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Quando o tamanho é documento Giuliana Capello - 15/06/2010 às 08:45
No último fim de semana, um amigo da ecovila tomou coragem e deu o salto que faltava nesse momento de sua vida: trocou o cinza urbano do ABC paulista pelas cores vibrantes de uma casinha no centro de Piracaia, SP, a 15 km da nossa comunidade. Fiquei tão feliz por ele! Você precisava ver o sorriso no rosto dele. Fazia tempo que não o via tão de bem com a vida.
Agrônomo e permacultor, ele andava afastado da ecovila, por conta de problemas familiares. Até que uma namorada muito da bacana lhe deu carinho e apoio na medida certa, e ele conseguiu enxergar e transpor o corre-corre pelo ganha-pão. Estava na hora de sair da cidade, de ter um horizonte à vista. Um apoiando o outro, eles embarcaram na difícil tarefa de arriscar uma vida mais tranquila e significativa fora do circuito das grandes cidades.
Essa trajetória tem se repetido, de alguma forma, entre as famílias que estão tentando uma transição dos grandes centros urbanos para um bairro rural do interior, mais precisamente para a nossa ecovila em formação, a Clareando, em Piracaia. E é engraçado ver como as reclamações (ou seriam motivações?) são parecidas: ninguém aguenta mais o trânsito, o barulho, a poluição, a falta de tempo, a agenda lotada, o estresse, as pressões no trabalho, o alto custo de vida. Isso tudo até já virou clichê…
Pensando sobre isso, me dá sempre uma vontade de entender melhor por que quase toda cidade no Brasil sonha em ser grande. Já reparou nisso? Quando eu morava em Itatiba, SP isso foi na minha infância e adolescência meus amigos achavam o máximo quando uma rede de fast food se instalava na cidade. Era um sinal de progresso… Ou quando alguma banda de rock que fazia sucesso na capital dava o ar da graça em terras caipiras. Era como se não existisse vida ou importância naquele lugar. As referências estavam sempre na metrópole.
Sabe, tentando ver as coisas de um ponto de vista mais ecológico, penso que estamos num momento-chave para se refletir (e agir) acerca do planejamento das cidades. Há indícios mais do que óbvios de que as grandes aglomerações humanas são inviáveis para o planeta. Não dá para concentrar tanta gente com tantas demandas de consumo (de água, energia, materiais, alimentos etc.) em megalópoles como São Paulo, Nova York ou Cidade do México.
Acontece que o modelo de desenvolvimento das cidades privilegia o caminho traçado pelas grandes, embora as evidências do fracasso e do acúmulo de problemas representem listas e mais listas de desafios socioambientais. Por que não, então, apostar em cidades menores, com escala mais humana de convivência interpessoal, em que os deslocamentos sejam mais amigáveis, as trocas sejam mais solidárias e menos anônimas? E, claro!, em que seja possível plantar mais localmente?
Vejo como é a vida de boa parte dos piracaienses, por exemplo. Aqueles que moram no perímetro urbano da cidade estão pertinho da escola dos filhos, dos bancos, das ruas comerciais em que se encontra de tudo, da praça, da igreja, dos bares e restaurantes. Muita gente usa bicicleta, mesmo com o relevo pouco convidativo. Andar de ônibus não é uma aventura e o empurra-empurra do metrô parece coisa de outro mundo. Não se perde tempo no trânsito nem à procura de vagas para estacionar. Quase todo mundo se reconhece e é um tal de cumprimentar fulano e beltrano que não acaba mais.
Pode ser que você me ache saudosista, conservadora, romântica, sei lá mais o quê. Mas quando vejo a trajetória das cidades que cresceram sem planejamento e além de seus limites físico- ambientais, fica difícil desejar o mesmo caminho para as pequenas. Para mim, as pequenas e médias precisam é de autonomia para seguir caminhos próprios, que respeitem vocações locais e não sejam meramente cópia frustrada de outras maiores e mais problemáticas.
Por que querer repetir erros? Em tempos de eleições, o que se vê é sempre o velho discurso do crescer, crescer e crescer, como se isso fosse sinônimo de virtudes inabaláveis. Não. Não precisa ser assim. Ou, pelo menos, esse não deveria ser o único caminho sonhado por todos.
Sábado passado, cheguei à noite em Piracaia e fui à casa de uns amigos. De lá, resolvemos ir até a praça principal a apenas algumas quadras dali – para curtir a festa junina que estava agitando a cidade. Estava com uma amiga que é médica e que, a cada 100 m, encontrava algum conhecido. Sorrisos trocados rapidamente, clima caseiro, hospitaleiro. Apesar da quantidade de gente, não havia tumultos. Todos brincavam, se divertiam, cada um à sua maneira. Tudo tão civilizado! Não me senti em perigo em momento algum e isso é muita coisa…
Estava tudo perfeito, mesmo nas imperfeições. Humano. Dá para querer mais? Não estou dizendo que a cidade é o máximo, que não tem problemas. É claro que tem. Mas eles são proporcionais ao tamanho do município. Contornáveis, talvez. Há, pelo menos, um clima de esperança, de perspectiva de futuro diferente do que sinto, lamentavelmente, em relação às metrópoles…
Para terminar a noite, já na ecovila, início da madrugada, vivenciei uma experiência fantástica. Eu e meu marido estávamos apreciando o céu estrelado quando, de repente, um corpo celeste pareceu atingir a estratosfera e explodir, feito fogo de artifício, bem na nossa frente. Talvez um meteorito. Foi lindo. Sem palavras. Talvez nunca mais nesta vida eu assista àquele fenômeno novamente. E só pude assisti-lo porque havia menos luzes no céu para encobrir o horizonte. Havia, no lugar, espaço para sonhar. E isso, em qualquer lugar do planeta, não tem progresso que supere.
ver este postcomente
15/06/2010 às 09:55 Anonymous - diz:
Hernando J Barbosa – diz:Meus parabéns pelo brilhante tema. Realmente, não está fácil viver nas grandes metrópoles. Feliz daquele que tem a coragem de se mudar para cidades menores. Não tenho dúvidas de que serão mais felizes.
16/06/2010 às 14:11 Anonymous - diz:
Emanuel – diz:Salvem as namoradas de iniciativa!
16/06/2010 às 18:15 Anonymous - diz:
Alexandre – diz:Parabéns!!!Adoro seus textos… Eu e minha esposa tb fizemos a opção de viver numa cidade melhor, com mais qualidade de vida… Nada comparado à uma ecovila, mas um modo de vida mt mais saudável e sustentável do q antes…
19/06/2010 às 19:30 Anonymous - diz:
sonia russo – diz:texto lindo> parabens!!!
21/06/2010 às 09:50 Anonymous - diz:
Mayara Boareto – diz:Olá Juliana!Incrível seus textos, me identifiquei muito com a relação que você tem com seu sangue sagrado menstrual! Eu também rego minhas plantinhas com ele!Seguinte: nós nos conhecemos quando você me deu uma carona da vivência com a parteira Dona Francisquinha na Moarada da Floresta, lembra? A menina que tinha 17 anos, e que também se tornou vegetariana quando entrou no kung fu? hsuiahsausihUma coisa que aconteceu é que amigos meus do kung fu, foram para a ecovila em Piracaia e me contaram de você, um deles, o Michel até está comprando (ou ja comprou) uma terrinha nessa mesma ecovila que você! Olha que mundo interessante!Eu estou organizando um workshop com Michel Odent em Sp, dia 10 de Julho (sábado) na Casa Jaya (que também te falei).. gostaria que você escrevesse para o meu e-mail para eu te passar os detalhes e para amntermos contato!Um beijão,linda missão irmã!Mayara
27/08/2010 às 09:03 Anonymous - diz:
Michel… – diz:Grande Mayara!Super irmã… até aqui te encontro!Belo texto Giuliana!!Um abraço!
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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