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Lixo é uma questão topológica Giuliana Capello - 07/06/2011 às 17:57
Uma casca de banana na calçada é lixo, certo? Mas, na composteira, o mesmo resíduo é recurso para a produção de adubo natural. O cabelo da mulher amada é o máximo, mas na sopa… socorro! Restos de madeira na rua são um problema e tanto, mas numa marcenaria viram matéria-prima nobre. Lixo, em suma, é tudo aquilo que está no lugar errado.Os exemplos são tantos que não dá para enumerá-los aqui. O importante é o conceito, a percepção de que é possível reduzir nossa geração de lixo aprendendo a depositá-lo nos locais corretos (e isso inclui checar se quem os recebe também faz o mesmo) ou, melhor ainda, destinando-os de tal forma que eles possam voltar ao ciclo produtivo – por reciclagem, reúso ou reaproveitamento.
Esse é um jeito mais simples de encarar o desafio do lixo: entender que lixo só é lixo quando misturado a outros tipos de materiais ou quando despejado de maneira errada mais uma vez, portanto: lixo é aquilo que dispensamos no lugar errado.
Na construção da minha casa, uma das coisas que sempre ocupou minhas reflexões e ações foram os resíduos, o entulho da obra. De tempos em tempos, eu ficava lá separando tudo o que sobrava em categorias: recicláveis (papel e plásticos, basicamente) num canto da sala, restos de madeira em outro, e assim por diante, com vidros, metais (de pregos tortos a pedaços de vergalhões), latas de óleo de linhaça, telhas e tijolos quebrados etc.
Confesso que isso tudo dá um trabalho enorme, mas no final vem a recompensa: uma sensação muito boa de ver que o volume de lixo fica sempre bem menor, pelo simples fato de que parte dos resíduos acaba transformada em recursos ainda úteis à obra. Simples assim.
Restos de madeira podem ser usados para fazer caminhos de jardim, quiosques de jardinagem e móveis. Telhas e tijolos quebrados entram em aterros nos muros de contenção de superadobe e até em sistemas de tratamento ecológico de esgoto. Latas de óleo de linhaça parecem terem sido feitas para virar luminárias do tipo spot, para iluminação indireta…
Com um pouco de vontade e menos preconceitos, conseguimos enxergar diversos usos possíveis no mais singelo pedaço de metal, madeira ou plástico. Para isso, é necessário deixar de lado aquela visão antiga de abundância de recursos ou "aquela velha opinião formada sobre tudo". É incrível e lamentável nossa capacidade imensurável de jogar fora coisas que ainda têm condições de uso. Melhor seria se pudéssemos ouvir nosso lixo cantando Raul Seixas em voz alta: eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…
Camaleão, metamorfose ambulante, transformista, não importa o nome. O que vale nessa seara é a habilidade de olhar um resíduo e enxergar maneiras de incorporá-lo em outro lugar que não seja o lixo ou o aterro sanitário da sua cidade.
Acredite: quando conseguimos isso, ficamos mais felizes. Eu, pelo menos, achei o máximo o resultado do banheiro da minha casa na ecovila (foto). A bancada da pia foi feita artesanalmente pelo maridão, com madeira que sobrou da estrutura da casa. Já o mosaico na parede levou cacos de cerâmica da nossa obra e de outros vizinhos também, que ainda ajudaram na colocação. Por último, o toque especial: no lugar da cuba de cerâmica, um tacho de pastelaria!
Use a criatividade para reduzir o seu lixo. Para isso, uma dica ou incentivo é pensar sobre a história daquele produto: sua origem, suas matérias-primas, processo de produção, gastos energéticos, trabalhadores envolvidos, transporte. Quando nos tornamos mais conscientes do caminho que cada produto fez até chegar em nossas mãos e a porção do planeta que ele consumiu – imediatamente passamos a valorizar cada pedacinho de recurso.
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08/06/2011 às 09:20 Anonymous - diz:
Michel – diz:“Lixo, em suma, é tudo aquilo que está no lugar errado.”Demais!!
08/06/2011 às 13:25 Anonymous - diz:
Elza Dupré – diz:Muito bom!!! Acredito muito na reciclagem, reutilização e reaproveitamento, tanto que utilizo em meu trabalho. Parabéns pela matéria.Um abraçoElza Dupré
11/06/2011 às 12:14 Anonymous - diz:
Anderson – diz:Excelente! Obrigado.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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