Gaiatos e Gaianos

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No compasso da natureza Giuliana Capello - 01/05/2012 às 17:50

Uma das coisas de que mais gosto na ecovila é a quase total impossibilidade de ficarmos alheios ao que acontece fora de casa. Não é como na cidade, quando chove ou faz frio e nem notamos, porque nossas casas são, em geral, como caixas isolantes, com luz artificial, janelas pequenas e ar condicionado, que mantêm tudo sempre igual, não importa a estação do ano ou a mudança repentina do clima. Aqui não há como escapar do frio – e é preciso estar sempre atento para antecipar a necessidade de lenha cortada (e seca!) para a lareira ou preparar a entrada da casa para deixar num canto os sapatos molhados e cheios de lama. Até o vento da madrugada nos desperta, nos avisa que a casa nos protege, sim, mas não nos isola do mundo externo, não nos faz refém da apatia…

 
A natureza aqui está em toda parte, fora e dentro de nós, tocando nossa pele a todo instante. Para algumas pessoas, um desastre total, uma arritmia que nos acomete com constância e demandas que exigem tempo, energia e muita disposição. Aos poucos, vou me acostumando a esse novo ritmo, feliz com a invasão, digamos assim, da natureza em minha vida – tudo o que sempre desejei, afinal.

 
Às vezes me pego em flagrante reclamando do fato de chegar em casa à noite e ter de ligar a lanterna para enxergar os degraus da escada, carregando sacolas de legumes, laptop e coisas da cachorra Sofia e, em frente à porta da entrada, ainda precisar descolar um jeito de achar o buraco da fechadura… É bom lembrar, não fui criada no mato, embora tenha vivido numa cidade pequena até a adolescência. Minha convivência com a natureza tão próxima, tão inevitável, tão gigante é, de certa forma, novidade para mim, coisa de poucos anos prá cá. Ainda estou me adaptando, me acostumando a esse novo jeito de morar, de acordar com os primeiros raios do sol, sentir sono às oito e meia da noite, almoçar ao meio-dia e pouco.

 
Não dá pra dizer que tudo flui fácil sempre. Mas também não penso em dizer o contrário. São como opostos amistosos que se encontram na imperfeição e imprevisibilidade de cada momento, unindo forças que se entrelaçam como um balé circense, menos rígido, mais no estilo deixa-o-vento-me-levar…

 
Neste feriado, recebemos amigos de São Paulo, bem urbanos, ligados aos agitos culturais, principalmente, da metrópole. E foi chuva quase que do começo ao fim dos dias. Ótimo. Aceitar o clima e tirar proveito do caráter mais introspectivo dele foi fundamental. Sem dramas, sem reclamações. Foi uma chance de enriquecer nossas conversas ao pé da lareira, relaxar ao som da chuva, curtir o aconchego de cobertores à frente da tv, assistindo a um documentário sobre a vaidade na Amazônia (aliás, muito bom!). E pronto. Apenas isso.

 
Confesso a você que hoje fiquei meio preocupada com o que escreveria aqui, especialmente porque me peguei achando que não tinha muito o que comentar, compartilhar. Mas aí me lembrei de que a simplicidade é a essência, a razão, talvez, deste blog. É por isso que ela é tão especial, porque muitas vezes acaba passando despercebida por nós, que desejamos coisas extraordinárias, tocantes, surpreendentes – não é verdade? É, é realmente necessário transformar nossa maneira de encarar o mundo para poder perceber a intensidade da simplicidade, o quanto pode ser incrível sim-ples-men-te olhar da janela o céu encoberto pela névoa branca e ser acometido por uma gratidão sem nome. É como ser convidado pela natureza a recolher o horizonte, não olhar para fora, mas para dentro de nós, entende?
Quando o céu está claro e os passarinhos cantam, é hora de sair, caminhar, ver o mundo lá fora. Por outro lado, se a chuva se faz presente e o frio chega como parceiro das águas, o melhor – e o grande luxo – é poder somente contemplá-la, com meias grossas e um bom casaco de lã.

 
Acredito que quando essas sensações puderem ser sentidas de verdade por um número cada vez maior de pessoas, naturalmente haverá uma redução no consumo de bens que levamos para casa como recompensas para nossas vidas exaustivas, de trabalho sem sentido e relações tumultuadas. Sinceramente, não sei se consigo transmitir isso a você – essa minha afeição pelo simples – como eu realmente gostaria. Certas coisas não cabem em palavras, mas podem ser transmitidas à medida que forem cada vez mais verdadeiras. Essa é a minha meta.

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A simplicidade e a crise de imaginário Giuliana Capello - 24/04/2012 às 13:37


Os primeiros raios de sol iluminam a casa e funcionam como o melhor despertador de todos os tempos. Do quarto, vejo a sala e a cozinha iluminadas, um convite delicado para levantar, espreguiçar o corpo em algumas posturas de yoga e preparar o café. Antes disso, dou uma volta pela rua com a Sofia (minha vira-lata e companheira de sempre) para o primeiro xixi (dela!) da manhã. Sentamos por alguns minutos numa pedra para sentir o calor do sol tocando nossa pele, ouvimos os pássaros, observamos as nuvens ou a neblina no vale e fazemos previsões singelas do tempo para o dia. Algumas respirações profundas invocam gratidão por estar aqui e energia para as atividades do dia.

Somente depois desse quase ritual é que, de fato, me sinto desperta, acordada. É um luxo nos dias de hoje, sei disso, mas não sinto culpa ou constrangimento, afinal, foi uma conquista de anos de transformações pessoais e escolhas muito conscientes. Hoje trabalho menos pensando em dinheiro, não porque fiquei rica, mas porque preciso de menos, cada vez menos. Nos últimos seis anos, ou mais, meu caminho foi esse, o de simplificar a vida, buscar a essência, recusar aquilo que já não me serve mais.

Com a prática da simplicidade voluntária e do consumo pensado (deixemos os impulsos para outras searas), um olhar mais apurado me acompanha diante das gôndolas do supermercado ou das lojas de rua (há tempos não piso num shopping center). Honestamente, fico feliz quando caminho pela calçada por entre vitrines e mais vitrines e percebo de um jeito natural, sem esforço algum, que simplesmente não desejo nada naquilo (e essa falta de desejo que evita o consumo).

O que ganho e/ou perco com isso? Fácil de responder: uma mente mais tranquila, uma vida mais livre para perceber meus próprios anseios (não é a publicidade ou a novela que me ensina a ser uma pessoa legal, cool, antenada) e um jeito mais leve e integrado (ou seria íntegro?) de estar neste planeta.

Quantas pessoas reclamam todos os dias da correria, do trânsito exaustivo, do trabalho sem sentido, das relações mal desenhadas, enfim, reclamam da vida que levam e, no entanto, pouco ou nada fazem para mudar isso? Por que será que isso acontece? Alguns pensadores contemporâneos chamam esse estado de crise de imaginário. Sem puxar pelas questões mais conceituais – até porque não sou grande conhecedora do tema – e apenas resumindo algumas ideias, é como se elas não tivessem outro caminho a seguir, outro tipo de vida sequer para sonhar. As coisas são do jeito que são e ponto. Todo mundo tem problemas com o trânsito, com o trabalho, com a família, com o lugar onde moram… O mundo é assim, esse poço de crises, frustrações e um comodismo desesperançoso que vira obesidade ou anorexia, vícios, depressão. Mas tem que ser assim?

Chegamos num ponto da história em que muitas pessoas realmente não acreditam em transformações, não veem saídas, rotas alternativas. É como se o único jeito de “ser feliz†passasse por sucesso, dinheiro e muito estilo para exibir ao mundo. Entramos numa era de monoculturas: um só jeito de pensar as cidades, uma só maneira de “subir na vidaâ€, uma única maneira, enfim, de… viver. É engraçado, pois a aparência e os out doors sugerem exatamente o oposto: um mundo de opções à sua escolha, um universo inteiro de produtos e serviços para tornar sua vida mais bacana, feitos “exclusivamente para vocêâ€. Mas é tudo mais do mesmo cesto que nos rotula de consumidores. Quer ver só? Pare um minuto para pensar em algum ato minimamente original (no sentido de ser algo autêntico da sua vontade e não fruto de imposições sociais ou da moda) que você realizou nos últimos tempos? Difícil?

Pois digo a você: buscar a simplicidade talvez seja hoje uma das formas mais efetivas de traçar uma rota diferente para a sua vida – e, consequentemente, mais sustentável. E simplicidade, fique tranquilo, não tem a ver com pobreza ou miséria. Não, de forma alguma. Simplicidade tem a ver com a nossa capacidade de dar um basta naquilo que a tv, a propaganda e os outros dizem que temos de ter, temos que consumir e fazer. Buscar o simples é, em outras palavras, descobrir o que realmente queremos e do que não precisamos mais em nossas vidas. E pode ter certeza: no fim, é tudo muito mais simples (e belo) do que parece… como gotas de orvalho nas flores numa gostosa manhã de outono.

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Criança precisa de natureza Giuliana Capello - 17/04/2012 às 20:02


Que me desculpem os arquitetos e engenheiros desses grandes condomínios residenciais, mas crianças não vivem só de brinquedoteca, salão de festas e espaço teen. Brincar ao ar livre, em parques, por exemplo, é fundamental e pode até combater uma série de doenças provocadas, digamos assim, pela falta de natureza. Você deve conhecer algumas crianças que só frequentam apartamentos e shopping centers, não? E tudo de carro, não é? Pois então, pode observar: muitas sofrem de estresse, vivem com alergias estranhas, têm medo de andar descalças e sentem nojo de mexer na terra…

Dos adultos de hoje que não veem graça numa cachoeira, fazem de tudo para não ficar longe dos centros urbanos e, por fim, não se interessam minimamente pelas questões socioambientais tão cruciais do nosso tempo, boa parte teve, provavelmente, uma infância sem natureza. Não é psicologia de botequim, não. Estou falando de gente que conheço, com quem já trabalhei ou estudei, gente que fez ou faz parte do meu círculo social – e que diz sem constrangimento algum que gosta de tudo asfaltadinho, sem terra para sujar os pés ou os pneus do carro novo…

Falar em educação ambiental para esse pessoal é um desafio e tanto, porque a sensação de pertencimento, de ser parte de um lugar (e querer, por isso, cuidar dele) não faz muito sentido. O que é meio ambiente para essa turma? Talvez a Amazônia ou o Pantanal, lugares remotos e muito distantes (em todos os sentidos) de sua realidade de prédios altos, elevadores, metrô e outras caixinhas apertadas – tão comuns nas cidades que ninguém mais se lembra delas.

Criança precisa de natureza, muita natureza. Precisa pisar na terra, tomar chuva sem medo de resfriado, subir em árvore para pegar fruta, ficar feliz (e não assustada) ao ver uma minhoca. Isso faz toda a diferença mais tarde, pode ter certeza disso.

Um amigo muito querido mantém há anos um acampamento infantil com uma proposta bem natureba, que inclui fazer yoga pelas manhãs, trabalhar na horta, fazer casinha de pau-a-pique, nadar no lago (e, para isso, aprender a encarar o lodo sem gritos de desespero), meditar ouvindo os passarinhos. Diz ele que as crianças adoram porque quase tudo é novidade

Brincar na natureza é muito sensorial, primitivo (no melhor sentido do termo), intuitivo. Mas é preciso vencer as primeiras resistências (dos pais, na maioria das vezes) para somente depois conseguir curtir sem ficar pensando em não sujar a roupa ou não sentar em formigueiro.

Aqui na ecovila, já vi criança de todo jeito. Lembro-me de um menino de uns dez anos que, quando os pais vinham passar o fim de semana, ele se trancava no único quarto com tv e passava o tempo inteiro assistindo Guerra nas Estrelas, sem ver o sol ou a lua, só comendo salgadinho de saquinho. Tem também as que ficam agarradas aos pais, morrendo de vontade de brincar no enorme balanço da araucária, esperando qualquer sinal deles que diga: “pode ir que é seguroâ€.

Criança que costumo chamar de mais saudável – porque tem energia e entusiasmo para experimentar a vida sem tantos medos – infelizmente, são as mesmas que, nas cidades, são medicadas após o diagnóstico de hiperativas ou com déficit de atenção. Sem palavras.

Para nosso consolo, há aquelas que – ufa! – quebram as regras, mal chegam e logo tiram o sapato, se enfiam no mato, entram em outra atmosfera – simplesmente se encontram. (Hoje em dia devia ser obrigatório oferecer oportunidades para as crianças terem um tempo na natureza, algo como escovar os dentes ou estudar português.)

Sábado passado, recebemos na ecovila um grupo de 13 crianças e adolescentes que são de um abrigo da cidade. Estão lá porque ficaram órfãos ou porque os pais perderam sua guarda por problemas com drogas ou violência doméstica. Eu não conhecia as crianças, não sabia ao certo a faixa etária, nada, nada. E fui escalada para fazer umas atividades com elas no pomar ou na praça. Levei um tempo pensando em que brincadeiras propor, em como adequá-las da melhor maneira possível. Até que me fiz a pergunta: adequar a quem, ao quê? São crianças, certo? Simplesmente crianças. E precisam de natureza. Pronto, foi o que oferecemos a elas: um lugar aberto para brincar, cercado de gente que voluntariamente veio ajudar a cuidar, com afeto e carinho de coração.

A visita delas foi linda, marcante para todos nós. Gerou muita reflexão sobre o estado das nossas famílias, os desafios sociais, a adoção como gesto de profundo amor, a necessidade de uma escola mais perto. Onde entra a educação ambiental nisso tudo? Em tudo, oras! No caso delas, que moram numa casa pequena e sem quintal ou mesmo um pátio interno, ter espaço para brincar sentindo o calor do sol e a brisa fresca foi algo raro, incomum. Nossos mundos não se cruzaram por acaso e é por isso que queremos, agora, tornar essas visitas frequentes, mensais ou quinzenais ou sei lá. Será uma boa troca: nós oferecemos o lugar; elas nos dão a oportunidade de sermos criança outra vez – e na natureza.

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

Posts anteriores

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• No compasso da natureza

• A simplicidade e a crise de imaginário

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