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Reflexões sobre o slow life e a internet Giuliana Capello - 24/01/2012 às 13:11
Já faz tempo que tentamos estabelecer uma maneira de acessar a internet na ecovila. Talvez uns quatro anos, pelo menos. Mas nossa região e, especificamente, nossa comunidade é cercada por montanhas que interceptam total ou parcialmente os sinais de telefonia e internet – embora estejamos a não mais de 100 km da capital paulista.
Alguns integrantes da comunidade, que por enquanto não construíram suas casas, dizem aguardar a chegada do mundo virtual para poderem pensar nos passos seguintes. Segundo eles, sem a tal conexão, a vida na ecovila torna-se inviável.
Eu também já pensei assim.
Mas, de uns tempos prá cá, tenho procurado refletir sobre a função da rede mundial de computadores na vida cotidiana e comunitária das ecovilas – sempre que possível, evitando uma aproximação dos radicalismos e de outros ismos que restringem nossos horizontes.
Assim, mais recentemente, algo que me parecia intolerável (morar num lugar totalmente offline) passou a ter uma conotação diferente, ainda sutil, mas muito poderosa: será que a busca por uma vida mais lenta, em consonância com os princípios do slow life (slow food, slow education, slow sex, slow city, slow tudo), não deveria passar também por uma dosagem menor ou mais comedida de internet?
Você já reparou no poder dispersivo da internet? De repente, você entra num buscador para pesquisar uma receita de bolo de milho e, dois minutos depois, está num site sobre as festas juninas nordestinas ou lendo sobre os efeitos do milho transgênico na fertilidade dos porcos. E quando você se dá conta, lá se foram 40 minutos do seu dia.
Viver de maneira mais simples requer certa disciplina – o que não tem nada a ver com menos diversão ou aberturas para a criatividade. Mas é preciso, sim, ter um ritmo, uma pulsação especial que dite a melodia desde o nosso despertar ao nosso repouso. Em outras palavras, para viver uma vida assim, voluntariamente, é preciso aceitar o tempo presente, recebê-lo com gratidão e coragem, a fim de que cada tarefa seja executada com cuidado, atenção e consciência.
Quando ainda morava na metrópole, minha necessidade de parar tudo e meditar por alguns minutos era mais forte do que qualquer preguiça ou cansaço. Era-me realmente crucial deixar os pensamentos de lado instantes a fio e esvaziar a mente dos turbilhões de estímulos que recebia a cada inspiração. Aqui é bem diferente, porque o tempo presente se impõe sobre boa parte das ansiedades e memórias, de modo que lavar louça, varrer a varanda ou colher verduras na horta transformam-se em pura meditação, puro momento presente, aqui e agora.
A internet – sinto assim – é rainha de um império de escravos sem tempo que, mesmo acordando 15 minutos mais cedo do que de costume, já saem da cama sabendo que dificilmente conseguirão cumprir a insana agenda do dia. Devem tempo a si mesmos e, ainda assim, perdem tempo navegando por notícias fúteis, casos extravagantes, jogos, memes…
Mas ela é de todo ruim? Não, mas talvez haja um mundo muito mais rico fora das telas (acredito nisso), e é neste mundo que quero viver, investir meu tempo. Tem uma frase de Gandhi que serve de epígrafe ao livro Devagar, de Carl Honoré, que diz: “A vida não se limita a ir cada vez mais rápido”. E, em certa medida, permear a vida com muita internet é acelerá-la a tal ponto que o presente se torne inatingível, distante, obtuso.
Não ter acesso constante à internet pode nos tornar mais seletivos e objetivos diante da tela do computador. Uma vez na ecovila, quando precisar ler emails ou baixar algum arquivo, irei até a cidade e invistirei uma tarde ou algumas horas nessa tarefa, e pronto. Radical demais pra você? Para mim? Será?
Ontem fui ao café da cidade para ler o jornal (e desfrutar de um pão de queijo com sabor de Minas) e passar um tempo comigo mesma, de forma mais introspectiva. Naquele instante, senti que ler com papel na mão é mais calmo e sereno do que ler direto de uma tela. Eu podia intercalar as notícias e os goles no cappuccino, sem pressa e com mais prazer.
Curiosamente, deparei-me com uma notícia sobre pessoas que estão saindo das redes sociais, deixando de lado seus perfis e atualizações em nome dos estudos ou de um maior rendimento no trabalho. Havia até uma notícia sobre o que os consultores de tendências para o turismo estão chamando de “black holes resorts”, hotéis localizados em refúgios totalmente desconectados, verdadeiros buracos negros para o celular e a internet. “Eles serão o grande luxo do século XXI”, dizia um dos entrevistados.
Sorri ao perceber que, de repente, aquilo que eu considerava um enorme problema para a comunidade pode, na verdade, se transformar em aliado de nossos sonhos. A internet não cultiva hortas, nem constrói sistemas alternativos de produção de energia. Ela pode até nos levar a conhecer mais sobre o trato com a terra ou a ciência das chuvas, mas jamais traduzirá o cheiro do mato molhado nas tardes de verão ou o prazer de encher a mão de húmus e sementes.
Sou muito grata por este espaço no mundo virtual, que me permite compartilhar com você um pouco das minhas experiências. Mas, tenha certeza, ele só existe porque minha vida acontece lá fora. E a sua?
Foto: da sala vejo a chuva, sinto seus cheiros e procuro um agasalho para me esquentar, embora por dentro a sensação seja de profundo acolhimento. Isto é o presente.
ver este postcomente
24/01/2012 às 13:39 HERNANDO - diz:
Parabéns pela postagem. Precisamos, sim, libertarmos um pouco desse vício do século. Não é fácil, mas, certamente, teremos mais tempo para as coisas mais essenciais à vida.
24/01/2012 às 16:57 Janete Canteri - diz:
A minha vida acontece! Não sou vicia em internet nem faço parte de nenhuma rede social. Posso ficar uma semana sem acessar a rede mas nas terças-feiras gosto de ler as coisas que você escreve, que me fazem tão bem.
Abraços,
Janete canteri
24/01/2012 às 22:29 Raphael Rodrigues - diz:
Essa cadeira, essa janela e principalmente essa vista são meus sonhos de consumo. Se bem que “consumo” é uma palavra muito ingrata para esse caso e, inclusive, seja uma demonstração do quão mal acostumados estejamos no uso das palavras. De forma alguma quero consumir a cadeira, a janela e a vista, desejo tão somente desfrutá-las.
26/01/2012 às 13:02 Karla Madrilis - diz:
Parabéns pelo depoimento. Há anos cultivo hábitos simples e valorizo cada dia mais o tempo e fico contente em ver que essa corrente se fortalece.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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