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E quando não há rede de esgoto? Giuliana Capello - 06/09/2011 às 21:50


Semana passada, recebi na minha casa na ecovila um grupo de 20 crianças, na faixa dos nove anos, de uma escola antroposófica de São Paulo, que foi visitar a comunidade e conhecer um pouco das técnicas de bioconstrução. Minha missão, dentro do programa proposto para o grupo, era mostrar e falar um pouco sobre o banheiro seco (ou compostável) do meu quarto…

Assim que as crianças entraram na casa, começaram a correr de um lado para outro, enlouquecidas com as “novidades”: paredes de toquinhos de madeira, vitral de garrafas de vidro iluminadas pelo sol, telhado verde, mezanino com “ponte” no meio da sala, enfim, uma agitação completa. Deixei-as à vontade nos primeiros minutos, para que pudessem se acostumar com o clima do lugar, e só então resolvi reuni-las no meio da sala para uma breve conversa sobre um conhecido botãozinho mágico: a descarga do banheiro.

Perguntei ao grupo: o que vocês fazem depois de usar o vaso sanitário? “Aperto a descarga, tia”, respondeu, rapidamente, um garoto de sorriso sapeca. “E o que acontece depois? Para onde vão o xixi e o cocô?”, questionei. Fez-se, então, um silêncio perturbador, permeado de risadinhas discretas. Ouvi baixinho um sussurro que me fez rir por dentro: “Para o mundo subterrâneo do cocô!”

Eu estava perdida. Naquele instante percebi o quanto o assunto era difícil. Mas, curiosamente, já no momento seguinte, relaxei. Na verdade, pensei: o tema só é complicado para os adultos. Em geral, as crianças estão mais abertas para ideias novas, são curiosas e muito atentas. Apostei nisso.

Posso dizer que deu certo. Falei a elas sobre os animais que vivem nas florestas, que não precisam de banheiros fechados, muito menos de descarga sanitária. Eles fazem suas necessidades no mato mesmo, cada hora num lugar diferente. “O resultado é que as fezes se misturam na terra e acabam se decompondo, virando adubo para as plantas e, em muitos casos, esse cocô semeia novas árvores porque carrega sementes das frutinhas que eles comem”, disse, tentando ser didática…

Resumi o papo dizendo que nas cidades é diferente e que o fato de apertarmos a descarga no banheiro não significa que o esgoto vai ser tratado antes de ser jogado no rio, no córrego ou no mar. Na maior parte dos casos, infelizmente, esses resíduos são despejados sem qualquer tipo de tratamento, poluindo a água e o solo. Daí a importância de encontrarmos soluções para não deixar que nossos resíduos se transformem em problema ambiental e de saúde pública. (Bom, podemos pular essa parte, porque você sabe do que estou falando, certo?)

A explanação seguiu o raciocínio que diz que, se tratado adequadamente, o cocô humano pode virar adubo tanto quanto o dos animais que vivem “na natureza”. Foi aí que contei a elas que meu banheiro não tem o botão da descarga, simplesmente porque não tem uma descarga para levar embora os dejetos…

Agora, imagine a cena: 20 crianças olhando para mim, cada uma com uma pergunta na cabeça… Como assim, tia? Não fica fedido? Não dá bicho? Não é sujo? Como você usa? Como o cocô vai embora? Quem limpa depois? Por que você quis assim? Pode explicar de novo?

Ufa! Não foi fácil – mas me diverti muito, para ser bem sincera. Contei rapidamente que o vaso sanitário tem uma rampa embaixo, que leva os resíduos para fora da casa, onde são armazenados numa espécie de balde grande, instalado dentro de uma casinha de tijolo (de adobe), pintada de preto por dentro e com um cano que ajuda na saída dos cheiros indesejáveis… E blá-blá-blá…

Enfim, já era hora de mostrar o tal banheiro esquisito, e deixar que eles coçassem a cabeça um pouquinho até entender como é que a coisa toda funciona. Você não imagina a bagunça que eles fizeram! Todos queriam entrar e subir a escadinha até o vaso sanitário que, segundo alguns, “mais parece um trono de rei”. Eles adoraram a escadinha, a janelinha para o vale e – aposto! – nunca se encantaram tanto com um simples buraco. Fizeram fila para subir e sentar, um de cada vez. Ficaram mais de meia hora só nesse processo, tentando entender mil coisas. Eles pareciam ter vagalumes na cabeça, tamanha era a excitação…

Curiosamente, foi a primeira vez que me dei conta do quanto essa escolha foi realmente radical – e importante. E olha que o já famoso banheiro seco sequer está pronto. Falta ainda fazer a rampa, instalar a porta, a madeira e a tampa do assento… Mas o recado está dado: a solução é simples, barata, viável e fundamental nos locais em que não há rede nem de coleta nem de tratamento de esgoto. Espero que as novas gerações entendam isso antes que suas mentes se enrijeçam de visões e ideias “maduras” que não cabem mais no nosso mundo.

Lei também:
Banheiro seco? Como assim?

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Comentários

09/09/2011 às 18:42 Anonymous - diz:

Gui – diz:!!!! Lindo, valeu Giu!!!

12/09/2011 às 11:55 Anonymous - diz:

Lygia – diz:Imagino as crianças chegando em casa “mamãe eu quero um banheiro seco” !!!rsrsrs

25/01/2012 às 22:26 Cecília - diz:

Oi Giuliana,

Pensando em construir minha casa em uma região muito próxima a praia com vários lençóis freáticos no entorno, estava quebrando a cabeça, pensando em como minimizar o impacto dos(meus) resíduos, apesar da região ter “saneamento” considero bastante precário… Pensei em fazer uma daquelas fossas sépticas biodigestoras, porém a questão do destino do adubo produzido me preocupa… Pra onde enviar? Apesar de ler bastante sobre o assunto, me aparecem muitas dúvidas, tem alguma literatura pra me indicar, ou até mesmo um caminho?

Obrigada!
Um abraço em nome do planeta que agradece suas iniciativas!

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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