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Partida e chegada Giuliana Capello - 21/12/2010 às 19:56
Ontem fiz minha mudança para o interior. Fechei a porta da casa na capital e parti para o novo, o desconhecido, numa cidade mais tranquila, mais ou menos do tamanho do bairro em que morava em São Paulo. Mas este, que é meu primeiro post dessa nova fase, não é um relato sobre como encaixotei todas as minhas coisas ou um lamento a respeito de como ainda estou acampada em casa, em meio à bagunça inevitável.
Quando sentei há pouco para escrever, me deu vontade de compartilhar com você um pouco da sensação de deixar a cidade grande. É que ouço tanta gente dizer que adoraria morar num lugarzinho mais sossegado, mais perto da natureza, mas fica com esse desejo guardado para um dia distante, sem calendário, quem sabe depois da aposentadoria. Não é assim? Por que será que isso acontece?
Talvez seja uma marca de país desenvolvimentista, que vê no mar de prédios e indústrias o único caminho possível para quem quer buscar uma vida melhor. É lá que está o trabalho, o dinheiro, a boa escola para o meu filho, dizem, não sem a ajuda da mídia, que fica o tempo todo reforçando essa ideia de progresso baseado na tríade fábrica, comércio e consumo.
O problema é que, de modo geral, as cidades pequenas e médias seguem exatamente esse modelo (mesmo sabendo porque não há como não saber das consequências do crescimento desnorteado, sem planejamento urbano e visão de sustentabilidade). E aí parece que as melhores oportunidades estão sempre nos grandes centros, nos formigueiros humanos, bem ali, no meio das ilhas de calor, do trânsito caótico e das crises de insegurança que atingem mais e mais pessoas a cada ano.
Isso me lembra a minha adolescência em outra cidade do interior paulista, fase em que comecei a pensar em possíveis carreiras profissionais. De cara, o que eu ouvia de todo mundo em casa, na escola, em todo lugar sem qualquer questionamento, era que eu teria de deixar a cidade se quisesse ter sucesso na vida, fosse minha preferência a música, a arquitetura ou o jornalismo. Aqui não tem nada de bom, resumiam.
Durante muito tempo, acreditei nisso. Tanto que fiz faculdade em São Paulo e não voltei para a minha cidade. Fui ficando na metrópole, crente que não haveria outra possibilidade. Mas aí comecei a sofrer com a poluição, adquiri alergias que antes não se manifestavam, tive crises de pânico no metrô (parado entre duas estações), no elevador lotado, no trânsito interminável. No corre-corre de segunda a sexta, quase não tinha tempo para os amigos, no máximo um almoço ou café, sempre com pressa, de olho no relógio.
Não tinha mais aquele contato íntimo com a natureza, não tomava mais as chuvas de verão como fazia com minha irmã, tinha receio de andar de bike entre ônibus e caminhões. Me acostumei a passar o dia sob ar-condicionado e luz artificial, sem saber se era dia ou noite, sol ou chuva, entardecer. Quase uma galinha de granja… E tudo isso pra quê? Para ganhar dinheiro e não ter tempo de fazer as coisas que realmente importam.
Dei um basta nisso quando me envolvi com o movimento das ecovilas e resolvi trabalhar como jornalista freelancer, sem horários fixos de trabalho. Engano achar que isso implica trabalhar menos. Muitas vezes, ser autônomo significa não ter fim de semana mas depois vem a chance de ir ao cinema numa quarta-feira à tarde, e fica tudo bem. As ecovilas abriram um mundo novo diante dos meus olhos. De repente, descobri gente feliz vivendo em comunidades em lugares pacatos, mais rurais. Gente resgatando a lida com a terra, as estações do ano, os fenômenos naturais. Gente trocando produtos fora de uso e em bom estado, fazendo circular uma energia estagnada, reaproveitando coisas que iriam mais cedo para o lixo. Em resumo, pessoas empoderadas, que estavam conquistando, dia após dia, um pouquinho mais de autonomia. E autonomia, em outras palavras, significa fazer mais com as próprias mãos, terceirizar menos, gastar menos dinheiro, poder trabalhar menos. Entendeu onde quero chegar?
Minha mudança para o interior segue por esse caminho. Quero descobrir aqui um jeito de viver bem, num ritmo mais saudável, sem achar que estou perdendo por não estar na metrópole. Acredito na força das cidades pequenas e no potencial que elas têm de crescer com sustentabilidade, seguindo caminhos próprios, feitos de vocações e não imposições. Se vai dar certo? Tenho certeza que sim. Acordar com passarinhos e cheiro de mato me faz ter confiança. Hoje e sempre.
Ano que vem espero ter muita coisa bacana para compartilhar e, quem sabe, servir como inspiração para novos horizontes… Até lá, boas festas e um grande abraço caipira procê.
ver este postcomente
22/12/2010 às 09:20 Anonymous - diz:
HERNANDO – diz:Giuliana,mais uma vez, parabéns pelo seu texto. Também acabei de me mudar para uma cidadezinha do interior, bem próximo de Goiânia, onde pretendo resgatar o que realmente importa na vida. No momento, está tudo ainda muito estranho, talvez, mais por causa da desordem que fica o novo lar. Espero me adaptar logo para aproveitar tudo o que a vida mais tranquila tem a oferecer.
22/12/2010 às 10:56 Anonymous - diz:
Daniel – diz:Giuliana, estou com enveja de você….enveja boa….daquela que me da esperança de que meu dia tb vai chegar e que me faz batalhar mais pelo meu objetivo, chegar aonde vc está rsrsrs…voltar as raízes…dar um passo para trâs para poder dar dois para a frente…ter autonomia e controle sobre a unica coisa que sou dono de verdade…minha vida. BOA SORTE e aguardo seu blog ano que vem…feliz natal e um ótimo final de ano.
22/12/2010 às 10:58 Anonymous - diz:
Daniel – diz:Me empolguei com o texto e vacilei com a ortografia…que vergonha….INVEJA é com I rsrsrs
31/12/2010 às 11:19 Anonymous - diz:
Benedito – diz:Parabéns pelo texto, amiga Jiuliana, foi muito feliz na maneira como o desenvolveu. Sou do Ceará e estou agora me iniciando na permacultura (fiz o PDC este ano), apesar de há tempos estar me envolvendo com assuntos relacionados ao ambientalismo, mais especificamente, a agroecologia. Cada nova experiência que tenho a oportunidade de conhecer me é muito útil – a sua vem sendo uma dessas. Grande Abraço a você e a todos os que lêem este blog, desejo-lhes muitas vitórias no ano que começa.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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