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Morar em vila…em São Paulo Giuliana Capello - 10/11/2009 às 10:33


Já escrevi muitas histórias sobre minha futura casa, na ecovila Clareando, e sobre a comunidade que está em formação. Mas quase nunca relato histórias da vila onde ainda moro, em São Paulo. Uns 15 dias atrás, no entanto, um problema relativamente banal tomou conta das oito famílias de moradores. E é sobre essas trivialidades do dia a dia (tão triviais que costumam nos trazer belas lições) que gostaria de escrever aqui hoje.

Lembro-me como se fosse ontem. Eu estava num encontro mundial de ecovilas (na inspiradora comunidade de Findhorn, na Escócia), quando conheci uma americana de uns cinquenta anos que mora numa ecovila urbana em Los Angeles, EUA. Eu tinha acabado de me mudar para a vila e fui conversar com ela para saber como era a vida numa vila no meio da grande cidade. Estava com um monte de ideias na cabeça para deixar o lugar mais ecológico e com um clima mais comunitário, mas não sabia por onde começar. A dica dela foi simples e direta: “Comece dando uma festa no pátio central”, disse. “Nada melhor do que uma festa para despertar o espírito de comunidade”, completou.

Voltei para São Paulo com certa ansiedade para dar o primeiro passo. Mas eis que uns olhares desconfiados, uma meia dúzia de caras fechadas e uma ligeira falta de simpatia que vi nos vizinhos me botaram para baixo. Desisti da festa. A correria do trabalho também me distanciou da vontade de mexer no assunto. Isso já faz quase 4 anos! Que vergonha…

Vez ou outra, porém, acontece alguma coisa que me faz rever meus conceitos. Como quando a dona Lurdes, de mais de oitenta anos, caiu no pátio da vila, quebrou o fêmur e as mulheres da vila começaram a se revezar para ajudar a irmã mais nova, dona Mila, a dar conta dos cuidados especiais para a sua recuperação. Até meu marido colaborou. Três vezes na semana ele ia até a casa 3, ao lado da nossa, para auxiliá-la numa espécie de fisioterapia.

Mas aí vinham as festas com som alto até tarde, os churrascos “clandestinos” no meio da vila, as torcidas de futebol que faziam algazarra em território “comunitário”, as buzinas na madrugada – o bastante para acharmos que realmente não havia como manter o mínimo de contato. E, assim, voltávamos a nos contentar com o “bom dia” apático e sem graça de sempre, trocado à frente da porta de casa. Pró-forma.

Quando tivemos problemas com a construção de um prédio enorme bem ao nosso lado, a coisa mudou de figura de novo. De repente, viramos todos amigos, unidos pelo sofrimento e pela indignação. Até à delegacia eu fui com a vizinha Márcia, para dar queixa da construtora, que estava perturbando o sossego e deixando todo mundo maluco. Cogitamos a possibilidade de contratar um advogado para nos defender, mas, felizmente, conseguimos instalar um diálogo mínimo com a engenheira da obra e fomos tocando a história na base da conversa mesmo.

Duas semanas atrás, eu e meu marido reativamos um plano antigo, que já colecionava tentativas frustradas: colocar um portão na vila, para dar mais segurança, deixar as crianças mais livres para brincar no pátio interno e controlar a entrada de carros de visitantes. O que despertou nossa ação, na verdade, foi algo pragmático, devo confessar. Trocamos de carro e, na hora de fazer o seguro, o corretor me perguntou: tem garagem na sua casa? “Moro numa vilinha”, respondi. E ele retrucou: “Mas tem portão?” Não teve jeito. Tive que responder que não, é claro. Resultado: sem garagem, a apólice ficaria R$ 1 600 mais cara. A alternativa? Convencer os moradores, em dois dias, a instalar um portão que nos custaria R$ 400. Que tal?

Nos dividimos para conversar com os vizinhos, com tato. Queríamos apenas que todos aceitassem o portão, colaborando ou não para pagá-lo. Para nosso espanto, e sem muitas delongas, todos toparam e muitos disseram que faziam questão de pagar uma parte do dito cujo. Um dia depois, lá estava o portão. Pronto e instalado. Foi o assunto da semana.

A novidade provocou algo curioso. De repente, os vizinhos estavam mais fora de casa (o calor ajudou, é verdade), batendo papo. As crianças também são aliadas: não têm fronteiras e entram nas casas vizinhas sem qualquer cerimônia. Assim, ficou mais fácil olhar para outro desafio antigo da vila: o excesso de carros. A maioria das casas tem dois carros, quando só há espaço para um carro por casa… Como resolver isso? O jeito foi encarar o problema de frente. O mediador do “conflito em potencial” foi meu marido. Sim, ele de novo. Fiquei nos bastidores, palpitando aqui e ali. Devagar, como quem chega de mansinho, ele conseguiu ouvir todos os vizinhos, as sugestões, os senões, as broncas de tempos passados, enfim.

Juntos, ele e os demais proprietários de carros passaram uma tarde toda manobrando os carros da vila como quem move peças de um jogo de xadrez. As mulheres, vez ou outra, saíam à calçada para dar uma espiadinha, reclamar do calor, do vizinho que saiu e esqueceu o portão aberto, essas coisas. Durante as negociações, pudemos conhecer mais nossos vizinhos. “Eu preciso de uma vaga de acesso fácil, porque saio muito cedo para trabalhar”, dizia um. “O namorado da minha filha precisa de uma vaga aqui também”, dizia o outro. “Fulano não pode deixar três carros aqui dentro”, reclamava um terceiro. E assim fomos estreitando a conversa, ouvindo as demandas de todos e pensando numa maneira de ajeitar os carros sem maiores traumas.

Deu certo! Eles conseguiram uma boa solução para os carros, e o melhor: todos ficaram satisfeitos. O resultado desse episódio não poderia ter sido melhor. Contentes com as mudanças, todos agora estavam orgulhosos da vila mais organizada, com vagas pintadas no chão para facilitar as manobras. Isso me faz ter esperança. É verdade! Às vezes, deixamos planos de lado por não acreditar na bondade das pessoas, por não confiar que a mudança é possível. Mas, em muitos casos, basta alguém se dispor a olhar para o problema e tomá-lo nas mãos para resolvê-lo, para que tudo se transforme.

Quando eu estava na faculdade, eu e uma amiga tínhamos uma mania engraçada. Gostávamos de “provocar” as pessoas nos pontos de ônibus e dentro do metrô. Escolhíamos a dedo: quanto mais a cara estivesse fechada, mais divertido era perceber que aquilo tudo era só fachada. Bastavam poucas palavras para deslanchar uma conversa que durava todo o tempo da espera. É tudo só uma casca, pronta para ser quebrada a qualquer momento. Dentro dela moram seres humanos, como eu e você. Com tristezas e alegrias, mas, sobretudo, sentimentos e incertezas que ficam mais leves quando compartilhados. Pense nisso quando encontrar aquele vizinho (aparentemente) emburrado de novo…

Foto: a vila onde moro, com uma amoreira linda que nos ajuda a manter um bom relacionamento com os vizinhos. Colhemos os frutos todos os anos para fazer geleia e distribuir entre as famílias…

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Comentários

10/11/2009 às 11:49 Anonymous - diz:

ELLEN NAYARA KOTAI COSTA – diz:Adorei o texto! Leitura prazerosa, daquelas de levar para a cama antes de dormir e ler atéee que o sono nos vença.Mais, sendo história verídica, melhor. É a poesia da vida se deixando codificar pelas palavras.

10/11/2009 às 12:51 Anonymous - diz:

Rodrigo – diz:E a festinha, quando vai acontecer?gosto muito do seu blog! Meu sonho é ter um cantinho em uma ecovila!até mais!

10/11/2009 às 16:22 Anonymous - diz:

Léia – diz:Apostamos muito nos rótulos, nas fôrmas, e tudo fica mais pesado. Quando nos abrimos, as coisas podem adquirir mais leveza. Ah, e a festa? Me chama, hein! (rs). bj.

10/11/2009 às 20:34 Anonymous - diz:

– diz:Esses são vocês, né? Beijos! A Manu manda beijos, está aqui do meu lado!

17/11/2009 às 13:41 Anonymous - diz:

Mr. Malibu – diz:Parabéns…Vc é uma das poucas pessoas q põe a mão na massa para fazer algo pelo planeta, é de gente assim q o mundo preciso… pq de “filósofo ambiental”, de teóricos isso aqui já está cheio…Parabéns mais uma vez…

24/11/2009 às 17:09 Anonymous - diz:

JOSÉ CARLOS PALOMO – diz:Eu sou suspeito, né? V. já sabe Há muito tempo de minha admiração por V. e seu trabalho. Não conhecia o blog. Genial. Bem escrito, bem humorado, vende esperança por um mundo melhor. Parabéns. Um beijo

28/11/2009 às 07:56 Anonymous - diz:

LARA FREITAS – diz:Que, saudades!Estamos longe nas atividades cotidianas, mas quando leio algo assim sinto que andamos lado a lado.Vou te visitar em breve.Um grande beijoLara

04/12/2009 às 17:15 Anonymous - diz:

Ciça Reis – diz:Olá.Trabalho para o pessoal do Planeta faz algum tempo como fornecedora e ainda não tinha conseguido tempo para ler algum dos blogs. Mas o título da matéria da parteira da amazônia me chamou a atenção. Aí, lendo outros posts, me deparei com este aqui que é simplesmente fantástico. Parecia q eu estava em uma varanda, com vc me contando o “causo” enquanto tomávamos um suco de limão. Sensação bem interiorana para uma paulistana que, como eu, nunca saiu dessa correria que é a vida na maior metrópole do país. A-D-O-R-E-I!

07/12/2009 às 22:32 Anonymous - diz:

SABRINA MACHADO DE QUADROS – diz:Olá, Giuliana!!!Como vai!?! É um prazer e grande alegria pra mim perceber que a todo instante podemos aprender com a vida e com as pessoas que estão à nossa volta como é possível sim, nos aproximarmos, nos entendermos, nos respeitarmos e nos amarmos mais em comunidade, na sociedade, estejamos onde estivermos, no prédio, no condomínio, na vila, na chácara, ou numa exemplar e maravilhosa ecovila, como a Clareando! Aliás o meu maior sonho na vida é levar uma vida em comunidade totalmente ou ao menos o mais possível sustentável e em harmonia e respeito à Mãe Natureza!! Quero muito me unir a pessoas com estes mesmos princípios ecológicos e sustentáveis e construir o meu lar (pra minha família)numa bela ecovila!! Sou fonoaudióloga educacional e arte-educadora musical e hoje trabalho no município de Embu das Artes, embora more tb ainda em São Paulo… Vc pode me orientar a como conquistar este sonho, de morar numa ecovila, Giuliana!!??!!Um grande abraço e beijo!!Parabéns!!Sabrina Quadros

24/02/2010 às 19:55 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Olá a todos! Obrigada pelos comentários. Faço aqui um agradecimento geral, com um à parte para a Sabrina, que me deixou uma pergunta: como morar numa ecovila? Bom, que tal, antes de mais nada, fazer uma pesquisa na internet, selecionar algumas mais próximas e fazer uma visitinha? A Clareando, por exemplo, promove piqueniques para interessados em conhecer a proposta. Seria um prazer recebê-la por lá e contar pessoalmente um pouco do que estamos plantando naquele lugar lindo. Entre no site e veja a programação: http://www.clareando.com.br. Um grande abraço, Giuliana

06/07/2010 às 13:42 Anonymous - diz:

fabio – diz:Moro em uma ” vila” há dois anos e descobri que o melhor termo nao seria ” vila” e sim INFERNO. Deveriam proibir a construçao de vilas. No fundo sao um bando de fofoqueiros, folgados que se acham donos de tudo, se intrometem em tudo e só sabem fazer bagunça e barulho. rs

10/09/2010 às 20:19 Anonymous - diz:

gbriely – diz:!!!!!!!@@@@

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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