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Pesadelo de consumo Giuliana Capello - 16/11/2010 às 16:11
Não me lembro de ter compartilhado aqui no blog nenhum sonho desses que se sonha dormindo ao contrário daqueles que tenho acordada mesmo e que, comumente, relato em posts sem muitos pudores. Mas esta noite tive um pesadelo estranho que gostaria de contar se você me prometer que não vai ficar fazendo análises psicanalíticas a meu respeito. Combinado?
Vamos lá: sonhei que tinha entrado por engano em um shopping center gigante que era uma espécie de labirinto. Rapidamente me senti perdida e com muita vontade de sair dali. Só que descobri que seria muito, muito difícil. Cada loja tinha uma sala principal (com produtos expostos e vendedores me observando) com várias portas, todas idênticas: uma de entrada, outra que levava ao café da loja, outra que dava acesso à sala de descanso e reunião dos funcionários, outra ainda para separar as vitrines dos banheiros e uma quinta porta que, finalmente, levava à saída. Ufa! O problema é que esta porta não me levava para a rua, mas sim para outra loja, e outra, e mais outra. Descobri, então, que seria preciso passar por todas as lojas do shopping até conseguir sair daquele lugar. Um horror!
Tentei por algum tempo abrir portas e mais portas, entrando de loja em loja, num ato desesperado de ver a luz do dia, o vento, a chuva, qualquer coisa que estivesse fora daquele prédio. Mas nada dava certo. Eu já tinha entrado e saído de lojas de roupas femininas, masculinas, infantis, lojas de sapatos, de acessórios, de pranchas de surfe, de artigos que brilham no escuro (sei lá o que eram aquelas coisas…), de bonecas maquiadas, de guarda-chuvas, brinquedos de plástico, bolas gigantes de parques de diversões, enfim, um mar de possibilidades de compras (muitas delas absolutamente inúteis, como pode perceber) que me deixou tonta, enjoada e com vontade de sumir. Claro que o resultado não poderia ser outro: quando vi que tinha em mãos um colar caríssimo que eu havia comprado no cartão de crédito (um dos dez que estavam na minha carteira) e que jamais usaria, acordei, quase em pânico! Que alívio que senti! Agora sim, de volta à realidade.
Mas que realidade é essa? Não seria muito parecida com a que vivi no sonho/pesadelo? Acordei grilada com isso, essa história de viver comprando, comprando. Tudo nas cidades parece nos mobilizar para as compras. Já reparou que em muitos lugares é preciso atravessar os corredores de lojas de ponta a ponta para encontrar a escada rolante? Por que não constroem uma pertinho da outra? Para que os consumidores possam ter a chance de andar mais um pouquinho e, quem sabe, ficarem tentados a mais umas comprinhas por impulso. Afinal, nunca se sabe quando iremos encontrar aquilo de que precisávamos tanto e nem sabíamos, não é mesmo?
Ok, estou sendo irônica. É que não resisti… É tão absurdo, tão fora de propósito, ou melhor, do propósito deste século XXI, que não deu para evitar o humor mais sombrio. Com tanta gente fazendo campanha pelo consumo consciente, pelas atitudes mais sustentáveis, e ainda tem cidadão no planeta fazendo de conta que está tudo certo, tudo caminhando bem e tranquilamente. Falando nisso, assisti dias atrás ao curta metragem The Bill, que gostaria de sugerir a você. Está na página http://www.youtube.com/watch?v=rWfb0VMCQHE&feature=player_embedded. Fala sobre esses abusos de consumo e o estilo de vida insustentável que é tido como sinônimo de sucesso na vida (ter carros fantásticos, viajar para lugares paradisíacos nas férias, manter hobbies excêntricos e de alto impacto socioambiental, essas coisas). Quem paga a conta? Adivinhe, assista ao filme e veja se sua resposta estava certa. Vale a pena.
Esse mundo requer olhos abertos, mente serena e maneiras saudáveis de combater as ondas de ansiedade tão comuns nessa pós-modernidade, sem compensar os desequilíbrios e carências em comida industrializada e compras abusivas. Para quem mora nas cidades, a tarefa é ainda mais complexa, pois até a arquitetura virou cúmplice dos altos índices de vendas. Temos vitrines belíssimas, luzes que não nos deixam esquecer o Natal, lojinhas nas estações do metrô, camelôs em pontos de ônibus, praças de alimentação cada vez mais extravagantes, centros de compras dentro de universidades… Dá para sair desse labirinto?! Às vezes, é complicado fazer isso até dormindo…
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16/11/2010 às 16:46 Anonymous - diz:
HERNANDO – diz:Parabéns pelo tema. Sem dúvida, a situação é prá lá de preocupante.
16/11/2010 às 18:59 Anonymous - diz:
Rafael Britto – diz:Estamos consumindo o planeta! Logo a nós mesmos… Lembro de um outro post seu que falava sobre um sonho, ñ sei qual agora.Desde que conheci vc, seu marido e sua casa na Clareando tenho acompanhado seu blog! Mto bom…
16/11/2010 às 22:39 Anonymous - diz:
Janete – diz:Oi pessoal, tem um video muito bom na internet chamado Sociedade do Automóvel, de uns 40 minutos de duração que mostra o poder que este veículo exerce sobre o ser humano e como ele nos tornou piores.
17/11/2010 às 10:33 Anonymous - diz:
helo costi – diz:por acaso voce e compulsiva..daquelas que compra 50 pares de sapato ..vive em shoping??hahaha
17/11/2010 às 10:38 Anonymous - diz:
helo costi – diz:ou voce ta frustrada porque nao consegue comprar toda hora …so ganha p sobreviver!!hahaha
17/11/2010 às 14:45 Anonymous - diz:
18/11/2010 às 09:37 Anonymous - diz:
Fabia – diz:Isso me lembra bem um trecho daquele texto “Passeio Socrático” de Frei Betto:”Costumo advertir os balconistas que me cercam à portadas lojas:- Estou apenas fazendo um passeio socrático.Diante de seus olhares espantados, explico:- Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: ‘Estou apenas observando quanta coisa existe e das quais não preciso para ser feliz.”
25/11/2010 às 11:45 Anonymous - diz:
Raquel – diz:olha se eu tivesse um sonho assim acordaria frustrada pois eu teria comprado de tudo , e a minha frustração seria acordar sem minhas compras, pois sou o oposto de Sócrates e tenho como filosofia, só ir ao shopping se tiver dinheiro para comprar. Afinal, Lojas são para comprar e praças, camas, massagem para relaxar.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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