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O planeta numa bandeja (de isopor)? Giuliana Capello - 31/01/2012 às 17:23
É engraçado, mas cada vez mais me convenço que precisamos equilibrar passado e futuro para atingirmos uma vida mais sustentável no presente. Há muito que aprender – e, portanto, resgatar – de nossos avós e antepassados, ao mesmo tempo em que me soa importante saber usar apropriadamente as tecnologias que criamos nos últimos anos.
É hora, por exemplo, de rever o fetiche da novidade, que diz que o novo é sempre melhor. Isso é coisa inventada, elemento básico da moda, e ponto. Não é exatamente uma verdade absoluta. Se você não é um grande usuário de computador, não precisa ter o modelo de última geração; se não tem dinheiro para trocar de carro regularmente, capriche na manutenção do veículo ao invés de se endividar por cinco anos (ou troque o possante por uma bike, se puder); e se você já passou dos quarenta, não caia na onda de achar que beleza é coisa da juventude.
Enfim, coisa usada é também coisa testada, experimentada, aprovada por muita gente. Atravessar anos, décadas e até séculos é missão para poucos e bons: boas ideias, boas invenções, práticas atemporais, hábitos que valem a pena, tradições que acolhem diferentes gerações, amores incondicionais.
No dia a dia, penso nas coisas simples que deixaram de existir em nome da tecnologia e/ou da praticidade. Uma delas é o papel para embrulhar queijo fatiado, por exemplo. Quando eu era pequena e minha mãe comprava frios na padaria ou no supermercado, os produtos vinham embalados em papel. E só. Quem foi que inventou a bandeja de isopor?? E quem foi que disse que ela é a solução para todas as gôndolas dos supermercados?? Já reparou que quase todo tipo de produto vem embalado nesse tipo de plástico? Frutas, legumes, verduras, carnes, pães, doces, comida japonesa, tudo cabe nessas bandejinhas. Será que “cabe” mesmo?
Eu me recuso a trazer para casa algo que ainda é bem pouco reciclado – o processo é diferente do plástico comum e as empresas não querem transportar porque sai muito caro (um caminhão de isopor carrega um grande volume do material, mas seu peso não representa quase nada, entende?). Quando vou ao supermercado, já virou algo natural escolher os produtos também pelo tipo de embalagem que eles apresentam. Para mim, a proibição da sacolinha plástica é somente o ponto inicial de uma reflexão mundial muito mais profunda e não menos urgente: é preciso reduzir as embalagens e recusar aquelas que são estapafúrdias (na falta de uma palavra melhor).
Embalagens complexas dizem muito sobre o produto. Em geral, coisa muito embalada vem de longe e precisou de proteção contra as mudanças de temperaturas e eventuais choques. Produto fresco dispensa tanta embalagem, estimula a economia local e é melhor para todo mundo. Para que levar para casa um pé de alface numa bandeja de plástico?! Gente, sinceramente, dá até vergonha…
Mais do que inventar novas embalagens, é necessário repensar nossos hábitos de consumo, estar atento ao que nos oferecem no mercado e ter sempre uma visão crítica sobre as novidades que parecem fantásticas. Ainda que algumas bandejinhas sejam feitas de mandioca ou outro vegetal que prometa menos danos ao ambiente, se você pode recusá-las, por que levá-las para casa e patrocinar essa ideia? Recusar e reduzir é sempre melhor do que reciclar.
Às vezes (muitas vezes, aliás), a solução não está em modernizar algo, mas em olhar para trás e notar como as coisas funcionavam antes de sua invenção. Talvez a solução para as bandejinhas não seja aprimorá-las com materiais menos poluentes, mas sim precisar menos delas.
Torço muito para que o fim das sacolinhas ocorra de fato (concreto) em São Paulo e que isso possa estimular outras cidades a fazer o mesmo. Mas, mais do que isso, espero que cada um de nós consiga ver que essa restrição é mais um ganho que um sacrifício. Para quem vive num planeta exuberante como o nosso, de uma natureza que deveria inspirar gratidão profunda a todo instante, levar uma sacola retornável ao supermercado não me parece o fim do mundo, mas o começo (finalmente!) de um jeito mais ético de cuidar da Terra. Como provoco aqui no blog, somos, afinal, gaiatos (brincalhões, travessos) ou gaianos (filhos de Gaia)?
Foto: feira de produtos orgânicos em Porto Alegre, com cara de coisa antiga, mas com atitudes de futuro…
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01/02/2012 às 21:32 Cassia - diz:
Brilhante!
02/02/2012 às 17:44 Martin Winter - diz:
Outro dia, acho até que lendo o seu blog, cheguei a uma conclusão, interessantíssima: na natureza não existe a palavra moderno. Existe, sim, o atemporal!
23/03/2012 às 21:40 eidi xavier scomparin - diz:
sobre os itens já usados, testados e aprovados posso compartilhar minha experiência com os brechós.
inicialmente, procurei pensando na economia, sempre escondendo a origem das peças.
amadurecendo a idéia vi outras vantagens. a peça era sempre única, impedindo constrangimentos em festas. a indústria têxtil, sempre poluente, já tinha trabalhado uma vez naquela peça.
agora, com a idéia maduríssima, pronta para colher, já ando com o cartão do brechó no bolso, e distruibuo sempre que ouço um elogio àquela roupa ma-ra-vi-lho-sa.
quase virando fruta passada a idéia evoluiu para o brechó infantil, fruto de agora termos uma princesa em casa, que cresce rápido e adora brincar com terra, água, barro, gatos e etc.
então, se preciso de roupas vou ao brechó e escolho, na maioria das vezes levando umas peças para fazer escambo.
se a princesa precisa de roupas, passo direto pelas lojas de produtos novos, vou primeiro ao brechó, compro roupas lindas e com preços ótimos. e, quando a princesa cresceu de novo, separo as peças para outra criança menor.
não posso negar que o bolso é um dos maiores felizardos, mas comprar com a certeza de não estar poluindo faz o sono ficar bem mais tranquilo…
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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