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Só tecnologia não salva o planeta Giuliana Capello - 08/02/2011 às 16:06

Já percebeu a quantidade de novos produtos que estão sendo fabricados com o rótulo de ecológico? Tem de tudo: placas solares em forma de telhas, geringonças para produzir energia, plásticos “verdes”, embalagens biodegradáveis, combustíveis mais limpos, enfim, um mar de novidades que prometem ajudar no combate ao aquecimento global e outros males.

Mas será que isso significa que estamos ficando mais sustentáveis? Não necessariamente. Nada contra as tentativas e as descobertas científicas, mas é preciso ficar atento: só com tecnologia não será possível reverter o quadro devastador que já pintamos aqui na Terra. De modo geral, cada vez que se cria uma nova tecnologia é como se desestimulássemos as mudanças de comportamento, as soluções mais simples, individuais e a tomada de consciência a respeito da urgência planetária – isso tudo, para mim, tende sempre a ser mais eficiente do que simplesmente esperar que o apertar de alguns botões resolva todos os problemas socioambientais.

Incrementos de tecnologia podem, ao contrário do que muitos pensam, retardar o tratamento da “doença”, permitir uma sobrevida mas sem muita perspectiva. É mais ou menos como usar um esparadrapo para estancar uma hemorragia… Exagero? Tenho minhas dúvidas.

Quando a indústria cria um produto aparentemente bom para o planeta, muitas vezes nos esquecemos de analisá-lo de maneira mais abrangente. As lâmpadas fluorescentes são um bom exemplo. Em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil, elas vêm sendo tratadas como salvadoras em políticas públicas simplórias de redução do consumo de energia. Mas não é para tanto. Se, por um lado, elas economizam de verdade até 80% de energia (na comparação com as incandescentes), de outro elas deixam rastros ainda não mensurados: são importadas da China e outros países asiáticos (o que significa consumo alto de combustível no transporte), contêm metais pesados que poluem o solo e a água e ainda têm um percentual muito baixo de reciclagem, já que implicam tecnologias complexas e pouco desenvolvidas por aqui.

Em outras palavras, a tecnologia resolve um problema mas sempre traz outro ou outros, como ocorre com qualquer atividade humana. Já que é assim, melhor seria se pudéssemos caprichar nas ações pessoais de redução de consumo, antes de “terceirizar” a responsabilidade. Entendeu?

Não dá para imaginarmos que a tecnologia é exclusivamente positiva, sem parar para avaliar as implicações referentes à extração de suas matérias-primas, seu modo de produção e até mesmo seu descarte pós-consumo. É aí que mora o enrosco. No caso das lâmpadas, elas são mais eficientes, sim, mas muito mais problemáticas no descarte do que as lâmpadas incandescentes, de vidro e filamento metálico, que podem ser recicladas mais facilmente e sem contaminar a natureza.

Outro exemplo diz respeito à madeira de reflorestamento. Ultimamente, qualquer peça feita com esse tipo de madeira é tida como ecológica. Mas não é bem assim. Apesar de ser obviamente melhor opção do que extrair toras ilegais de florestas nativas, a expansão de áreas de florestas plantadas resulta no aumento das florestas monoculturais e, portanto, de baixa biodiversidade. (Se você já entrou numa floresta de eucalipto sabe que ela é mais silenciosa do que qualquer pedacinho da Amazônia, por conta da quase ausência de animais.)

Eu poderia ficar aqui enumerando dezenas de exemplo, mas não é esse o objetivo. O importante nessa história é perceber que o introduzir mais tecnologia nem sempre é a melhor saída. Já ouviu aquela história da caneta que teria sido desenvolvida pela Nasa para ser usada por astronautas em ambiente sem gravidade? Pois então, para criá-la os cientistas precisaram de muita pesquisa, energia e tempo – quando o problema, quem sabe, poderia ter sido resolvido com o uso de um singelo lápis preto. Pense nisso antes de comprar seu próximo gadget.

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Comentários

09/02/2011 às 08:38 Anonymous - diz:

Renato – diz:Sábias palavras, Giuliana. O único problema que vejo na alternativa apontada por você é que mudar o comportamento pode parecer coisa simples, mas será que é mesmo? Como se faz para mudar o comportamento das pessoas? Quantos exemplos temos na nossa história de mudanças de comportamento coletivas num curto espaço de tempo com impacto positivo no meio ambiente?

14/02/2011 às 08:51 Anonymous - diz:

Suzy Goldstein – diz:Belo texto, Giuliana.Se cada um de nós fizer a nossa parte, bem feita, consumindo cada vez menos,já será uma grande coisa.O grande desafio é mudar a nós mesmos. E essa é uma questão de vontade e de engajamento.

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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