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Primavera com onça e lobo-guará! Giuliana Capello - 21/09/2010 às 14:37
Depois de dias quentes e secos, eis que chega o fim de semana reservado para a Festa da Primavera na Ecovila Clareando. E para não quebrar a tradição, o tempo mudou, esfriou e uma garoa fina passou o sábado dançando ao sabor do vento gelado. Não fosse o trabalho na terra para esquentar, ninguém teria ficado fora de casa, com certeza. Mas todo ano nos reunimos para celebrar a entrada da estação das flores, do renascimento, do retorno à vida ou, como disse o amigo Tião, pai do amigo Michel, da primeira verdade.
Já estávamos nos programando há dias para o encontro e fiquei feliz de sentir que o clima frio e úmido não abalou a vontade das pessoas de trabalhar para adubar o pomar e adensar as flores na nossa Praça da Paz. Para o pomar comunitário, com cerca de 1000 árvores frutíferas de inúmeras espécies (a biodiversidade ali é algo incrível!), preparamos um adubo orgânico com o composto da composteira coletiva, misturado a um adubo comprado de um produtor da vizinha Atibaia, SP.
A divisão do trabalho aconteceu naturalmente. Uns misturavam o adubo, outros abriam espaço aos pés das árvores, outros distribuiam o adubo e outros ainda cobriam tudo com uma boa camada de palha seca. Tudo isso com uma alegria contagiante e um bem-estar que permeou o dia inteiro.
A hora do almoço foi surpreendente. Montamos uma mesa de piquenique na grama, com toalhas de xita colorida, e dispusemos os quitutes preparados no dia anterior: um bolo verde (de arroz integral e cheiro verde), patês de cenoura e de ricota, tortas de legumes, pães, muitas frutas, sucos e outras guloseimas. Já estávamos em mais de 30 pessoas em torno da mesa. Teve viola caipira, mantra para consagrar o espaço, amigos sumidos que vieram para animar o grupo.
Fiquei especialmente feliz de ver que as árvores se desenvolveram bem do ano passado para cá, quando também participei de um mutirão de adubação na primavera. Os limoeiros (de vários tipos) e goiabeiras estão enormes, e há pés de caqui, tamarindo, pêssego, umbu, siriguela, laranja, mixirica e banana crescendo bastante. Deu para sonhar com as compotas de frutas, geleias, doces e saladas que ainda faremos com toda essa riqueza…que, aliás, já atrai mais e mais a fauna silvestre.
Você acredita que já temos até histórias de onça para contar? Pois é, uma onça pegou um cabrito do sítio do vizinho e arrastou a presa até o terreno da amiga Margarida, para fazer um banquete e demarcar seu território. Eu mesma já avistei uma onça por lá, no entardecer, depois que os pássaros fizeram muito barulho na mata… Já os lobos-guará são quase moradores da ecovila. Bem ao lado da minha casa, numa pedra grande a uns cinco metros da porta da sala, encontrei cocô de lobo-guará mais de uma vez. Tem gente que já tem até fotos dos bichanos e também de tucanos, corujas, pacus e até de javalis (que foram soltos por um criador que faliu…).
Acho que foi uma espécie de sinal de que podemos conviver com eles de forma harmoniosa. Sinto que os bichos estão mais perto de nós, o que é bom. Quando a ecovila foi criada, o local era um enorme pasto com um remanescente de mata. Hoje, cerca de sete anos depois, o capim braquiária já recuou, temos mais biodiversidade, plantamos frutíferas e reflorestamos uma boa área com árvores nativas da Mata Atlântica, esverdeamos muito o lugar. E, claro, os bichos agradecem. Até o número de nascentes aumentou de quatro para seis!
Para mim, nossa interferência na região está provocando impactos mais positivos do que negativos. Esse deve ser o espírito das ecovilas! Engana-se quem pensa que as ecovilas devem se instalar em áreas de natureza preservada. Ao contrário, é melhor optar por regiões degradadas, com a intenção de restabelecer o equilíbrio do ecossistema local. Chegar numa área de vegetação preservada significa ter de desmatar, mesmo que minimamente, para criar a infraestrutura mínima da comunidade. Lá na Clareando, ufa!, não temos esse problema.
Eu poderia ficar aqui por longas linhas contando em detalhes o que rolou no fim de semana. Mas nada poderia traduzir sensações, cheiros, sorrisos, sabores. O que mais agradou a todos, pelo que ouvi dos amigos, foi o sentimento de comunidade, de trabalho e amizade. Sabe quando a gente chega num lugar e se sente em casa? Estávamos todos em casa e o melhor: na mesma casa do lobo-guará, da onça, dos tucanos, das cobras, dos beija-flores…
p.s.: ainda vou escolher uma foto bacana desse encontro para postar aqui nos próximos dias… Eu estava tão envolvida nas atividades que acabei tirando pouquíssimas fotos…
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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