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Pela volta do fogo doméstico Giuliana Capello - 08/11/2011 às 02:10
Em meio a tantos equipamentos eletrônicos, luzes azuladas, internet e televisão, talvez poucas coisas possam ser mais poderosas do que dar espaço para o fogo em nossas casas. Desde que me integrei na ecovila, foram inúmeros, incontáveis os momentos que compartilhei com amigos à beira do fogo. Nas noites estreladas, costumamos fazer uma fogueira para simplesmente sentar em roda e contar histórias, beber uma taça de vinho, ouvir os amigos violeiros, contemplar o céu e o rosto iluminado dos companheiros. A dança do fogo, o barulhinho da madeira estalando, o calor gostoso, tudo nos remete e parece nos conectar a um tempo sem tempo, um lugar antigo, ancestral, cheio de intensidades que não explicamos, mas sentimos. Quem já sentou em volta de uma fogueira com amigos sabe do que estou falando.
Para mim, o fogo sempre teve presença marcante. Tempos atrás, passei um ano inteiro produzindo velas artesanais em casa, para vender em lojas e conseguir pagar as contas enquanto eu repensava meu trabalho, minha profissão, afastada do mercado. E foi um período de descobertas importantes, fruto do fogo, não tenho dúvida.
Já na ecovila, também foi – e continua sendo – à beira do fogo da cozinha que preparamos nossas refeições comunitárias, regadas a muitas conversas, reflexões, aprendizados. Sem falar que houve um tempo em que bastava um trovão no céu para ficarmos sem energia elétrica. E aí entravam as velas… E o clima da noite se transformava por completo. Saíam as luzes brancas excessivas, que mais lembram farmácias e supermercados abertos na madrugada, e entravam os tons amarelados das velas e lampiões, intimistas, aconchegantes, enigmáticos.
Andei pensando nisso ultimamente, por conta da minha casa na comunidade, quase pronta. Semanas atrás inaugurei o fogão (como contei no post anterior) e percebi ali uma espécie de ritual de passagem, que indicava o fim da casa e o início do lar. Há uma diferença entre casa e lar, sim. Acredito nisso. Talvez não consiga explicar em palavras, conceitos, teorias, enfim, mas sinto, de verdade, que quando o fogo entra a casa passa, então, a ser um lar, com “L” maiúsculo: Lar.
Na mitologia romana, a deusa Héstia, simbolizada pelo fogo, era requisitada sempre que se desejava consagrar um lar ou um templo. Era preciso deixá-la entrar, seu fogo e presença espiritual, para que o local pudesse receber calor, luz e alimento. Muitas outras culturas, em todas as sociedades, reservaram simbologias interessantes para o fogo. O Vastu Shastra, por exemplo, de origem milenar indiana, dedica-se ao estudo da arquitetura da casa do ponto de vista do bem-estar de seus moradores – o que está ligado também, segundo essa filosofia, à conquista da harmonia do elemento fogo, ou Agni.
Antepassados remotos viveram sob a luz do fogo. Hoje, acender uma lareira ou um fogão a lenha é como refazer um elo de ligação com nossa história mais ancestral. É por isso, ainda que muito subjetivamente, que eu sempre desejei vivenciar o fogo dentro de casa, tomar chá ao lado da lareira – estrategicamente posicionada no centro da casa – e trocar confidências pertinho do fogo.
Em tempos de múltiplos estímulos e pouco foco e concentração, colocar-se diante do fogo é remédio contra o estresse, a angústia, a solidão. É uma escolha: quer assistir à tv ou ingressar numa viagem misteriosa em frente à lareira, luzes apagadas, olhares atentos, observadores?
Alguns podem dizer: mas usar lenha hoje em dia não é ecológico, menina! Depende da origem da madeira e, aliás, nem precisa ser madeira. Galhinhos de bambu, dizem uns amigos, são ótimos combustíveis para lareiras, com a vantagem da abundância e fácil renovação na natureza. E é tudo, de novo, uma questão de escolhas: se a lareira está presente, provavelmente vários aparelhos eletrônicos que consomem energia e são um problemão no descarte pós-consumo perdem a vez ou o lugar principal no altar dos nossos “deuses domésticos”.
Aqui abro parênteses para uma confissão: detesto luzes fluorescentes. São frias, desconfortáveis, sem vida, deixam tudo pasteurizado, sem graça. Embora sejam hoje cultuadas como mais sustentáveis (eu discordo, pois o ciclo de vida delas é muito mais impactante do que as singelas incandescentes, sem mercúrio), o problema é o olhar torto sobre a questão do consumo de energia e o hábito arraigado de transformar as noites em dias. Não precisamos de tanta luz em casa à noite… Noite é para ser curtida no escurinho… Não somos galinhas poedeiras, somos? Quando a noite chega, é hora de desacelerar, repensar, relaxar, e não de manter o mesmo ritmo alucinante a que nos submetemos durante o dia… Experimente abrir espaço para o fogo em sua casa, em sua vida. (Isso me lembra uma música do J. M. Wisnik, que diz: “vê se encontra um tempo para me encontrar sem contratempos por algum tempo…”).
Foto: mesa montada na “festa do improviso”, em minha casa na Ecovila Clareando, quando ainda não tínhamos luz elétrica…
ver este postcomente
09/11/2011 às 00:14 regina - diz:
Vamos iniciar o movimento”Xôôô para as lâmpadas fluorescentes”? Adoro as luzes mais quentes!
09/11/2011 às 02:08 Eleandro Pedroso de Lima - diz:
Tentarei usar mais velas Giulliana, é realmente confortante passarmos a noite com o escurinho ou ter amigos cantando em volta da fogueira, me deu uma nostalgia o seu texto, que bom.
09/11/2011 às 02:09 Eleandro Pedroso de Lima - diz:
Giulliana como conhecer uma ecovila?
15/11/2011 às 11:01 Martin Winter - diz:
Excelente postagem! Quanto ao uso da madeira (da lenha, no caso), tenho a escassez se deu unicamente porque deixamos de replantar –o que seria muito mais saudável– e optamos por outras formas de energia. Como algo tão valioso como a madeira pôde ser substituído?
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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