Gaiatos e Gaianos

Publique
o selo
no seu blog

Petrofóbicos e locávoros, uni-vos! Giuliana Capello - 18/01/2011 às 11:25


Definitivamente, aquilo que comemos diz respeito à maneira como nos relacionamos com a natureza. Cada vez mais, a origem ou procedência dos alimentos é desconhecida da maioria da população, que não tem ideia de quem produziu aquilo que está sobre sua mesa. Até porque, com tanta comida industrializada, fica difícil até identificar os ingredientes como algo, digamos, comestível: maltodextrina, sorbitol, goma xantana, gordura vegetal interesterificada e outros palavrões que engolimos o tempo todo.

Já ouvi amigos dizerem que gostam da ideia de “não comer nenhum ingrediente que minha avó não reconheça como comida”. Chega a ser engraçado, embora na prática isso significaria evitar quase todo tipo de alimento feito pela indústria.

Que comer é poupar ou sugar a natureza, muita gente já sabe. Dizer-se onívoro hoje em dia, por exemplo, em algumas rodas é quase como confessar um crime. Comer de tudo equivale a não ter critérios de escolha, não fazer diferença entre um pão artesanal, feito com farinha plantada, colhida e beneficiada pelo próprio padeiro e uma bisnaguinha industrializada que atravessa o país de Norte a Sul, sem que seu valor nutritivo compense o consumo de combustível…

Carnívoros e herbívoros, apesar da nomenclatura parecer coisa de biólogos, talvez sejam os tipos mais antagônicos de comedores pós-modernos. Entre a churrascaria e o restaurante vegetariano há uma distância maior do que aquela medida por qualquer mapa de ruas. São mundos distintos, critérios e valores distintos. Mas aqui não vou ficar defendendo um ou outro porque quero ir além de ambos – já, já você vai entender.

Comecei a ler um livro que me encantou bastante já nas primeiras páginas. O título é O mundo é o que você come, de Barbara Kingsolver, uma americana que se mudou com a família de uma cidade grande (Tucson, Arizona) para a pequena e rural Appalachia, no estado da Virginia. O objetivo da família era passar um ano se alimentando daquilo que pudessem produzir em sua própria terra, com a possibilidade de complementar as refeições com produtos de produtores vizinhos.

Durante esse percurso, Barbara discute os principais problemas da indústria alimentícia, que vão desde o esgotamento e contaminação do solo com insumos agrícolas até a perda da biodiversidade com as monoculturas e o alto consumo de petróleo embutido nos alimentos que viajam milhares de quilômetros em superembalagens, só para que a população tenha à disposição produtos fora da estação, a preços irreais. Vem daí o seguinte comentário da escritora: (…) “Talvez o mundo se mostrasse mais hospitaleiro em jantares cujos convidados ficam desconfortáveis com alimentos com alto consumo de combustível se tal preferência alimentar tivesse um nome. Petrofóbicos? Comedores de estação? Comedores locais? Domésticos?” 

Vou confessar: a-do-rei o termo petrofóbico. É engraçado e bastante direto. Nada de comer comida “viajada” ou “rodada” demais… Mas que opção resta aos petrofóbicos? Ser o que Barbara descobriu em suas pesquisas sobre o movimento Slow Food: um locávoro (do italiano locavore), ou seja, “celebrar o que já temos e defender os prazeres das comidas sazonais”. Não é interessante?

Desde que cheguei a Piracaia, SP, não penso em outra coisa que não seja começar uma bela horta no quintal e descobrir onde comprar alimentos produzidos por agricultores locais, preferencialmente sem agrotóxicos, é claro. Já consegui algumas folhas (espinafre, escarola, rúcula) de um sítio da cidade que produz orgânicos, queijo artesanal de pequenos produtores piracaienses, além de ovo caipira. Para quem gosta de carne, achei até frango e pato caipira…

Por essas e outras, me identifiquei muito com o mundo de Barbara, em que o sabor e o prazer de comer estão diretamente ligados à procedência e ao modo de cultivo dos alimentos. Sem a menor dúvida, prefiro uma refeição mais simples, menos requintada, que chegou à cozinha ainda com vestígios de terra, a me alimentar de um menu que, se pudesse, exalaria cheiro de diesel e agrotóxicos.

Comer alimentos produzidos localmente não tem nada a ver com negar-se ao prazer de uma boa e saborosa refeição. Ao contrário, é um dos luxos a que quero me dar o direito… Nascemos “de fábrica” com cinco sentidos que nos auxiliam na escolha, entre outras coisas, daquilo que colocamos em nossas mesas. E não há dúvida de que alimentos mais frescos e produzidos de forma orgânica têm mais nutrientes e sabor do que aquelas frutas desbotadas que encontramos nas gôndolas dos hipermercados de janeiro a dezembro. Se o sabor passa pelo olfato e o paladar – e também pela visão, por que não? – está na hora de adquirirmos mais um bom e útil filtro: a consciência. Afinal, você tem fome de quê?

Foto: abóbora que subiu o telhado de casa…

ver este postcomente

Comentários

22/01/2011 às 15:48 Anonymous - diz:

Adélia Maria Bufoni Costa – diz:Olá, Giuliana!Acho fantásticas suas percepções e textos. Tenho uma experiência parecida em alguns aspectos, morei numa comunidade “ecovila-like” por um ano, em 2006, e atualmente estou procurando um grupo, uma ecovila pronta ou em desenvolvimento para morar e trabalhar; tenho mantido contato com Sandra Mantelli para agendar uma visita à Clareando. Abraços, muitas alegrias a vocês! Adélia (Uberlândia-MG)

Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!

Enviar

Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

Posts anteriores

• Ser limpinho num planeta sujinho?

• Eu, você e o fim do mundo

• Esterco, palha e felicidade

• No compasso da natureza

• A simplicidade e a crise de imaginário

• Criança precisa de natureza

• Dias de mudança e gentilezas!

• Mudança para a ecovila!

• Meio ambiente: por que custo e não investimento?

• A lição básica do lixo

• Discurso sustentável tem limite

• A cidade, o campo e a estrela Sinhá

• A mágica das trocas de saberes

• Carnaval em comunidade

• Ideias para esverdear a construção

• Teste drive do banheiro seco

• O planeta numa bandeja (de isopor)?

• Reflexões sobre o slow life e a internet

• A face feia dos cosméticos

• Vasos para melhorar o trânsito

• Primeira virada em casa!

• 2012: ano para entender o planeta

• Pratique a observação!

• Greenbuilding para pássaros

• Belo Monte, Rachel Carson e minhas velas artesanais

• O caipira e a mobilidade urbana

• O que dar a alguém que já tem “tudo”?

• Pela volta do fogo doméstico

• O empurrãozinho que faltava…

• Um lugar em você chamado Ahimsa

• RPPN El Nagual: cooperação, amizade e inspiração

• Dez anos de um sonho

• Você quer ser bom ou justo?

• É primavera em mim

• E viva o decrescimento

• Um guarda-chuva para dois verões

• E quando não há rede de esgoto?

• Quem casa quer casa (ecológica!)

• Se não é divertido, não é sustentável

• Lunática com muito orgulho

• Secador solar e generosidade

• Doze metros de muita história

• Velhice x terceira idade

• Infância desplastificada

• Um dia sem telas

• Um luxo chamado Tempo

• Horta de fundo de quintal

• Liberdade anda junto com sustentabilidade

• Produtos que não deveriam existir

• Lixo é uma questão topológica

• Celebração de blogueira

• Você e o fim da sacolinha em SP

• A lição do Ubuntu ancestral

• Ecovila: no pasto ou na mata nativa?

• Cada um com seu entulho

• O descaso com o lixo orgânico

• Espiritualidade e vida comunitária

• Produzir ou consumir cultura?

• Fukushima e você

• Trocas solidárias que enriquecem

• Lavar roupas sem sabão!

• Acordos comunitários para a ecovila

• O valor de uma árvore

• A chegada de uma nova vida

• Por que o simples é tão complicado?

• Impressões do interior

• Só tecnologia não salva o planeta

• Bioconstrução na serra fluminense

• Um bairro em transição

• Petrofóbicos e locávoros, uni-vos!

• Permacultura para transformar

• Água de chuva, muita chuva…

• Partida e chegada

• A nova história dos três porquinhos

• 365 dias mais ecológicos

• Maternidade e natureza

• Livrai-nos dos pecados do greenwashing!

• Pesadelo de consumo

• Dias de mudança (e desapego)

• Sustentável e mais barato, sim!

• Quem faz a sua comida?

• Ecovila: mutirão na represa!

• Cohousing: morar com amigos

• Esgoto bacana e ecológico

• Superadobe ou terra ensacada

• Primavera com onça e lobo-guará!

• Bioconstrução para multiplicar

• Feriado unplugged

• O que é viver bem?

• Jardim de histórias

• Por que adoro hortas permaculturais

• O joio e o trigo

• Máquinas descartáveis?!?

• Parques x hidrelétricas

• Atire bolas de semente!

• Sobre as boas tradições

• Precisamos de uma escola!

• Sobre a formação de uma ecovila

• Festa junina na ecovila

• Quando o tamanho é documento

• Terra fértil e sangue menstrual

• O tempo de uma casa

• O centro comunitário da ecovila

• Tempo para a arte

• Medicina ecológica?

• O céu de todos e de cada um

• Aqui e agora

• Sabedoria das ervas

• Qual é a sua sustentabilidade?

• Privacidade numa comunidade

• Ecodesign para cuidar do planeta

• Home centers e produtos ecológicos

• O valor do silêncio

• Ecovila com horta… e sem delivery

• A conta de gasolina na ecovila

• Patos, galinhas e outros bichos

• Despedida na ecovila

• Conectada, finalmente!

• Menos tv, mais horta

• O recado das crianças

• Os pedreiros somos nós!

• Esperança e cooperação na ecovila

• O tempo é o novo regente

• Sobre a proximidade do fim

• A COP15 e a síndrome do panetone

• Histórias de uma parteira na Amazônia

• Multiplicar é muito bom

• Governança na ecovila

• Morar em vila…em São Paulo

• Gestão do lixo na ecovila

• Ecovila e sustentabilidade econômica

• Um carro, um jipe ou um cavalo?!

• Parede de toquinhos

• Casa com água da chuva

• Para iluminar a casa e curtir a noite

• Festa da primavera

• Uma casa para abrigar nossos sonhos

• Uma moldura para o horizonte

• A composteira da minha avó

• Quando o ecológico não é bem ecológico

• Tijolos de adobe

• Não sei se é verdade, mas repasso?!?

• Por que adoro feiras de trocas

• Ecovila sem internet?

• Entre amigos

• Minha casa num programa de tv…

• Ah, esse excesso de e-mails…

• Trabalho de formiguinha

• Socorro, não aguento mais SP!

• Para tecer uma vida na ecovila

• Entre na onda das roupas usadas

• Mão na massa, sem discursos

• Mata atlântica: mais que uma efeméride

• Como construir uma ecovila?

• O que fazer com a madeira que sobrou?

• Histórias de reúso, economia e bons amigos

• Frio na barriga…

• Mutirão de solo-cimento

• Encontro de ecovilas!

• Sua casa pode ser uma ecovila

• Meu telhado verde, verdinho, verdinho

• Celebrar ajuda a enfrentar problemas

• Yoga e sustentabilidade

• O segredo da abóbora mágica…

• Dona-de-casa, eu?!?

• Quanto vale o nosso trabalho?

• Forno de pizza de barro

• Meus vizinhos, minha família

• Mosaico de vidros usados

• A insustentável mão-de-obra

• Sorvete de inhame!

• De que é feita a minha casa?

• Parede de garrafa?!

• Composteira de novo!

• O Natal pode ser ecológico?

• A alegria de viver em comunidade

• Infância ecológica

• Devagar é mais gostoso

• Mitos e vícios modernos

• Crise financeira ou chance para o planeta?

• O que eu vou fazer numa ecovila?

• Fãs de pau-a-pique

• Construir com as próprias mãos

• Parto natural e ecológico

• Confissão: eu não passo roupas

• As ecovilas e as mudanças climáticas

• Slow life: vida mais calma, lenta e confortável

• Paredes vivas de Cob

• Dividir para ter mais

• Tomada de decisão por consenso

• Simplicidade voluntária

• Bicho de ecovila

• Brechó arquitetônico

• Histórias de João-de-barro

• Tapioca: regional, gostosa e sustentável

• Para ter uma composteira caseira

• Mutirão de telhado verde

• Malhação para o planeta

• Minha casa na ecovila

• Catadores de esperança

• Água no copinho plástico? Tô fora!

• Música para sentir a natureza

• Bioconstrução e desastres naturais

• Democracia, consenso ou autocracia??

• Entulho não é lixo!

• Viva o pequeno agricultor!

• Educação para o campo

• Meu bairro, minha cidade

• Por trás do velho clichê

• Para construir uma comunidade

• O prazer das compras solidárias

• O tempo do sol e da lua

• Poluição e Arte dentro do túnel

• Riqueza para além do dinheiro

• Catadora, com muito orgulho

• Nós e a natureza, conectados

• High tech ou low tech?

• Impressões de uma ecochata (?) na Campus Party

• Horta vertical para pequenos espaços

• Receitas naturais para curar a ressaca do carnaval

• Aprendendo a costurar com a avó

• Festa infantil não precisa ser descartável!

• Telhado ou jardim?

• Consumo verde: tarefa difícil mas necessária

• Permacultura: do linear ao cíclico

• Um mergulho na Permacultura

• Cinco dias com o arquiteto descalço

• Banheiro seco? Como assim?!

• Sustentável é também saber ouvir

• Permacultura: transformando problemaem solução

• Uma delícia de mutirão

• O dia em que adotei a Sofia

• Falta de civilidade é fogo (na mata)!

• Design natural é tudo de bom!

• Dividir a lavanderia com o vizinho?!?

• Abaixo as fraldas descartáveis!

• Sim, absorvente ecológico!

• Histórias de uma outra gastronomia

• Uma outra gastronomia – parte 2

• Sem carro e sem delivery

• Por uma dieta que respeite o planeta

• Minhocas via Sedex

• Mais adubo e menos lixo

• Lugar de madeira é…

• Construtoras precisam se adaptar

• Seu Zé e as arvrinhas

• Reunião de condomínio? Não, de ecovila!

• Disk-pizza e permacultura na geladeira

• Domingão na feira de trocas

• Feira de trocas – parte 2

• Feira de trocas – parte 3

• Guarda-roupa coletivo espanta o frio

• Até quando seremos gaiatos?

PATROCÍNIO: