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Os pedreiros somos nós! Giuliana Capello - 19/01/2010 às 17:49

Minha casa na ecovila está em obra há 2,5 anos. No início, contratamos uma equipe para fazer a fundação, a estrutura de madeira de eucalipto de reflorestamento e o telhado. Após essas etapas, começamos a organizar alguns mutirões com amigos para levantar paredes de terra (adobe, pau-a-pique e COB) e tijolo de solo-cimento, além da colocação de terra sobre o telhado verde.

Nunca imaginei que um dia eu participaria da construção da minha própria casa. Mas hoje, passado algum tempo, sinto a experiência como um grande presente. Eu e meu marido-companheiro já somos praticamente “biopedreiros”. Já investimos muita energia em cada cantinho da casa que, por isso, já tem história e memória, antes mesmo de ser inaugurada.

Anos atrás, quando li o Manual do Arquiteto Descalço, do holandês Johan van Lengen, fiquei encantada com a possibilidade de resgatar a autonomia que muitos de nós tinham de construir sua morada. O regime de mutirão era a regra nas comunidades. Um ajudava o outro a erguer a casa, geralmente com técnicas que atravessavam gerações. Hoje em dia, porém, a autoconstrução é extremamente mal vista pelos empreendedores do mercado imobiliário, que afirmam ser um modo perigoso e inseguro de construir. (Será que o fato de serem os grandes interessados em vender moradias tem alguma influência nessa posição?)
Seja como for, é sempre um prazer relatar um pouquinho do que acontece na minha casa na ecovila Clareando. E é isso que gostaria de fazer, mais uma vez, a partir de agora.

Desde o início do ano, estamos trabalhando para tentar concluir tudo até março. Nos últimos quinze dias, fizemos o revestimento de algumas paredes com cal e proteção hidrorrepelente (com baba de cacto palma). Finalizamos as paredes internas de Cord Wood (ou parede de toquinhos de madeira), iniciamos a hidráulica da casa com tubos flexíveis doados pelos vizinhos Rosana e Victor. Cada pequena tarefa concluída tem um sabor especial.

Com criatividade, estamos conseguindo baratear o custo de alguns produtos industrializados. Exemplo disso é a pia do banheiro social: não uma peça de cerâmica, mas sim um tacho de pastelaria (!!!) adaptado para a função. Meu marido, para essas invenções malucas, é praticamente um professor Pardal (lembra dele?). A peça de ágata custou R$ 18 e só foi preciso fazer um furo para receber o encanamento. A torneira será um colmo de bambu, recobrindo o tubo hidráulico. Mais uma economia.

É claro que não temos apenas o critério do mais econômico. As reflexões sobre se é sustentável, ecológico, saudável, eficiente e prático também fazem parte de cada decisão. E olha que elas não são fáceis… A tinta para revestir as paredes, por exemplo. Escolhemos uma mistura natural de cal, mais barata, atóxica e até inseticida. Quando queremos dar uma corzinha, acrescentamos um pouco de terra ou pigmento químico (pó Xadrez) – que, ainda assim, acaba sendo mais saudável do que as tintas industrializadas.

Esta semana visitaremos alguns cemitérios de azulejos, em busca de sobras interessantes para fazer mosaicos artesanais. Já fiz um ou outro mosaico, mas não sou nenhuma especialista e isso definitivamente não é um problema. É preciso tentar, certo? Essa “filosofia”, acredite, dá motivação para seguir adiante. Se alguém, lá atrás, me perguntasse se eu sabia fazer uma parede, eu diria que não. Hoje posso dizer que sim, ainda que a ajuda de outras pessoas seja sempre bem-vinda.

Assim, enquanto assistimos de muito perto à construção da casa, vamos aprendendo coisas novas, inventando, criando, testando. É verdade que, às vezes, não dá certo e é preciso refazer. Mas se não ousarmos, nunca descobriremos nada, será tudo sempre igual. Nesse ponto, mais uma vez meu marido é muito melhor do que eu. Ele, sim, ousa de verdade: quer fazer a hidráulica, a elétrica, o aquecedor solar, o banheiro compostável e até o filtro das cisternas de água de chuva. Tudo sem experiência, na cara e na coragem mesmo. E sabe de uma coisa? Está sendo ótimo! Estou aprendendo a repensar muita coisa, de conceitos estéticos a preconceitos antigos, arraigados.

É tudo um grande exercício constante de inovação, que se encaixa perfeitamente nesse nosso plano de mudar de estilo de vida. Porque não basta encomendar uma casa ecológica e achar que só o fato de morar nela irá tornar alguém mais ecológico e consciente de seus atos. A casa deve ser o reflexo de seus moradores – e não uma máscara (ou maquiagem) falsa… Semana que vem volto para contar mais novidades. Um grande abraço e até lá!

Foto: Parede de toquinhos que separa o quarto da sala. Sobras de madeira foram utilizadas para dar forma à estrutura, que também contou com detalhes em garrafas de vidro… Tudo feito artesanalmente.

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Comentários

20/01/2010 às 10:20 Anonymous - diz:

olivia – diz:Como assim repensar padrões estéticos? Tá ficando lindo! Parabéns!

20/01/2010 às 14:19 Anonymous - diz:

Hellen – diz:Nossa muito legal essa iniciativa eu também um dia quero ter minha casa em uma vila ecológica, concordo totalmente é necessário que todos os seres humanos tenham essa consciência não só de fazer para monstrar e sim tornar-se menos apegado a essa modismo, é hora de tentarmos ser feliz sem tendências.

21/01/2010 às 10:39 Anonymous - diz:

Camila – diz:Lindona a parede! Parabéns aos dois pelo projeto!! E aos que estão auxiliando vocês!!! Um abraço da comadre e amiga-irmã!Camila.

21/01/2010 às 11:02 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Oi, Camila! Que saudade! Legal “encontrá-la” por aqui. Um beijão procê! Hellen e Olivia, obrigada pelos comentários. E vamos em frente que o planeta precisa de gente disposta a participar da mudança! Um abraço!

29/01/2010 às 09:18 Anonymous - diz:

Douglas e Gilza – diz:Oi Giuliana, venho acompanhando o blog a algum tempo porque gosto muito da tua sinceridade, simplicidade e sensibilidade – aquela beleza além da beleza sabe?Posso dizer que já gosto de você sem mesmo ter falado com você alguma vez. Queria te parabenizar pela casa e pelo trabalho de concientização do blog e te falar que sobre a casa vocês estão de parabéns! Esta foto do post ficou demais! Que lugar lindo vocês estão fazendo! Bom, era isso. Queria alegrar teu dia e dar um reforço positivo sincero ao teu trabalho, empenho e jeito especial de ver as coisas.Abraço,Douglas e Gilza

30/01/2010 às 20:43 Anonymous - diz:

lucineide diogenes castro – diz:Giuliana, depois que iniciei a leitura dos teus artigos, já mudei.faço compostagem do lixo organico, tenho uma área enorme no terreno da casa que era todo calçado de pedra. Estou retirando as pedras e plantando fruteiras.São pequenas atitudes, mas valem para ajudar o planeta. Ja estou pegando lixo organico de duas vizinhas. Minha casa está cada vez nais verde. obrigada pelas tuas ideias. lucineide.

01/02/2010 às 11:26 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Lucineide, Douglas e Gilza, fiquei muito tocada com o que escreveram. Sentir que meus relatos, de alguma forma, inspiram mudanças, Lucineide, é simplesmente maravilhoso! Obrigada por compartilhar suas experiências e muita sorte nessa caminhada! Douglas e Gilza, agradeço a fala doce de vocês, que realmente alegrou meu dia. Gentileza gera gentileza, certo? Um abraço a todos, Giuliana

01/02/2010 às 13:29 Anonymous - diz:

Josiane Rodrigues Haack – diz:Oi Giuliana, gosto muito de ler o q vc nos deixa, sempre com muito carinho. Na maneira q escreve, percebo que vc coloca em seu trabalho e nos seus artigos todo seu coração. Admiro sua simplicidade, determinação e ao mesmo tempo a espontaneidade e a doçura como escreve, pois faz com que participemos disso. Parabéns pela casa e posso imaginar o quanto ela tem um valor especial!! abraço Josi R.H.(Blumenau, SC)

02/02/2010 às 15:48 Anonymous - diz:

cleber – diz:Acompanho seu blog e a sua construção enquanto construo minha casa. É um processo iniciático, uma viagem de busca que me leva a encarar a mim mesmo, colocando no barro (e não no concreto) os ideais possíveis e necessários. Estou há mais de um ano nessa, desde os alicerces de pneus cheios de terra até as paredes de toquinho, iguais às suas, falta pouco para completar essa fase da viagem e me sinto mais forte, calmo e preparado. Parabéns pela inspiração de seus relatos. É bom poder encorajar aqueles que querem trilhar a mesma aventura!

15/02/2010 às 21:55 Anonymous - diz:

Rosana – diz:Olá Giuliana! Muito prazer em conhecer o teu Blog!Meu nome é Rosana, tenho 46 anos, e sou uma entusiasta da Permacultura! Mas ainda não “botei a Mão na massa”…Lendo teu Blog surgiu uma dúvida: vc fez algum curso antes de começar a construir?E que a gente fica esperando “aquele tempo”, “aquele dinheirinho”, “aquele curso” e as coisas acabam não andando! Não quero criar meus filhos nesta loucura destrutiva que é a cidade!

22/02/2010 às 22:23 Anonymous - diz:

Dennis de Lima Amaral – diz:Oi Giuliana, eu também tenho essa mesma dúvida que a Rosa expressou. E queria saber também se tem como nós aprendermos essas técnicas, ou se existe de repende um cadastro de “pedreiros” (que nesse caso trabalham com barro, haha) que conheçam essas técnicas e se tem como entrar em contato com esses técnicos.Grato pela atenção.

24/02/2010 às 14:36 Anonymous - diz:

Daniel G S – diz:Olá, gosto muito do seu blog.Sobre essa matéria, gostaria de saber se vc não poderia postar algumas fotos desses novo projetos, o da pia, por exemplo.Abraços

24/02/2010 às 19:44 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Olá, Daniel, Dennis, Rosana, Cleber e Josi! Obrigada pela “visita” aqui no blog. Daniel, assim que a pia estiver instalada, vou postar uma foto dela aqui, ok? Dennis e Rosana, fiz alguns cursos de bioconstrução (construção com bambu, com terra), além do curso de Design em Permacultura. Mas, sinceramente, essas coisas a gente aprende fazendo, sabe? Tem muita gente organizando mutirões Brasil afora para voluntários que queiram botar a mão na massa. Quem sabe não seria uma boa oportunidade para vocês? Ah, tem um manual muito bacana de bioconstrução disponível no site do Ministério do Meio Ambiente. Anotem aí: http://www.mma.gov.br/estruturas/sedr_proecotur/_publicacao/140_publicacao150120 09110921.pdf. E boa sorte!Cleber, fiquei super feliz de saber que você está trilhando esse caminho também. Tem algum site ou blog com fotos da sua casa para eu conhecer? Josiane, muito grata pelo carinho expresso em suas palavras. Um abraço forte a todos, Giuliana

08/03/2010 às 07:15 Anonymous - diz:

Carol – diz:Ola tudo bem .Aaaaaaaaadorei seu Blog lindo lindo parabens . Espero que retribua a visita no meu ! http://qsuco.blogspot.com/This is my Blog …. where you can find fun and pleasure are welcome …

01/07/2011 às 21:28 Anonymous - diz:

ERALDOFERNANDES – diz:Que maravilha essa idéia de fazer sua casa ecológica. Parabéns! Pretendo fazer a minha um dia quém sabe, eu possa tambem dizer: Moro em uma casa ecológica. ó gostaria de saber se posso fazer uma casa no SERTÃO DO CEARÁ.Gostaria que alguém me respondece. Um abraço e desejo que vc. consiga fazer tudo que desejas em sua casa usufruindo de tudo que vem da natureza e aproveitando o que já existe.

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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