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Quem faz a sua comida? Giuliana Capello - 26/10/2010 às 17:48
Dias atrás assisti a um desses documentários que a gente só encontra na internet ou em listas alternativas de discussão via email. Chamava-se O Milagre de Gerson. Era sobre a história do médico alemão Max Gerson, que teria descoberto em 1928 a cura para o câncer e outras doenças. O milagre consistia basicamente em mudar a alimentação: muito suco de frutas e legumes orgânicos, preparados num processador esquisito, e um método de lavagem intestinal. Bem, detalhes e eficácia à parte, o que mais me marcou foi perceber, mais uma vez, o quanto nossa alimentação passou de caseira a industrializada em tão pouco tempo.
Minha avó é um bom exemplo. Já notei que ela não é muito fã de restaurantes. Ela sempre acaba comentando alguma coisa sobre a comida não ter o tempero que ela gosta, ou ser sem graça mesmo. Sem falar que ela acha tudo caro demais… No fundo, acho que ela não gosta é da impessoalidade, ou seja, do fato de ela saber de onde veio aquele alimento e quem o preparou. Claro! Ela cresceu em São Raimundo Nonato, interior do Piauí, com gado, cabra, galinha, horta, roça, água de açude e histórias de onça. Tudo que ela comia vinha do quintal de casa e era preparado pela mãe dela. Dá para entendê-la, não?
Isso me lembra outra avó, personagem de um conto do moçambicano Mia Couto, que li ontem mesmo. Na história A avó, a cidade e o semáforo, do livro O fio das missangas, o neto recebe o prêmio de melhor professor rural e é convidado a ir à cidade grande, onde se instalaria num hotel. Ele dá a notícia à avó, que fica intrigada e faz diversas perguntas sobre como seria sua estadia por lá. Uma parte delas, referente à alimentação do neto, me tocou fundo: e, lá, quem lhe faz o prato? Como se chama esse cozinheiro? Vale a pena ler nas palavras do escritor: …para ela, não havia riso, nem motivo. Cozinhar é o mais privado e arriscado acto. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. (…) Como podia eu deixar essa tarefa, tão íntima, ficar em mão anónima? Nem pensar, nunca tal se viu, sujeitar-se a um cozinheiro de que nem o rosto se conhece. Cozinhar não é serviço, meu neto. Cozinhar é um modo de amar os outros.
E o que isso tem a ver com a gente? Ora, não estamos, em boa parte do tempo, deixando essa tarefa em mãos e rostos anônimos? Aliás, não só o cozinhar, mas o plantar também… Tudo bem, tudo bem. Você pode me dizer que os tempos mudaram, o mundo não é mais o mesmo e tal. Concordo. E que pena. Pois acho que algumas transformações, visto que não trouxeram tantos benefícios assim, poderiam ser revistas… Dá receio só de pensar na quantidade de produtos químicos que ingerimos diariamente, dos agrotóxicos e aparentados aos conservantes, aromatizantes etc. etc. etc.
Tenha muita vontade de cozinhar mais em casa. Mas, como diz meu marido, isso requer outro estilo de vida, não esse agitado que ainda tenho morando mais em São Paulo do que em Piracaia (por enquanto; isso vai mudar em breve, muito em breve). Para cozinhar, é preciso ter tempo para comprar os alimentos (orgânicos, de preferência) e muita força de vontade para dispensar as guloseimas que estão em toda parte: doces, sucos industrializados, sopinhas em pó, congelados, mais doces açucarados, biscoitinhos recheados, sorvetes, chicletes, balas, enfim, comida de ingestão rápida, extremamente calórica e traiçoeira, porque até pode ser gostosa e encobrir ansiedades contemporâneas, mas logo traz desequilíbrio ao corpo e uns quilinhos a mais.
Acho que tomar consciência do quanto essa alimentação sem nomes nos faz mal é o primeiro passo. Claro, um de cada vez. Depois, é puxar sardinha para o outro lado: descobrir prazer na preparação dos alimentos, no tempero com manjericão fresco, colhido da janela da cozinha, o bem-estar de começar o dia com pão sovado por alguém que nos ama… Ah, esses pequenos prazeres.
Seria muito saudável se nosso ranking de prioridades na vida pudesse começar por comer bem – e não ganhar dinheiro, subir na carreira ou qualquer coisa do gênero. Escolher a boa alimentação como valor importante significa acomodar as demais demandas de modo a não prejudicar nossos momentos à mesa. Em outras palavras, significa não achar banal estender a reunião de trabalho no refeitório da empresa, ou engolir a comida em dez minutos para não se atrasar para o próximo compromisso do dia, ou ainda se conformar com um sanduíche de rede gringa e um copo de refrigerante. Eca.
Eu mesma almoço fora de casa na maioria das vezes, mas, por conta de ser vegetariana, acabo priorizando restaurantes do gênero (e no bairro) que, com frequência, oferecem saladas orgânicas e pratos mais saudáveis. Mesmo assim, vivo esbarrando em docinhos, pão e bolo industrializados e outros pecados da gula que insistimos em dizer que combinam com trânsito, filas, programinhas de fim de semana, vida social e por aí vai. Ainda assim, estou aprendendo a valorizar cada vez mais os alimentos colhidos na horta da ecovila, no galinheiro caipira, na roça do agricultor local e, claro, a comidinha feita em casa, por mãos conhecidas e rostos que sorriem para mim.
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27/10/2010 às 12:31 Anonymous - diz:
Michel – diz:Olha Giu… Sinceramente, acho que parece mais difícil do que realmente é.Eu cozinhava sempre uma vez por dia (para o dia todo) ou ao meio dia ou de manhã e fazia marmitinhas… eu achava bem tranquilo, mesmo tendo uma vida corrida! Beijocas!
27/10/2010 às 16:58 Anonymous - diz:
Debora – diz:Ai ai !! Não vejo a hora de trocar receitinhas com minha vizinha….que delicia!!! E breve muito em breveeee…
29/10/2010 às 18:10 Anonymous - diz:
Olivia – diz:Giu, tenho dado bastante prioridade pra alimentação ultimamente e tem me feito tão bem, q qdo muda eu sinto muita falta.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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