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Privacidade numa comunidade Giuliana Capello - 06/04/2010 às 12:00


Quando entrei para a Ecovila Clareando, em 2006, minhas utopias de vida em comunidade estavam no auge de sua força. Eu havia participado, meses antes, de um encontro mundial de ecovilas, com mais de 300 pessoas de 40 países e dezenas de comunidades – algumas delas com décadas de experiência. Detalhe: o encontro acontecera em Findhorn, Escócia, uma das ecovilas mais desenvolvidas do mundo. Foram sete dias ouvindo histórias de comunidades que começaram com um grupo pequeno de amigos e uma ideia na cabeça (e no coração): que tal criarmos vivermos de um jeito mais solidário e em harmonia com a natureza? Não lhe parece interessante? Ouvi histórias de comunidades que criaram novos parâmetros para a educação de crianças, gente que conseguiu plantar na terra e tirar boa parte dos alimentos, famílias que se dividiam nas tarefas cotidianas para ter mais tempo para as artes, o lazer e o desenvolvimento de talentos pessoais. Enfim, foram tempos muitíssimo inspiradores.

Naquele mesmo encontro, um currículo educacional havia sido lançado: o Gaia Education, uma espécie de compilação de experiências ecovileiras para ajudar pessoas a serem designers de comunidades sustentáveis. Na volta ao Brasil, uma amiga que viajara comigo estava transbordando vontade de trazer o tal curso Gaia Education para o Brasil. Na época, eu participava do projeto Ecobairro, uma tentativa de trazer para a cidade princípios das ecovilas. Resumindo o papo, conseguimos o apoio da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente e do grupo Ecovila São Paulo e, assim, organizamos a primeira edição do Gaia Education, totalmente gratuita e com 101 participantes. Foi fantástico.

De lá para cá, os sonhos, as utopias, as ideias e até as extravagâncias foram se ajeitando aqui e ali, ganhando ou perdendo espaço, tornando-se mais palpáveis e realistas – se bem que é preciso manter, ao menos, uma parte de sonho sempre por alcançar, para sustentar a caminhada e a motivação.

De tanto sonhar com uma vida comunitária, quem diria, cheguei também no extremo oposto: a vida privada. Curioso, não? Descobri, no pouco tempo de quase quatro anos em que me embrenhei em toda essa história, que uma comunidade só consegue manter-se saudável quando seus indivíduos têm espaço garantido para sua privacidade, sem interferências do grupo. Parece simples, não? Mas imagine que você mora numa comunidade em que as casas são bem próximas umas das outras e que, no dia a dia, é muito fácil saber quem está na ecovila, quem chegou de fora para visitar uma família, o que cada um anda fazendo, como está o humor de cada um, os problemas pessoais, e por aí vai…

Chega uma hora em que tudo o que se quer é… sossego, paz, silêncio. É claro que cada família tem o refúgio de sua casa, mas quando se fala em comunidade, sem muros e portões de isolamento, o limite entre o comunitário e o privado é uma linha invisível e tênue. E mais: numa sociedade pouco habituada ao cultivo do silêncio e do isolamento como forma de autoconhecimento, fechar-se em casa soa como um alarme de que algo está errado. “Fulano deve estar com algum problema”, “beltrano anda esquisito” e “acho que cicrano está magoado com a gente” são alguns dos comentários que costumam surgir ao primeiro sinal de “quero privacidade” de algum membro da comunidade.

Como as casas não têm portão de entrada, é comum passar na frente de uma delas e encontrar o vizinho cuidando do jardim ou, simplesmente, sentado no banco da varanda tomando sol e curtindo a paisagem. E o que se faz, então? Ora, a gente vai até lá e se junta a ele. Aí, ele oferece um café ou convida para o almoço e, assim, o estar só novamente se transforma em vida comunitária. Se a pessoa está afim de conversa e partilha, não há nada de errado nisso, é claro. Mas ninguém deve se culpar de querer ficar um pouco sozinho. As duas coisas devem conviver de forma equilibrada – pelo menos, sinto assim. Cada um na ecovila precisa sentir que tem o direito mais que legítimo de escolher estar só em alguns momentos. Faz bem e é saudável também.

Dia desses estava conversando com umas amigas da ecovila e tivemos uma ideia, digamos, engraçada. Pensamos em estabelecer um código de bandeiras coloridas nas casas, para que os vizinhos possam saber quando é tempo de recolhimento e quando é hora de estar junto a alguém. Assim, uma bandeira verde, por exemplo, indicaria “minha casa está aberta aos amigos”. Já uma bandeira vermelha, ao contrário, seria a deixa para “quero ficar sozinho(a) no meu casulo” ou “estou em reunião de família” ou ainda “estou curtindo minha casa e preciso de um tempo só para mim”. Talvez a cor amarela pudesse indicar um meio termo, do tipo “venha apenas se for algo urgente”. A partir daí, a criatividade dá asas a novas possibilidades de cores: uma bandeira branca pode ser o aviso de uma festa na casa de alguém; a cor rosa pode indicar que a casa está acolhendo uma meditação ou retiro espiritual; um tecido colorido hasteado sobre a varanda avisa que é tempo de colheita na horta caseira.

Códigos desse tipo podem ser eficientes na prevenção de conflitos interpessoais. E são maneiras de garantir a privacidade tão necessária a todos. Há um limite sutil entre apoiar uma família que precisa de ajuda e invadir sua privacidade fazendo perguntas com o intuito de ajudá-la. Primeiramente, é preciso saber se ela DESEJA nossa intervenção. Tudo isso são vivências que descobrimos ao longo do tempo e que requerem atenção e cuidados. Talvez as bandeiras não sejam a melhor solução, mas até que experimentemos ou que apareça outra sugestão, nunca saberemos. Por enquanto, seguimos confiando no bom senso de cada um – indispensável, ainda que sempre duvidoso.

Foto: Do mirante da minha casa, eu e a Sofia conseguimos ‘observar’ quase tudo o que acontece na ecovila: quem chega, quem sai, quem trabalha na terra, quem exagera na velocidade do carro, quem sobe a minha rua para fazer uma visita…

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Comentários

07/04/2010 às 12:12 Anonymous - diz:

Vivi – diz:Nossa, que lugar lindo!!!

08/04/2010 às 09:16 Anonymous - diz:

Carla – diz:Olá, olha eu aqui de novo! É incrível como nós vamos aprendendo coisas tão sutis, mas que nunca paramos antes para prestar atenção.. Realmente isso que acontece qdo nos recolhemos. Acham sempre que estamnos com problemas. Até eu penso assim qdo alguém quer ficar quieto. Morei uns meses sozinha e dei muito valor ao silêncio. Hoje de volta à casa dos meus pais, sinto falta às vezes. Acho que vou aderir essa idéia das bandeiras, pelo menos no meu quarto, rrrsssss. Ah, uma novidade: estou trabalhando com artesanatos feitos de madeira reciclada e algumas plantinhas. A intenção era levar um pouquinho de verde àqueles que já esqueceram o seu valor, e não é que está dando certo? Muitos estão adorando a idéia, lembrando de como é bom o verdinho por perto. Uma luz no fim do túnel? hahaha.. Ontem mesmo, copiei de um site, uma horta suspensa em calhas de PVC. Sucesso total! Achei que gostaria de saber.. Mil beijos

13/04/2010 às 09:45 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Olá, Vivi, olá, Carla, obrigada por passarem por aqui. Carla, adorei as novidades. Obrigada por compartilhá-las e boa sorte nessa jornada pelo verde! Um grande abraço, Giuliana

16/04/2010 às 15:01 Anonymous - diz:

Diana – diz:Mega a foto!

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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