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O caipira e a mobilidade urbana Giuliana Capello - 22/11/2011 às 21:41
De uns tempos prá cá, talvez desde que a população urbana ultrapassou em número os habitantes do campo em todo o planeta, muito se discute a respeito das grandes cidades, do futuro das megalópoles e tal. Mas pouco se fala, no entanto, sobre o destino das pequenas e médias. E, convenhamos, tudo o que elas querem é seguir o mesmo caminho de crescimento e urbanização – tal como as metrópoles, ainda que isso traga a tiracolo uma série de problemas muito conhecidos de todos.
É uma pena ver que a discussão sobre cidades sustentáveis é, na maior parte do tempo, alopática (ao buscar soluções para problemas urbanos já consolidados) e quase nunca preventiva, propositiva de políticas públicas que acompanhem e ordenem o crescimento, antecipando-se aos desafios que, sim, irão surgir. Pensa-se mais ou menos assim: “agora que a cidade inchou e não tem infraestrutura para atender os moradores, vamos gastar dinheiro público para tentar mitigar os efeitos”, numa corrida infindável contra o tempo (e a lógica).
Fala-se muito em expansão do metrô e outros modelos de transporte público, mas é raro encontrar gente pensando em planos diretores para a cidade, em maneiras de descentralizar os centros urbanos, de forma a reduzir os deslocamentos diários e, como contraponto, aumentar a qualidade de vida das pessoas.
Mais do que pensar em corredores de ônibus, ciclovias, bolsões de estacionamento ligados a estações de metrô e coisas do gênero, é preciso pensar nos motivos que nos levam a insistir na expansão urbana para além de seus limites e, na outra ponta, é necessário refletir sobre o desenvolvimento das cidades pequenas e médias, que têm mais condições e/ou chances de trilhar um caminho mais sustentável.
Cidade grande, para mim, por princípio, é insustentável. Ela precisa de grandes obras, grandes intervenções, enormes estações de tratamento de esgoto, uma gigantesca malha viária, áreas verdes para todos, programas complexos de habitação popular, mais unidades de saúde, mais escolas, mais tudo. E quanto à alimentação desse povo todo, então? Os alimentos vêm majoritariamente de fora, com longa quilometragem embutida (e, portanto, muito CO2 emitido à atmosfera, muito petróleo consumido, muita estrada, muita embalagem para suportar a viagem etc. etc. etc.). Não seria tudo mais fácil se a cidade fosse simplesmente menor?
Aqui onde moro (em Piracaia, a apenas 100 km de São Paulo), somos pouco mais de 25 mil habitantes, divididos ao meio entre as zonas urbana e rural. É possível resolver boa parte das tarefas do dia a dia em deslocamentos curtos, a pé, de bicicleta, ônibus que circulam pelos bairros ou de carro mesmo. Não existe nenhum semáforo nas ruas (pode acreditar!), nem ciclovias, muito menos metrô, obviamente. Mas é possível ver, a qualquer hora do dia, ciclistas dividindo espaço com pedestres, motos, carros, crianças, cachorros, cavalos e até charretes (na minha rua, por exemplo, passa uma toda manhã, por volta das 8h, do vendedor de leite – da vaca mesmo, tirado horas antes).
Também os sítios ajudam a abastecer a cidade com produtos que chegam mais frescos aos mercadinhos. Alguns são orgânicos, mas como quase não viajam, não chegam a custar mais. Ovos caipiras vêm quase com o nome da galinha… É possível saber de que sítio veio cada item da minha compra, inclusive com o nome do produtor: dona Expedita, dona Helena, seu Zé.
Como a cidade é pequena, também as caronas são mais frequentes. Você está passando na rua e vê um conhecido andando, pergunta se aceita uma carona e pronto. Outro dia ouvi uma moça dizer que morava longe do trabalho. Eu, com a referência de São Paulo ainda na memória, perguntei quanto tempo ela levava nesse percurso, lembrando-me das três horas que o pessoal da periferia perde nos trajetos diários até o centro. A resposta me surpreendeu: “Ah, quando o ônibus demora, levo quase meia hora para chegar”. Achei engraçado.
O interior é outro mundo? Se, décadas atrás, havia uma divisão entre cidades e campo, hoje temos uma cisão entre metrópoles e cidadezinhas do interior, esquecidas de todos. Mas, vale lembrar que é delas que vem a água que abastece os grandes centros, e também o alimento de nossas mesas. É delas que vêm muitos dos trabalhadores do setor da construção e outros tantos que, com baixa escolaridade e a ilusão de fazer a vida entre arranha-céus, trocam a vida no chão de terra batido por um barraco em área de risco na periferia da periferia da capital.
Cada vez mais reforço minha posição de valorizar as pequenas e apostar num caminho do meio, em que seja possível trocar experiências com as vizinhas grandonas, sem perder a doçura e a poesia do caipira, que ainda reconhece o canto dos pássaros, acha esquisito viajar apertado no vagão do metrô, vai a cavalo sacar o pagamento no banco, faz festa na rua (como as crianças da foto, brincando na fonte da praça central) e gosta de andar pela cidade sem pressa, só para encontrar os amigos.
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23/11/2011 às 10:58 Shadik - diz:
Vc tem toda razão. Morei desde os 18 anos em pequenas cidades e sempre foi muito bom. Agora, por razões profissionais, moro numa maior – 370.000 hab – e já acho grande demais.
26/11/2011 às 18:38 marcilio tabosa viana - diz:
A Sra. tem toda razão, eu por exemplo sou uma pessoa rurbana, ou seja, nasci na zona urbana de uma pequna cidade do agreste de pernambuco, mas com ares de cidade rurrual, daí o neologismo.Mas eu não entendo a lógica dos administradores públicos de certas cidades, para não falar das metropólis, que criam programas de casas populares sem que os equipamentos públicos estejam pertos de seu moradores, não é necesssário somente “urbanizar” as pequenas cidades, mas colocar estes equipamentos perto dos moradores, para que assim de evitem deslocamentos longos e desnecessários! Hoje moro numa pequena cidadade do litoral de pernambuco, mas não tenho inveja dos moradores das grandes metropólis, eles podem ter mais conforto material e mais facilidades no acesso a bens culturais, mas por aqui vivemos com um grau bem menor de fobias e neuroses! Parabéns pelo blog, já o coloquei nos meus favoritos.”
03/12/2011 às 14:50 marcilio tabosa viana - diz:
O Brasil tem uma maneira equivocada de urbanização,na verdadade isto se intalou no Brasil na década de 40, onde nós tomamos como modelo uma nova forma de se morar, criada por pensadores e ubanistas europeus, ou seja, pobre deveria morar em perifria, na parte central das cidadades somente os ricos poderiam viver! então temos hoje esse caos urbano, que quase sempre toma conta dos noticiários, com as tragédias que acontecem devido a uma ausência do poder público na vida do cidadão!
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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