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A lição do Ubuntu ancestral Giuliana Capello - 17/05/2011 às 10:45
Não, não, este post não vai tratar de software livre. O tema da vez é o Ubuntu nascido na África, gerações e gerações antes de nós, como uma filosofia ou um conjunto de valores éticos que não cabe numa única definição porque é mais fácil entender com o coração e não como um apanhado de palavras bem articuladas.Dia desses recebi um email que despertou minha curiosidade em saber um pouquinho mais sobre essa história de nome engraçado. A mensagem relatava uma brincadeira que teria sido promovida por um antropólogo durante suas pesquisas numa tribo africana. Diz a história que ele havia deixado debaixo de uma árvore um bonito cesto de doces comprados na cidade. Então, ele chamou as crianças e propôs uma corrida até as guloseimas. Quem chegasse primeiro ficaria com o prêmio. Mas, para sua surpresa, quando ele disse já!, todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à arvore dos doces. Quando chegaram lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem, felizes. O antropólogo, então, perguntou por que elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ter ficado com tudo e, assim, comeria muito mais doces. E as crianças simplesmente responderam: Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?
Entendeu o que é Ubuntu? Talvez você, tanto quanto eu, ainda tenha dúvidas e fique inseguro ao tentar explicar a alguém o que é, afinal, Ubuntu. Apesar disso, o espírito dessa prática filosófica, digo por mim, tocou-me profundamente. Ubuntu significa: Sou quem sou, porque somos todos nós. É bonito, não?
Ubuntu fala sobre a noção de comunidade que, infelizmente, muitos de nós perdemos pelo caminho, em algum momento. É aquele sentimento de solidariedade, gentileza, respeito, tolerância e pertencimento que faz das relações, atitudes e comportamentos humanos experiências ricas, únicas, transcendentais.
Para o arcebispo Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz, Ubuntu é um dos presentes da África ao resto do mundo. Envolve hospitalidade, cuidado com os outros, ser capaz de dar um passo a mais pelo bem dos outros. Acreditamos que uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas, que minha humanidade está vinculada indissoluvelmente à sua. Quando desumanizo você, inexoravelmente me desumanizo. O ser humano solitário é uma contradição em termos, portanto, trabalhe para o bem comum porque sua humanidade vem de sua própria pertença, diz ele.
Quando penso agora na minha comunidade na ecovila Clareando, sinto-me renovada ao sentir o quanto sou mais feliz hoje por fazer parte dela e ser capaz de entender com todos os meus sentidos o que é essa tal qualidade de pertença ou pertencimento, de sentir-se parte de algo, sempre junto com outras pessoas. Para mim, o que falta à humanidade hoje para atravessarmos as crises socioambientais é justamente essa palavrinha: Ubuntu. É claro que não sou a única a pensar assim, não estou sendo muito original, na verdade. Várias lideranças mundiais já se referiram ao conceito de Ubuntu para falar das carências de um conjunto de qualidades humanas deixadas para trás, tão equivocadamente. Bill Clinton já discursou sobre Ubuntu, assim como Nelson Mandela. Em poucas palavras, Ubuntu conecta os seres humanos, destrói a indiferença diante da dor do outro, incorpora a troca de sorrisos com o vizinho como um indicador de bem-estar, saúde e qualidade de vida.
E tenha certeza: a solidão que muitas pessoas sentem como uma angústia profunda é falta de Ubuntu, desse algo que nos acolhe como uma lareira em dias frios. Nas palavras usadas pela Fundação Tutu na Inglaterra (vale a pena visitar o site e ler mais sobre o assunto), nós apenas podemos ser humanos quando estamos juntos. Esse é o único jeito.
Foto: Reunião da comunidade na ecovila Tamera, em Portugal.
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19/05/2011 às 19:57 Anonymous - diz:
denise vida – diz:“nós apenas podemos ser humanos quando estamos juntos. Esse é o único jeito. “
20/05/2011 às 08:07 Anonymous - diz:
Michel. – diz:Poxa… Que legal o texto!Obs: O Antropólogo foi oferecer doces pra crianças? Boa hein senhor antropólogo!
23/05/2011 às 18:59 Anonymous - diz:
dudapinto – diz:Puxa que legal! Parabéns Giuliana. Eu confesso que me interessei pelo Post porque sou um usuário do Ubuntu (software livre) e agora vejo ainda mais sentido em continuar usando.
24/05/2011 às 17:39 Anonymous - diz:
Léia – diz:Acho que rolou o Ubuntu lá na Clareando neste fim de semana.
15/04/2012 às 15:18 ANA - diz:
PARABÉNS JULIANA PELA INICIATIVA DE UNIR-SE A AQUELES QUE DEFENDEM A IMPORTÃNCIA DA RESPONSABILIDADE COLETIVA SOBRE O MUNDO EM QUE VIVEMOS. SOMENTE JUNTOS PODEMOS CUIDAR DO NOSSO MUNDO, DE NÓS MESMOS.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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