidas antes do período das chuvas, especialmente porque não receberam tratamento químico algo proibido na ecovila, para evitar a contaminação do solo e evitar ambientes internos agressivos à saúde dos moradores. Então, para garantir a integridade dos materiais, optamos por lançar mão dos tijolos de solo-cimento em algumas paredes e, assim, cobrir as madeiras da ação das águas.
Quando a casa ficou inteiramente fechada, com cobertura e paredes, já estávamos no segundo ano de obra. E ainda faltava muita coisa a ser feita. Toda a hidráulica e elétrica, mais os pisos, a pia da cozinha, o fogão a lenha etc. etc. Ficamos meses sem pedreiro na obra, porque estava difícil encontrar uma equipe disposta a trabalhar e bem. Testamos alguns profissionais, sem muito sucesso. Dispensamos outros, por problemas diversos. E, assim, fomos seguindo, devagarinho, passo a passo, tentando conter a ansiedade de ocupar logo a casa.
Nesse caminho, tive algumas desilusões com a comunidade, que o tempo e algumas boas conversas estão cuidando de sanar, graças a deus…. Assim é a vida, não? Construída no dia a dia, tijolo por tijolo, sem pressa. Mais importante do que ver a casa pronta é participar desse processo. Quanto tempo deve levar uma obra? Depende. Tem gente que terceiriza tudo, bota uma equipe grande para trabalhar e um relógio bem grande por perto para mostrar que o tempo é o grande regente daquela empreitada. Mas, no nosso caso, a intenção de construir de modo mais ecológico passava também por um ritmo mais ecológico, mais humano, mais pessoal e intransferível, dentro das nossas possibilidades.
Passados esses quase três anos, vejo o quanto aprendi com tudo isso. E, por isso, mesmo, a casa já tem um valor inestimável para mim. Ela me ensinou muito! Aprendi a ser mais paciente, mais tolerante, mais flexível, menos radical… Aprendi que um projeto de arquitetura é, acima de tudo, um sonho que vai além de trenas, calculadoras e desenhos no computador. E mais: hoje vejo que ela estará sempre em construção, mudando a cada dia, com as flores no jardim, a ação do tempo, o desejo de mudar os móveis de lugar, de trocar a cor das paredes, de montar um quarto para uma criança no futuro, de torná-la mais confortável no inverno (com mais tapetes, por exemplo), sei lá. No fundo, percebo e sinto que uma casa nunca termina. Porque se os donos estão vivos e mudam o tempo todo, ela também seguirá o mesmo caminho…
p.s.: Na foto, uma imagem de mais de um ano atrás, quando as tramas de bambu das paredes de pau-a-pique ainda estavam à mostra. Para lembrar o quanto já percorremos do caminho…
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02/06/2010 às 17:46 Anonymous - diz:
Renato – diz:Cara Giuliana,Obrigado por compartilhar todas essas experiências e impressões. Eu e minha esposa somos “pré-pioneiros” da ecovila Clareando. Acompanhamos a primeira apresentação do Hiroshi sobre o sonho de criar a ecovila e também estivemos no primeiro piquenique. Por vários motivos optamos por outro caminho, e hoje temos um sítio relativamente próximo de onde vocês estão (Toledo, MG). De certa forma, acompanhar seu blog acaba também sendo uma oportunidade de imaginar como teria sido se nós tivessemos tomado outra decisão no passado.Abraço e Felicidades!
07/06/2010 às 15:45 Anonymous - diz:
sonia russo – diz:giulina, como vai vc? um beijo! parabens pela casa.
14/07/2010 às 10:27 Anonymous - diz:
Andre Eisenlohr – diz:Muito bom – construindo, aprendendo e vivendo, tudo no tempo certo. Parabéns, o seu próprio caminho é sempre o melhor!
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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