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O que dar a alguém que já tem “tudo”? Giuliana Capello - 15/11/2011 às 15:01
Gosto de dar presentes, mas isso quase nunca acontece. É que prefiro os achados inesperados, aqueles que nos encontram mais raramente, e com uma plaquinha que parece ter o nome de alguém que conhecemos. Já me livrei da obrigação do consumo, de “ter que dar presente” naquelas datas sociais constrangedoras, que só fazem aumentar nossa pressão sobre o planeta – e, em alguns casos, ainda servem como mantenedores da hipocrisia humana.
Aniversário de gente especial, para mim, significa tempo de estar junto, de celebrar dividindo a mesa, sair para um passeio diferente ou, simplesmente, ficar em casa conversando e contando histórias. Não preciso ter um pacote em mãos para conseguir expressar carinho e amizade…
Pois bem. No discurso, está tudo certo. Mas eis que ontem, chegando em Florianópolis para visitar os amigos Camila e Durán (sou, com muito orgulho e satisfação, madrinha da pequena Manuela, filha do casal e irmã do fofo do Francisco), eis que me flagrei com a questão: “puxa, não trouxe nenhum presente para eles”… É, a gente precisa estar sempre atento, porque mudar hábitos não é fácil… Bom, mas logo depois sosseguei o coração, na certeza de que passar uns dias com eles seria, para todo mundo, melhor do que qualquer presente.
Horas depois, já na casa deles, a Camila me contou de seu blog sobre livros infantis , com resenhas daqueles que ela e as crianças gostam mais. Era hora de dormir – e, portanto, de contar histórias. Camila, então, trouxe um livro e me disse: “você vai gostar deste”. E começou a ler para todos, sentada na beira da cama, Manu e Kikiko já deitados, eu também ao pé da cama.
Chamava-se “Nada de presente”. O livro conta a história do gato Mooch, que queria dar um presente a seu melhor amigo, o cão Earl. “Mas o que dar a alguém que já tem Tudo?” Mooch sabia que Earl tinha um dono legal, um prato de comida, uma cama, um brinquedo para morder…
A resposta para o dilema foi Nada! Mooch, então, sai à procura de nada, “nesse mundo cheio de tanta coisa”… E procurou por todo lugar, em casa, na TV, entre os amigos, no shopping center. Até que desistiu e, em casa, se sentou, quieto, como os gatos fazem. Acho que esse gato era meio budista, porque, como conta a história, sem procurar, ele achou Nada.
E decidiu pegar uma caixa e pôr nada dentro para dar a Mooch. Ao receber a caixa, o amigo disse que ele não precisava lhe dar nada. O cão, então, abre a caixa e fala: “Não tem nada aqui, Mooch”. E o gato completa: “Tem sim. Nada, além de mim e de você”.
Diz a história que eles ficaram ali juntos, fazendo nada e Tudo… Não é lindo? Fiquei emocionada com aquilo, me senti tocada, profundamente. É isso. Nada de presente. E tudo. Simples assim.
Estamos chegando perto do Natal, data máxima do consum(ism)o. Por isso, essa história de Earl e Mooch, criada por Patrick McDonell, fica ainda mais significativa para mim. Minha amiga sabe que sou assim, meio desligada para datas, meio esquecida dos presentes. Mas sei que, de verdade, ela sabe que pode contar comigo sempre para Nada e Tudo.
Fico muito feliz quando entro em contato com livros infantis que trazem histórias singelas, mas cheias de sentido. Criar filhos em uma era de coisas descartáveis (e em que tudo parece se resolver nas trocas mercantis) requer contrapontos como esse, do gatinho espiritualizado que teve a coragem de dar Nada ao amigo. E agora, se me permite, é feriado, estou na casa de amigos queridos e a Manuela me disse que hoje vamos brincar de Tudo.
p.s.: já ouviu falar na Barca dos Livros? Vale a pena conhecer a proposta…
ver este postcomente
16/11/2011 às 19:56 Maria Olinda Kehl - diz:
Gostei da história do Tudo e Nada! Parabéns!
Eu conheço um ditado que diz “Ninguém é tão rico que não tenha nada
para receber ,nem tão pobre que não tenha nada para dar”
Fecha comesta história.
Parabéns! Se começarmos a mudar devagarinho o nosso modo de ser seremos mais felizes, pode ter certeza,
O consumismo as vezes nos leva a tristezas posteriores,preocupações
etc.
Vamos dar tudo em forma de amor,carinho ,respeito e vamos dar nada em relação a exageros.
Maria Olinda Kehl
16/11/2011 às 19:58 Maria Olinda Kehl - diz:
Parabéns Planeta Sustentável por permitir de uma maneira tão suave e humana a participação dos interessados.
Mariolinda
19/11/2011 às 12:14 Sônia Pinto - diz:
Compartilhei está linda história a todos meus amigos,pois é preciso entender que o planeta está com 7 bilhões de pessoas e não suporta mais tanto exagero em forma de caixas e fitilhos.´Precisamos de atenção,sentimento,amor,…isso não vem em pacotes e adornos.
19/11/2011 às 14:02 APACONT - diz:
O melhor presente de ricos ou pobres é o amor. apacont.org.br
21/11/2011 às 17:48 Léia - diz:
Presente bom é aquele que, como se diz, “traça não come, tempo não enferruja e ladrão não rouba”.
Nesta semana estou neste “dilema de presente-de-aniversário” e o texto é bastante inspirador. bj.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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