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Pratique a observação! Giuliana Capello - 13/12/2011 às 14:22

Você até pode achar que sair por aí observando tudo e todos é pura atividade escolar, coisa para a primeira década da vida. Mas não é. Toda pessoa que tem vontade de transformar o mundo (ou só mexer um pouquinho na sua própria vida) precisa, antes de qualquer coisa, de atenção e habilidade para observar tudo que está ao seu redor. Não dá para interagir com a natureza sem antes observá-la – e isso passa pela contemplação, apreciação, análise e também pelos sentidos mais “ociosos” nessa época de nossa história que é tão visual… Cheirar, tocar, saborear, ouvir a natureza. Ah, que delícia!

Esse é um dos princípios de que mais gosto na Permacultura. Observar e interagir. Você costuma fazer isso? Faça um teste rápido: você reparou que alguma árvore perto da sua casa está repleta de flores? Notou que o som dos passarinhos está mais presente no ar? Já sentiu na pele aquele vento que antecede a chuva no meio da tarde? Parou por alguns instantes para localizar a lua no céu? Sentiu gratidão por tudo isso?

Pois é, sabe aquele papo de gente da terra, que sabe quando vai chover, quando é hora de plantar e que consegue “ler” a natureza a partir do comportamento dos animais? Será que perdemos todo esse conhecimento ao longo de umas poucas gerações? Como isso aconteceu?

Simplesmente deixamos de observar a natureza… Os grandes prédios encurtaram nosso horizonte; os carros e a velocidade conquistada pela parafernália tecnológica (eletrodomésticos, telefonia, computadores etc.) tornaram confusa nossa noção de tempo e espaço. O verde ficou mais longe e mais escasso, substituído pelo cinza do concreto e do asfalto, sempre tão monótonos… Máquinas não têm oscilação de estações, não florescem nem produzem sementes… Não precisamos observá-las…

Perdemos uma parte importante da nossa habilidade e curiosidade de admirar a beleza e os mistérios da natureza. Enfiados dia após dia em escritórios com ar-condicionado, carros com ar-condicionado, casas com ar-condicionado, perdemos a elasticidade do nosso corpo para suportar diferenças de temperatura (suar mais para resfriar o corpo, arrepiar os pelos para bloquear o frio). Estamos quase sempre vivendo mediados por alguma interface tecnológica que nos separa da natureza: um veículo, um elevador, uma jaqueta impermeável, óculos escuros, telas de aparelhos eletrônicos. Onde está a natureza no meio de tudo isso?

Quando trabalhei com educação ambiental, cansei de ver crianças com medo de formiga, de pisar na grama, de sentar na terra, de “sujar” as mãos para plantar uma semente na mata. Natureza é rude, é suja, é nojenta, enfim, é algo extremamente distante e estranho a nós. Que triste…

Lembro-me de quando eu ainda morava em São Paulo e me surpreendia admirando o ipê-rosa que teimava em reinar absoluto na rua Cardeal Arcoverde. Era lindo ver as folhas formando um tapete na calçada, a copa exuberante que deixava o céu mais bonito e o coração mais alegre.

Quando simplesmente nos abrimos para a natureza, aceitando-a, sentimos que sua força está em todos os lugares, ainda que a paisagem pareça urbana demais, construída demais, modificada demais. Ela está lá também. Basta ob-se-rvar.

E observar é o primeiro passo para entendermos o que acontece ao nosso redor e o que podemos fazer para construir ambientes mais agradáveis, saudáveis e seguros. Terremotos ocorrem na natureza, mas viram desastres quando afetam cidades… Chuvas ocorrem, e podem tanto fertilizar a terra quanto provocar enchentes.

A interação que mantemos com a natureza é resultado do olhar que dispensamos a ela. Se nossa casa é alvo de ventos fortes, e notamos isso, podemos plantar um bom quebra-vento para nos proteger. Se, da mesma forma, as chuvas são intensas e constantes, podemos manter o solo mais permeável para que ela infiltre e recarregue os lençóis freáticos e, ainda, aproveitar a água nas atividades domésticas, armazenando-a e conquistando autonomia no uso do recurso.

É tudo uma questão de – de novo – observar e interagir de forma adequada, aproveitando o que ela nos oferece e transformando o que seriam problemas em soluções simples, que tornam nossa vida mais gostosa. Vamos nessa?

Foto: O céu muda a cada instante. Da varanda da minha casa, com um pouco de atenção e humildade, é possível sentir na pele a direção do vento e dizer se a chuva está se aproximando ou se distanciando… É uma delícia ficar brincando de adivinhar os próximos passos da natureza… A pressão atmosférica muda, a luz do sol na terra se altera, os cheiros, o movimento dos bichos, tudo está em constante movimento. E nossa participação nesses ciclos só depende de nós...

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Comentários

14/12/2011 às 12:15 Fabio Issene Angelo - diz:

Caros Senhores;

Felizmente consigo sentir a natureza!
As mudanças de estação; pressão atmosférica; umidade relativa do ar tem seus sutis e por muitas vezes impactantes avisos; mesmo durante as tempestades podemos sentir uma intensa força renovadora.
Creio que esse organismo vivo e vibrante que nos abriga tem muito a oferecer e ensinar; é só ficarmos atentos!
Parabéns pelo artigo!

Abraços

Fabio Issene Angelo

15/12/2011 às 01:58 Raphael R. de Paula - diz:

Seus artigos sempre revigorantes e inspiradores.
Parabéns pelo trabalho e pela vista da sua janela. PERFEITA!
Bjs

15/12/2011 às 02:18 Thiago Silva - diz:

Giuliana, há muito eu tenho o habito de observar os pássaros em meio ao dia-a-dia de São Paulo (uma paixão que coloquei naquele meu projeto… rs), e tenho um relato curioso para transmitir. Em uma manhã de Sábado de 2010, estava caminhando próximo a um parque na região do Carrão, quando parei para observar alguns pássaros. Me deparei com um Sabiá-do-campo, lindo, com os olhos brancos… Parei para contemplar a ave, e ela percebeu que eu estava observando… Pensei que ela iria levantar vôo, mas para minha surpresa ela permaneceu onde estava e começou a me observar também… Foi um momento realmente especial, um instante de paz que raramente temos em meio a esta rotina caótica… Costumo observar pássaros no Centro Cultural ou nos parques de São Paulo, e dependendo do local e do seu estado de espírito, eles realmente se sentem a vontade para se aproximar sem medo. Um abraço!!

13/05/2012 às 14:31 Marcia Paiva - diz:

Olá!
Em pleno dia das mães me dei o direito de ficar só, e fazer coisas que gosto Ex: ficar em silencio, cuidar de minhas coisas em casa, conversar com minhas mudinhas de 4 alfaces, 6 rabanetes, salsinha, cebolinha, alecrin que plantei juntamente com minha neta e navegando pela internet te achei e quero parabenizar pelas palavras é bem isso ouvir, sentir, apreciar, degustar enfim veio cair em mim muito bem.
Um abração

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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