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O empurrãozinho que faltava… Giuliana Capello - 02/11/2011 às 14:23

Já faz tanto tempo que estou no processo de construção da minha casa na ecovila – mais de quatro anos de histórias e muita mão na massa, relatadas sempre aqui – que, às vezes, perco a referência do quanto estou perto do fim (que, na verdade, será o início de uma nova fase na minha vida).

A casa já tem fogão, geladeira, chuveiro com água quente, cama e uns poucos móveis improvisados, para dar algum conforto em meio à bagunça. Ainda assim, de tão acostumada a enxergar ali uma obra – e não uma casa, um lar – eu não havia me dado conta de que já é possível “habitá-la” minimamente, ainda que falte muita coisa para decretar o término da construção.

Até que uma amiga muito querida, integrante da comunidade, veio com a proposta: que tal passarmos o fim de semana na sua casa? Levei um susto. Como assim, na minha casa? Foi quando descobri que seria possível, sem grandes dificuldades, sem os perrengues que já enfrentei, dormindo em barraca quando ainda não tínhamos paredes, em colchões de camping entre latas de tinta e sacos de superadobe. Foi como um empurrãozinho, uma saída da inércia, na hora certa, no momento exato (pois depois de tanto tempo construindo, trabalhando, se decepcionando, errando, acertando etc., confesso que havia certo cansaço no ar…).

Sou muito grata à Léia, que com seu jeitinho alegre e sempre disposta a quebrar a rotina, conseguiu me fazer ver, de verdade, que o mais difícil já passou. É hora de comemorar. E foi o que fizemos. Na cozinha de talheres e louças contadas, fizemos nosso primeiro café, à tardinha. Depois, lua alta no céu, preparamos a primeira refeição em casa, semana passada, sexta-feira à noite. Nada complicado, apenas uma sopinha de cereais e legumes. Abrimos uma garrafa de vinho para celebrar e agradecer, na companhia do maridão Edilson e da também amiga Denise. Foi o melhor vinho que saboreei nos últimos tempos…

Nem tínhamos cadeiras, apenas uma mesa para acomodar os alimentos preparados, pratos, copos (nada de taças, por enquanto). E isso não fez a menor diferença. Cada detalhe da casa, observada agora à noite, com luzes que clareavam pontos já esquecidos da arquitetura, parecia brilhar mais e mais. Foi delicioso e muito revigorante. Recobrei ali a vontade de continuar e até de acelerar o passo para a mudança pré-marcada para março.

No último fim de semana, repetimos a dose, aproveitando as férias da Léia. Aliás, ela e a Denise nos ajudaram muito. Fizemos um mutirão para encerar o piso da sala, tiramos o entulho do deque (Denise e Edilson) e – que vergonha – minha ideia de dar uma limpada na calçada (que nos serve desde o início como depósito de materiais, especialmente areia, terra e pedriscos) acabou sendo executada por todos, menos por mim, que “ganhei” uma inflamação no ombro esquerdo depois de passar dois dias inteiros pintando as portas da sala e da cozinha.

Outros amigos da ecovila aproveitaram a ocasião para nos visitar e desejar boa sorte. A Regina, muito gentil, chegou em casa no domingo cedinho com uma cesta linda de verduras, legumes e flores que ela tinha acabado de colher de sua horta. Foi tão gostoso! Me senti acolhida, bem recebida. E fiquei imaginando que, logo mais, eu também poderei receber os novos moradores do mesmo jeito – só não sei se com as mesmas alcachofras maravilhosas da Regina…

Meu novo endereço, a Alameda do Sol, na ecovila Clareando, está hoje um pouquinho mais perto. Obrigada a todos que colaboraram nessa jornada em direção a uma vida mais sustentável, conectada com a natureza, mais simples, de experiências autênticas e amizades para levar sempre no coração.

p.s.: na foto, amigos e família “experimentando” um pouquinho da vida em comunidade. Até a cachorra Capitu (com caminha e tudo mais, no cantinho da foto) parece ter se divertido… Léia, de coração, muito obrigada, amiga! Ah, sim, esse quadrado em primeiro plano que você vê aí receberá em breve uma lareira para nos aquecer no inverno e nos dias de frio fora de época…

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Comentários

03/11/2011 às 13:43 Ricardo Franco - diz:

Giuliana,
Parabéns pelo texto, pela casa, pelos amigos…
Quase fico com inveja. Que sonho deve ser viver em uma ecovila! E o seu texto nos transporta, nos faz sentir o gostinho dessa vida…

03/11/2011 às 16:17 miranda - diz:

adoro construcoes e reformas, ja passei por essa “acomodacao” varias vezes…nunca experimentei os amigos num mutirao para dar um empurraozinho mas sempre em sopas e vinhos. Gostaria de saber onde (cidade) eh sua casa e ter mais fotos…muito prazer.

03/11/2011 às 19:03 Denise Vida - diz:

Giu, o bom mesmo é saber que podemos dar uma força pra vocês!
Enquanto eu carregava com areia o carrinho de mão na calçada, pensei, “que bom que eu tenho força, saúde, além de muita disposição pra poder ajudar meus amigos
que estão novamente, abrindo a porta da casa deles pra me hospedar!…lembrei de Osho, pois foi uma forma de agradecer e de compartilhar!”.
Muito Obrigada pelos bons momentos de Ecovila, beijos.

08/11/2011 às 20:32 Talita Guimarães - diz:

Nossa Giuliana, que texto formidável, acho que já tinha me esquecido de como era ler um texto bem escrito, daqueles que você consegue se sentir dentro dele, particamente comendo as alcachofras…sabe?
Aprendendo outra língua, como estou fazendo agora, cada verbo novo que você aprende é uma alegria, ainda não tenho esses luxos como o seu texto. Não que eles não existam por aqui, mas eu que ainda não posso lê-los. Enfim, achei o seu texto no facebook da minha tia e não podia deixar de elogiar, naõ só o texto mas ‘o acontecido’. Vocês( a Clareando) têm criado um caminho alternativo quando tudo parece estar em colapso, a sua casa está ótima, na mais ampla polissemia desse adjetivo, queira você entender isso como sustentável, bonita, grande ou aconchegante.
E olha, eu tenho certeza disso, porque a minha tia, sempre animada, dorme em qualquer lugar, mas a Capi….ah, se ela estava lá, toda à vontade é porque a sua casa tá um arraso! hauahauahua.

bjoks* Talita.

19/11/2011 às 21:15 Jaqueline - diz:

Cara Giuliana.
Adorei os teus textos e é claro que tens razão nas tuas colocações, difícil é por em prátia no cotidiano turbulento.
Hoje em dia moro numa casa grande e boa, graças a Deus somos muito felizes, mas já vivemos muitas situações diferentes até então e com certeza o muito capital não significa nada em felicidade, no último feriado mesmo visitamos uns amigos na pria que tem uma casa bastante simples. no domingo chovia um pouco e estava frio, em doze pessoas nos amontoávamos na pequena garagem entorno de uma mesa onde uns jogavam carta, outros faziam as unhas e todos comiam besteiras e riam de bobagens.
O tesouro esta em ótimos momentos vividos com pessoas bem legais nas nossas vidas.
Beijão
Jaqueline- Novo Hamburgo-RS

20/12/2011 às 17:25 Aroldo Capello - diz:

É muito bom ser pai… Mas dá uma sensação maravilhosa ser pai de alguém como você.
Você e a Mariana me fazem ter o sentimento de haver realizado pelo menos uma missão: a de pai.
Parabéns pela clareza, fluidez e simplicidade ao escrever. Seus textos estimulam o leitor a ir até o final.
Sei que sou suspeito, mas não importa, porque é uma opinião emocionada e sincera.

Te amo

Papai

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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