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O recado das crianças Giuliana Capello - 26/01/2010 às 20:26


Por alguma razão que só o coração conhece, de uns tempos pra cá tenho sentido uma atração especial por crianças. E o melhor é que a recíproca é verdadeira – pelo menos é assim que sinto… Tudo bem, já estou beirando os 32 e a maternidade parece querer bater à porta. Isso é fato. Mas tenho cá pra mim um palpite nascido das coincidências – ou da sincronicidade, como preferir: também de uns tempos pra cá, passei a observar e a ouvir mais o que as crianças dizem sobre a natureza, o planeta, os animais, as plantas e por aí vai.

Outro dia, uma criança que mora na mesma vila que eu, em São Paulo, puxou conversa comigo quando eu estava chegando em casa. Veio até mim, deixou de lado o “oi, tudo bem?” e me disse simplesmente: “Tentei plantar chiclete e não nasceu nada. Vai ver, ele não é da natureza, né?” Achei aquilo de uma beleza só! E me contive num sorriso de cumplicidade.

No fim de semana, me encantei com um menino de uns oito anos mais ou menos, que visitou a ecovila com a família. Na mesa do almoço, compartilhado entre poucos (mas bons) amigos, ele era só orgulho: “No meu sítio tem árvores bem grandes que foram plantadas pelo avô do meu avô. E eu vou cuidar delas para sempre”, contou, comentando o que o pai havia acabado de dividir conosco: a especulação imobiliária anda pressionando para que a família venda o sítio que estaria “atrapalhando o desenvolvimento e a expansão da cidade”.

Talvez pela convivência na ecovila, tendo tido a chance de conhecer crianças muito especiais, dessas que gostam de comer folha de couve tirada do pé, que não têm medo de formiga nem de banho de chuva. E elas sempre têm sacadas ótimas sobre o planeta. Pérolas do tipo: “O homem está destruindo a natureza e vai acabar ficando sem ter onde morar”, ou “já reparou que nossa espécie é a única que não sabe cuidar do planeta?”, ou ainda “o problema é que as pessoas só pensam em gastar dinheiro comprando coisas que destroem a natureza”. E nós adultos, do alto de nossa prepotência, só podemos engolir calados, com vergonha da verdade…

Gosto de ouvir as crianças. Gosto do modo como elas escancaram suas necessidades básicas, de afeto, alimento, descanso e brincadeiras. E nada mais. Quando pequenas, não precisam de brinquedos caros nem de roupa da moda. Qualquer pedaço de madeira ou papel vira diversão. E roupa bacana é aquela que pode ser usada para brincar na lama sem culpa.

Mas eis que elas crescem, são bombardeadas pelos pais, pela escola e pela mídia, e “adquirem” desejos de consumo sem freios nem fronteiras. Perdem, muitas vezes, a espontaneidade original. Respiram ar poluído, bebem água que vem de longe, comem comida industrializada, ficam horas em frente à tv… O que vai ser delas se não dermos a chance de perceber que há mais sobre o mundo para muito além dos muros das escolas, das lan houses e dos shopping centers?

As novas gerações precisam de esperança e rotas alternativas e, para isso, merecem ser ouvidas e acolhidas em seus sonhos de um planeta mais limpo, mais feliz e cheio de vida. Você conversa sobre isso com seus filhos, sobrinhos, netos? Já foi questionado(a) sobre o porquê do aquecimento global ou do terremoto no Haiti? Que tal dar a atenção que essa curiosidade tanto merece?

Hoje, no dia em que recebo a notícia da gravidez de minha irmã (mais que querida, admirada), olho para o céu com olhos mareados e peço profundamente que esta criança seja mais uma a trazer uma mensagem de paz e harmonia entre os seres, que seja sempre criança no jeito de olhar a natureza e que possa inspirar adultos e mais adultos a não ter medo de se emocionar com o nascer do sol, a beleza dos filhotes e a força da flor mais delicada.

Foto: minha sobrinha com seu melhor amigo, Trovão.

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Comentários

27/01/2010 às 00:00 Anonymous - diz:

Cá. – diz:Giu,Parabéns para sua irmã, que lindo…a Luana vai gostar muito de ter um irmão ou irmã, né? E que foto linda! Lembrou um cavalo que “morava” aqui na nossa rua, o apelido que demos (a Manu, basicamente) foi Alípio (já viu Cocoricó?)…E sobre as falas das crianças…é isso mesmo Giu, de se maravilhar, emocionar e aprender com eles…outro dia a Manu me perguntou Giu, antes de dormir: mãe, foi você que escolheu a gente, né? Por quê? Eu respondi (antes disso, fiquei perplexa e emocionada…) que sim, e porque ela e o Francisco são crianças especiais…ela me deu um abraço, e foi dormir…Um abração forte prá uma pessoa que será sem dúvida uma mãe maravilhosa! Já tô torcendo faz tempo, hein?Amo você.

27/01/2010 às 10:30 Anonymous - diz:

Ze Brasil® – diz:Toda criança é boa e gosta mesmo é de brincar e não de briquendo. É o ser humano que a “estraga” mudando os valores das coisas e fazendo com a mesma perca a “simplicidade da vida” e se torne mais uma vítima desta sociedade hipócrita, consumista e religiosa.Elas não são estimuladas a terem contato com a natureza e com seus semelhantes e por esta razão não se interessam por aquelas coisas mais básicas para uma infância NORMAL, ficam horas na frente da TV absorvendo aquela cultura inútil e não querem mais ter uma profissão quando crescerem, e sim, serem famosas num “realty show”. Se tornando um adulto individualistas, sem noção nenhuma do mundo a sua volta.Parabêns pelo texto e continue promovendo uma boa leitura a todos.Muito obrigado,ZeBRasil®twitter.com/zebrasilr

28/01/2010 às 10:39 Anonymous - diz:

Adriana – diz:Olá Giuliana,Adorei seu blog sou veterinaria especialista em biodinamica e quero muito ir conhecer a ecovila e se possivel sua casa. Penso em comprar um lote por lá se vc souber me avisa ok grata

29/01/2010 às 00:36 Raquel Calil - diz:

Raquel Calil – diz:Nossa adorei a materia!! Parabéns!!Acho que a criança tem a inoscencia que desaprendemos ter. De olhar pra um animal, arvore e ver que aquilo é lindo, e elas achando isso lindo vão querer cuidar e preservar para sempre. Já nós (adultos) se olharmos acharemos que é apenas um arvore, um animal. Temos que reaprender a ter essa inoscencia de criança.Parabéns de novo!!

29/01/2010 às 20:54 Anonymous - diz:

Anderson Cipo – diz:Oi Giu, a cada dia sou ainda mais seu fa, tenho a prova viva que crianca tambem te adora. Minha filha Lorena gosta muito de voce, quero guia la nesse caminho, o caminho do bem, da inocencia, tendo como evidencia o respeito ‘a mae natureza e ao ser humano. Adoramos voce! Parabens por mais essa materia!

01/02/2010 às 11:19 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Olá, Cipó, Raquel, Adriana, Zé Brasil e Camila! Adorei ler os comentários de vocês. Obrigada. Estamos em sintonia (e como isso é bom)! Adriana, será um prazer recebê-la na ecovila e na minha casa. Entre no site http://www.clareando.com.br e veja quando será nosso próximo piquenique para visitantes, ok? Assim, você poderá conhecer melhor a proposta e ainda saber como são os trâmites para entrar para a comunidade. Um grande abraço a todos, e um especial para os pequenos Francisco, Manuela e Lorena!

12/02/2010 às 19:46 Anonymous - diz:

amauyry – diz:adorei o seu blog .Fala de coisas que sinto. moro no rio de janeiro pretendo sempre ler as coisas que vc escreve. sou engenheiro, mas estou com vontade me especializar em coisas da terra, como por exemplo telahados verdes, sem essa de só concreto cinza, sacou?um abraçoamaury

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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