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Sobre a proximidade do fim Giuliana Capello - 15/12/2009 às 22:27

Você já sentiu alguma vez um calafrio ao pensar de verdade numa possível catástrofe de proporções globais? Não, este não é para ser um post apocalíptico. É só um desabafo acerca dos porquês – e da falta deles – que “explicam” o abismo que há entre 1- as informações e pesquisas científicas sobre prováveis desastres ambientais e 2- um movimento da sociedade que possa lutar para reverter o quadro. Será que ainda estamos na fase primária de insistir aprender apenas pela dor? Por que será que, mesmo depois de tantos e tantos discursos, dados, interpretações, encontros e desencontros de cúpulas internacionais, ainda nos esforçamos para não sair do lugar, não mover um músculo sequer em direção a algo mais razoável neste momento do planeta?

Sabe, mesmo lá na ecovila (pensa que não?) tem gente que tenta de tudo para contornar a possibilidade de ter de mudar algum hábito ou comportamento. É uma loucura. O que nos falta ou precisa acontecer para que, finalmente, possamos cair no poço fundo da realidade?

Será que o desaparecimento das ilhas do Pacífico abriria nossos olhos? Ou uma grande catástrofe na África (como se o continente já não sofresse o bastante) faria o mundo olhar para além de seus interesses mesquinhos? Ou o fim das safras orgânicas nas comunidades tradicionais do (hemisfério) Sul? Diga-me, o que fazer para acabar com essa apatia dissimulada de impotência que tem dado a cara(-de-pau) na mídia nos últimos tempos? Chega de governantes mascarados de verdes. São pior que ervilhas de plástico. Não convencem. Mas também não arredam pé nas discussões, muito provavelmente para estar por perto e travar qualquer tipo de decisão favorável à manutenção da vida na Terra (porque é disso que se trata).

Ai, ai, esse encontro em Copenhague é um bom exemplo dessa nossa incapacidade de encarar as coisas de frente. Estão lá discutindo o que fazer para ficar bem na fita fazendo o mínimo – ou melhor, prometendo o mínimo (porque aí, de novo, entre falar e fazer existe uma longa estrada).

Vem cá, será que é tão ruim assim fazer algo legítimo pelo planeta? Aqueles que têm filhos não pensam nisso, não? Nossa, eu quando penso em maternidade, me vejo povoada de pensamentos do tipo: será que essa criança vai ter um lugar tranquilo para morar, água boa para beber, terra boa para plantar, ar decente para respirar? Quem será que perdeu o juízo nessa história? Eu? Não duvido de mais nada.

Sinceramente, é preciso fazer algo – ou deixar de fazer, não sei – para acabar com essa inércia tosca, essa falta de movimento, essa catatonia sem fim. Na arte, quando se quer “chamar a atenção” do interlocutor, provoca-se um ruído, uma fissura na rotina, no marasmo, nas cores, na velocidade, na fotografia. Mas nós – acostumados a achar que as enchentes na cidade são normais, o sistema de transporte público é ruim mesmo, as guerras, o tráfico, a corrupção e outros tantos males não têm solução – ainda temos algum mecanismo de percepção do ruído que poderia nos acordar desse sono de bêbado na quarta-feira de cinzas?

Ou será mesmo necessário dar a bênção aos fatos mais trágico-banais em nome do falso bem-estar coletivo e dos falsos números mágicos da economia, que prometem um melhor PIB em 2010? Não, desse jogo eu não quero participar. Eutanásia para o planeta? É isso o que temos a oferecer? Quero acreditar que a espécie que se coloca no topo da cadeia alimentar pode fazer mais do que isso. Preciso disso. Ou, então, melhor desistir de vez – mas com dignidade, nunca hipocrisia.

P.S.: este talvez seja meu último post do ano (porque todo mundo merece férias, certo?). Agradeço de coração a todos que acompanham os escritos do blog. Que possamos ter paz de espírito para saber o que é preciso fazer para seguir em frente, de peito aberto, mãos dadas e olhar no horizonte.Um grande abraço a todos, até 2010!

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Comentários

16/12/2009 às 10:40 Anonymous - diz:

Marcelo Voos – diz:Realmente, nascendo e crescendo nesse mundo ‘globalizado’ não é fácil desalienar-se e viver a realidade. Isso vale pra todos (políticos, empresários, estudantes, ativistas, trabalhadores, donas-de-casa…)E quando a gente acorda e escolhe esse caminho, ainda descobre que tem um trabalhão (individual) pela frente.Mas, de uma forma ou de outra, logo esse tempo de mentira e loucura vai passar. Por enquanto, só nos resta fazer a nossa parte( descobrindo-a com sinceridade).Lembre-se sempre que vc não está sozinha nesse caminho.Um abração com muito amor pra vcs e espero revê-los logo!

16/12/2009 às 11:50 Anonymous - diz:

Wagner – diz:Faltou você comentar que nessas reuniões, o jogo político e de poder é o que interessa, e não ursos e outros bichos humanos…Boa sorte.

16/12/2009 às 12:05 Anonymous - diz:

Tony – diz:Achei muito bom este artigo e repassei…realmente, o Ser Humano, ou é negligente, ou se faz de desentendido, ou é hipócrita (ou todas as opções?)…e o pior é que alguns se preocupam com estas questões só em épocas de “solidariedade”, como estas de fim de ano – outro grande período de hipocrisias. parabéns pelo artigo! Abração!

31/12/2009 às 09:50 Anonymous - diz:

José Carlos da Fonseca – diz:Moça, bom dia,boa passagem de ano.Gostei da aula de compostagem.Sou religioso, acredito que tudo que tem começo tem fim. Veja parece-nos que a preocupaçao dos governantes e somente com geraçao de energia, combustiveis de toda sorte, alcool, oleo, gás, biocombustível, etc… com o aumento da temperatura que o globo terrestre sobe a cada dia, penso que será fácil de tudo isso explodir. Então: o apocalípse.Quer ver: o desenvolvimento das Células tronco, poderão desenvolver a besta do apocalípse.

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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