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Sabedoria das ervas Giuliana Capello - 20/04/2010 às 11:54

Na minha infância, quando morava no interior de São Paulo, minha casa ficava perto do centro da cidade, mas tinha uma mata bem próxima que servia de palco para brincadeiras e “aventuras”. Lembro-me que eu e minha irmã gostávamos de colher funcho (tipo de erva-doce) para fazer chá. Depois da canseira das estripulias, o chá dava uma acalmada deliciosa.

Era muito comum naquele tempo – que não faz tanto tempo assim! – encontrar nos quintais das casas vários tipos de ervas, como uma farmácia viva. As mulheres, principalmente, conheciam suas propriedades e tiravam proveito das plantas de maneira simples e natural. Minha avó, por exemplo, tinha um pequeno jardim na frente e na lateral da casa em que se podia encontrar maracujá, romã, limão, café, roseiras enormes. As folhas e os frutos do maracujazeiro viravam chás e sucos deliciosos. A época das romãs era comemorada sempre: cada nova romã era como um presente que ela fazia questão de nos mostrar.

Não dá para dizer que cresci absorvendo conhecimentos de medicina natural, mas as plantas estavam sempre por perto. E havia também as crenças, as práticas ligadas ao uso das ervas. Quando tive caxumba, minha mãe me levou até a casa de uma benzedeira, a uns 300 metros da minha casa. A lembrança ainda é viva na memória. Era uma mulher de uns 80 anos de idade, negra, com olhar misterioso e gestos que me faziam oscilar entre o medo e a fascinação. Na sala onde ela fazia os benzimentos, havia garrafas e potes de vidro cheios de ervas e um aroma de cânfora e álcool por toda parte. Não me lembro se a caxumba melhorou depois disso, mas a relação daquela mulher com as plantas ficou registrada em mim até hoje.

Tenho certa fascinação por pessoas que sabem ‘ler’ as ervas. Não por acaso, adoro chás, defumações, óleos essenciais, banhos aromáticos e por aí vai. Sábado passado fiz um curso delicioso no viveiro Sabor de Fazenda, aqui em São Paulo, que me fez voltar novamente os olhos e o coração para as ervas medicinais. É ancestral em nós essa relação de cura por meio das plantas. É só uma questão de relembrar, despertar nossa memória. E não me venha dizer que isso é coisa de místicos, esotéricos, gente atrasada que parou no tempo e não descobriu as maravilhas da indústria farmacêutica. A própria ciência está comprovando a eficácia de uma lista cada vez maior de práticas tradicionais de uso de ervas, utilizadas há séculos – recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou uma tabela com dicas de como preparar e usar corretamente mais de 60 drogas vegetais, comumente empregadas pela população.

Estreitar nossa relação com as ervas é mais um passo que pode ser muito interessante e prazeroso, quando se trata de reconexão com a natureza. E é também uma maneira de conquistar novos adeptos e cuidadores do planeta. Experimente!

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Comentários

25/04/2010 às 23:08 Anonymous - diz:

Cristiane – diz:Hmm… Adoro essa coisa da alquimia das ervas. Faço parte de uma associação de fitoterapia, e acho maravilhoso ajudar a fazer pomadinhas, xaropes, comprimidos pra reposição de cálcio (à base de casca de ovo), e aprender com as senhorinhas do grupo, quando estamos colhendo as ervas, os muitos benefícios de cada planta… É fascinante.

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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