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Secador solar e generosidade Giuliana Capello - 09/08/2011 às 18:29
Quem já lidou com horta ou pomar sabe bem o significado da palavra abundância. Pequenos canteiros de hortaliças ou uns poucos pares de bananeiras e goiabeiras produzem mais alimentos do que uma família é capaz de consumir. Para não desperdiçar, vale a pena investir em algumas técnicas de conservação de frutas, legumes e ervas aromáticas e medicinais, além, é claro, de um pouco de conhecimento sobre como essas culturas se relacionam com o tempo e o espaço (em outras palavras, é necessário aprender a planejar seus plantios, de forma a ter sempre pequenas safras em épocas distintas).Um bom aliado nessas horas é o secador solar de alimentos, um equipamento simples, que pode ser feito em casa, até mesmo por quem não tem muita intimidade com ferramentas. Basicamente, é preciso conseguir uma caixa de madeira pintada de preto (para acumular mais calor), com um apoio interno nas laterais para receber uma moldura com uma rede metálica ou tela de mosquiteiro, que servirá de apoio para os produtos a serem desidratados. Por cima da caixa, coloca-se uma chapa de vidro. E pronto. Depois, é só colocá-lo numa posição que receba bastante sol, espalhar frutas ou ervas sobre a tela, tampar com o vidro e esperar que o sol faça sua parte. Simples, não?
Para fazer banana-passa bastam dois dias de sol pleno. Conservas de tomates secos (como estes da foto, no quintal dos amigos Bruno e Camila) levam, em média uns três ou quatro dias, ao contrário das ervas aromáticas que, dependendo do dia, ficam secas e prontas em 24 horas e podem ser armazenadas em vidros por até três meses.
Acredito que todo mundo que já teve uma hortinha em casa sentiu a generosidade da natureza. E como dizia o poeta, gentileza gera gentileza. É por isso que um dos princípios fundamentais da permacultura diz respeito à ação de compartilhar o excedente – que pode estar nas lavouras, na coleção de livros ou no tamanho de sua propriedade. Falo da boa e velha prática de presentear vizinhos, familiares e amigos com aquilo que cresce em nosso jardim. Minha avó, por exemplo, já me deu sinais claros de que fica muito mais feliz quando ganha um pé de alface e meia dúzia de rabanetes do meu quintal do que quando a convido para um almoço em algum restaurante da cidade…
Ok, parte do problema da abundância pode ser resolvido com a distribuição do excedente entre amigos que, por sua vez, podem ter outros produtos para trocar com você e, assim, aumentar a diversidade do que chega à sua mesa sem passar pelo supermercado. Por outro lado, o secador solar agrega valor aos produtos, basta imaginar a diferenças entre vender bananas em pencas e vender banana-passa em porções de 100g. Ele também pode virar parte de um novo pequeno negócio para complementar a renda da família, sem falar que pode ainda ser de uso coletivo: o seu prédio pode ter um desses e os moradores se organizam para usá-lo em períodos diferentes. Ah, sim, e tem outra coisa: o secador solar utiliza exclusivamente energia renovável e limpa, outro princípio básico da permacultura.
Hoje, simplicidade é uma das palavras mais bonitas que conheço. E quando o assunto é sustentabilidade, sinto que ela ganha ainda mais força. A humanidade se empenha muito em descobrir maneiras complicadíssimas de resolver problemas, e muitas vezes se esquece de buscar respostas nas coisas mais simples. Costumo dizer que não importa muito por onde você começa seu caminho para tornar o dia a dia mais sustentável. O que vale é dar o primeiro passo. O resto vem com a descoberta de que tudo está interligado, conectado exatamente como a composteira está ligada à horta, que está ligada ao secador solar, que está ligado a um determinado tipo de dieta, que está ligada a um consumo mais consciente… Nosso maior aprendizado está em perceber as relações entre os elementos que nos cercam e inventar maneiras criativas de fazê-los trabalhar em nome de um planeta mais saudável e com um longo horizonte pela frente. Ver graça num secador solar pode ser parte desse processo…
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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