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Produzir ou consumir cultura? Giuliana Capello - 12/04/2011 às 18:01


Muita gente me pergunta, por conta da minha opção em viver numa cidade bem pequena, se eu sinto falta de ir ao cinema, ao teatro, a uma exposição de arte ou a um bom show de música. Às vezes, sinto sim. Mas aí é só me programar para visitar a metrópole e aproveitar para curtir um de seus melhores aspectos: a vida cultural intensa e diversificada.

Durante os quase 15 anos em que morei em São Paulo, esse tipo de programa era coisa, não raras vezes, restrita aos finais de semana, já que o trabalho e o tempo gasto nos deslocamentos faziam os dias ficarem mais curtos e o corpo implorar por umas horinhas a mais de sono, se possível – por outro lado, ouvir boa música ou se encantar com cenas inspiradoras na telona costuma relaxar o corpo e o espírito…

Seja como for, na maioria das vezes, a relação que temos com arte e cultura nas grandes cidades é algo mais ligado ao consumo do que à produção própria desses bens. Em geral, ao nos decidirmos por um programinha cultural, trocamos nosso sofá por uma bela poltrona no teatro ou casa de espetáculo (e ai dela se não for confortável!) e quase sempre apenas assistimos à arte – com nossos sentidos, é claro – como espectadores.

Em comunidades como as ecovilas, nascidas do desejo de construção de um estilo de vida mais sustentável, solidário e autônomo, a produção de cultura tende a ser maior do que seu consumo, por conta da busca constante e consciente por novas habilidades, novos saberes, enfim, um jeito diferente de olhar e vivenciar o mundo. Vem daí também certa rejeição à indústria cultural, àquilo que a grande imprensa se esforça em nos empurrar como item obrigatório de consumo, àquilo que se impõe como bom só porque é consumido (às vezes, engolido) por muitos…

Por isso, é muito comum que todos os moradores cultivem e compartilhem com o grupo algum tipo de arte como forma de expressão, que pode ser tocar um instrumento musical, cantar, dançar, modelar cerâmica, pintar, quiçá interpretar, compor poemas ou construir seus próprios móveis. Não que isso não ocorra nas cidades, é claro que ocorre, mas nas ecovilas esses dons são, digamos assim, mais despretensiosamente compartilhados – sem tanta crítica ou julgamentos que acabariam por inibir até os mais talentosos.

Um fim de semana entre amigos ecovileiros, geralmente, inclui uma roda de música ao vivo, em que é possível se aventurar em algum instrumento de percussão ou, minimamente, arriscar um backing vocal sem medo. As músicas quase nunca são as mesmas do top ten das rádios ou revistas especializadas. É comum a presença de composições criadas por seus integrantes ou por músicos menos conhecidos do grande público, que fazem letras mais afinadas com os valores e sonhos de quem optou por morar numa comunidade desse tipo.

Saraus caseiros são bastante comuns, sem bem que nas ecovilas mais antigas e bem estruturadas, o anfiteatro ou centro comunitário costuma ser palco de apresentações que ficam longe de serem classificadas como amadoras. Aliás, amadoras ou não, não importa. O que vale é a expressão, a ação simples e transformadora que desmonta a passividade de ser apenas mais um consumidor da indústria cultural

O consumo de arte e cultura existe sim, mas normalmente acontece de forma coletiva, dividindo-se os custos, compartilhando-se as mídias: existem bibliotecas comunitárias, salas de exibição de vídeo e cinema, instrumentos musicais ao alcance de todos, salas de artes plásticas, fotografia, artesanato etc. Quando visitei a comunidade de Findhorn, na Escócia, fiquei surpresa com a quantidade de eventos culturais que estavam agendados para a semana em que me hospedei por lá. Foi difícil acompanhar e, muitas vezes, foi preciso escolher entre várias opções possíveis.

Numa comparação breve, é como se a arte nas ecovilas estivesse mais ao alcance de todos, não fosse algo distante, destinado aos poucos gênios que surgem a cada trinta ou cinquenta anos. Mais que isso: é algo que pode e deve estar em cada esquina, em cada gesto, em cada ação humana. Acredite: fazer arte – e não apenas consumi-la – nos torna mais vivos e aptos a "ser aquilo que queremos ver no mundo", exatamente como Gandhi dizia.

Foto: comunidade da Ecovila Clareando em dia de "sarau ao ar livre"…

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Comentários

29/04/2011 às 12:17 Anonymous - diz:

Cabelo – diz:Olá Giuliana, tudo bom?Muito bom esse post! É engraçado como as pessoas aos poucos vão deixando de fazer o que gostam, de arriscar serem bobas de vez em quando, se perdendo aos poucos e distanciando-se de sua essência. Costumo dizer que não vivo de arte, mas vivo a arte, acho que é isso, sem medo, sem receio. Quem não sabe rir de si mesmo não está pronto pra rir do outro, né?Bj grande proceis!Vamo que vamo!;)

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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