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Sustentável e mais barato, sim! Giuliana Capello - 02/11/2010 às 12:32

Um dos comentários que mais ouço a respeito de construções, tecnologias e outras opções de consumo mais sustentáveis resumo aqui em poucas palavras: “custa sempre mais caro”. Será? Recuso-me a pensar assim e deixar por isso mesmo, sem nenhuma reflexão. E sabe por quê? Porque, na verdade, acredito que são as formas insustentáveis de produção de bens de consumo que fazem tudo parecer “menos caro”… Você já ouviu falar em externalidades negativas? Sem querer me aprofundar em conceitos complexos, digamos que elas seriam os custos ambientais que as empresas não internalizam, não consideram como responsabilidade delas porque também acabam não pagando por eles e, por isso, não adicionam no preço de seus produtos.

Quer um exemplo? Imagine se um produtor rural que utiliza insumos e defensivos agrícolas (que poluem a água e o solo, prejudicam o equilíbrio dos ecossistemas e a saúde dos trabalhadores do campo, entre outras externalidades) fizesse as contas e incluísse no preço final de seus produtos um percentual para ser destinado a internalizar ou compensar esses problemas com medidas mitigadoras? Quanto custaria o mesmo pé de alface? Agora, o que acontece com a alface orgânica? Sua produção não polui o solo nem a água, nenhum trabalhador se contamina com produtos químicos nas lavouras, a biodiversidade não é colocada à prova constantemente, enfim, não há externalidades negativas. Ao contrário, a produção orgânica, em geral, leva a externalidades positivas: mais qualidade na alimentação, meio ambiente mais saudável, trabalhadores mais satisfeitos e sadios etc.

Agora, concordo que fica difícil mesmo competir com grandes produtores, que vendem pela metade do preço. Na gôndola dos supermercados, pouca gente pensa em externalidades negativas… Sem falar que muita gente, ainda que pense, não tem condições de optar pela versão de preço mais justo.

Uma forma de melhorar essa equação seria falar mais sobre os custos socioambientais gerados pelas atividades agroindustriais. É preciso que os processos sejam mais transparentes, que a população tenha acesso a informação, e que possa ter condições de avaliar minimamente se aquele preço internalizou essas externalidades. Certamente, quando esses custos não são contabilizados, acredite, uma hora ou outra eles recaem sobre a sociedade – na forma de mudanças climáticas provocadas pelo desflorestamento, na redução da qualidade do ar ou da água, no aumento de incidência de doenças causadas pela poluição e por aí vai.

Sabe aquelas roupas made in China que são vendidas a preços bem mais baixos? Já pensou nas externalidades não contabilizadas? Trabalhadores mal pagos, matérias-primas extraídas sem critérios ambientais, processos industriais que não zelam pela saúde ambiental, tecidos sintéticos que não deixam a pele respirar, pigmentos que poluem a água… Certamente custa menos num primeiro momento, mas ainda poderá nos custar muito, muito mais.

No mercado da construção também é assim. Sempre que surgem produtos novos, com tecnologias verdes, o preço é mais alto do que os “similares” já disponíveis. Veja o caso das tintas, por exemplo. Elas contêm compostos orgânicos voláteis (COVs) que são emitidos para a atmosfera meses e meses depois da aplicação e são tóxicos à nossa saúde e à do planeta. Tem gente que gosta do “cheirinho de tinta fresca e casa nova”, e nem imagina que esse odor possa ser prejudicial ao longo do tempo. Por isso, considera “bobagem” gastar mais com uma tinta que promete menos COVs em seu quarto de dormir…

Em linhas gerais, uma casa padrão construída com cimento, areia, tijolo cerâmico, ferro e madeira (trazida da Amazônia para virar estrutura de telhado e fôrmas quase descartáveis) custa menos do que outra construção que se pretenda mais criteriosa na escolha dos materiais. A diferença, no entanto, está na qualidade da habitação; na consciência tranquila por não patrocinar empresas poluidoras, colecionadoras de externalidades negativas; no apoio a novas formas de produção e tecnologias mais limpas; na aposta num futuro mais saudável para todos nós.

Num primeiro momento – não tem muito como ser diferente – esses produtos diferenciados, mais sustentáveis, custam mais porque batem de frente com outros que não levam em consideração suas externalidades. A diferença salta aos olhos. Mas é preciso pensar duas vezes antes de dizer que os verdes custam mais. Se houvesse mais espaço e incentivos para essa nova geração de produtos, o preço, com a escala maior, poderia baixar um pouco. É tudo uma questão de escolhas, de critérios, de visão de futuro. O resto é miopia induzida.

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Comentários

02/11/2010 às 20:18 Anonymous - diz:

Luciano Freaza – diz:Muito boa essa matéria. Os consumidores, através das suas escolhas de consumo, modelam as práticas empresariais.

03/11/2010 às 12:16 Anonymous - diz:

Jara Noronha – diz:Quanto maior o número de pessoas praticando o consumo consciente, menor será a sensação de que os produtos sustentáveis são sempre mais caros.

04/11/2010 às 11:41 Anonymous - diz:

Felipe Salek – diz:Concordo com o texto. Há de se colocar ainda um outro fator que se percebe no mercado de produtos sustentáveis, que é o adicional de preço relativo à moda e inovação. É indiscutível que o “sustentável” está na moda. E a lógica mercadológica jamais deixaria de agregar esse componente ao somatório que resulta no preço final desta qualidade de produtos. Infelizmente a lógica do mercado não obedece regras éticas próprias, a não ser que estas sejam impostas de fora para dentro. Desta forma, a discrepância social que existe no Brasil faz com que aqueles consumidores que, por pressão de uma condição socioeconômica, consideram apenas o preço etiquetado no momento da compra ainda não sejam o público alvo do comércio de produtos sustentáveis. Infelizmente. Consumo consciente não é apenas evitar desperdício. Começa na escolha dos produtos consumidos. Deve-se ter, portanto, uma preocupação em evitar que esta enraizada cultura de consumo se expanda e se perpetue na nossa sociedade. Ótimo artigo.

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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