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Um luxo chamado Tempo Giuliana Capello - 05/07/2011 às 18:25
Nada no mundo é mais valioso do que o nosso Tempo, aquela entidade intangível que escapa às nossas mãos a cada instante, que transforma presente em passado com a força de um moto-contínuo involuntário, desenfreado, que passa, que passa. Pois é o Tempo senhor tão bonito, como diria Caetano – que nos concede a experiência da vida, ainda que voraz, impermanente, imperfeita. Ma-ra-vi-lho-sa.Mas quase ninguém hoje tem tempo para o Tempo… São tantos estímulos, tarefas, problemas para resolver em espaços cada vez mais ínfimos, que não dá tempo de pensar nisso… (Como eu, que há pouco me flagrei preocupada em terminar logo este post. Já é tarde…) Sempre estamos atrasados, somos a geração do atraso, em eterna dívida com o tempo para os outros e para nós mesmos. Primeiro vem a infinidade de tarefas no check list diário, que nunca acaba. O que sobra de tempo, quase nada vez e outra, dividimos entre a TV, os emails, um banho de cinco minutos, um sono curto e, com sorte, um pouco de atenção e carinho a alguém que merece, ao menos, umas migalhinhas. Insustentável, não?
Pensando por aí, fica menos estranho imaginar um banco em que a moeda de troca é o tempo. Afinal, o que pode valer mais do que o seu tempo? Já imaginou? Quantas horas você tem para trocar em sua conta corrente? E para receber? Maluquice? Que nada! Existem vários Bancos de Tempo espalhados pelo mundo, há décadas. Descobri essa história recentemente e fiquei encantada com a proposta: os serviços não custam X reais, euros ou dólares. Valem uma hora, ou duas ou mais do seu tempo. Não importa se você é engenheiro, agricultor, barbeiro ou professor. O meu tempo é igual ao seu, sempre.
Os tais bancos de tempo são experiências interessantes, especialmente quando se deseja apoiar a confiança e a solidariedade de um determinado grupo de pessoas. Ele até tem cara de banco convencional mesmo, com agência, talões de cheques, correntistas. E o gerente, fique tranquilo(a), não é o Coelho Branco das aventuras de Alice…
Falando sério, imagine isso no seu condomínio, por exemplo. Digamos que o síndico resolva criar um Banco de Tempo. Cada morador interessado vai até a agência e diz quantas horas pode oferecer por mês e em que tipo de serviço (cabeleireiro, manicure, massagista, cozinheiro, professor, cuidador de idosos ou crianças, consultoria jurídica etc.). Em troca, recebe uma lista com os serviços oferecidos pelos demais correntistas e um talão de cheques para ser usado nas trocas e ajudar a controlar o fluxo de horas trocadas.
Se você é professora de Português, pode oferecer duas horas semanais de aulas particulares a seus vizinhos. E, na outra ponta, pode solicitar o serviço da cabeleireira do 5º andar ou do eletricista que mora bem ao seu lado. Sem trocas monetárias. Só o tempo importa. E aí, a hora do jardineiro vale o mesmo que a do advogado. Legal, não?
Nas ecovilas, é comum encontrar murais de oferta de serviços (como esse aí da foto), um tipo simplificado de banco de tempo, descentralizado. Tem de tudo: aulas de yoga, jardinagem, atendimentos terapêuticos, aulas de idioma, de dança, de permacultura, de culinária natural. E o bacana é que não é preciso ter dinheiro para obtê-los. Basta que você ofereça um pouquinho do seu tempo, também na forma de serviços prestados. O resultado dessas trocas é uma comunidade mais forte, que troca também olhares, cuidados, afeto e, o mais importante: que valoriza e dedica tempo ao Tempo de suas vidas. E aí? Tem um tempinho para trocar?
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06/07/2011 às 10:40 Anonymous - diz:
Solange de Moraes – diz:proposta inteligente, são idéias como esta que o mundo precisa, bom demais.
14/07/2011 às 21:58 Anonymous - diz:
Fernando Martins – diz:Que idéia maravilhosa que você nos trouxe Giuliana, obrigado!Desculpe o atraso no comentário, apesar que textos como esse e todos os outros que você publica nunca serão atrasados e estarão sempre em tempo de comentários.E com esse pensamento hoje me dei ao direito de ler aqui mesmo do computador e internet do trabalho um por dia desde seu primeiro texto e poder divulgar a todos que conheço. Gostaria muito de um dia conhecer a Ecovila Clareando, ela está aberta a visitas? Agradeço muito se puder me mandar detalhes por email. Muito obrigado!
27/07/2011 às 21:58 Anonymous - diz:
Raphael Rodrigues de Paula – diz:Mais um ótimo texto Giuliana!Desses que absorvem a gente como uma boa poesia.Continue semeando essas ideias! Torço pra que a safra seja boa!Abraços
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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