BuscaBusca avançada
Publique
o selo
no seu blog
O joio e o trigo Giuliana Capello - 10/08/2010 às 11:23
É cada vez maior o número de produtos que procuram se diferenciar no mercado sob o rótulo de ecológicos. Mas será que eles são realmente mais amigáveis para o planeta? Certamente, muitos de fato o são, mas há também um bocado de casos em que faltam consistência e transparência nessas nomenclaturas o que dificulta a escolha mais consciente do consumidor.
Já faz algum tempo que coordeno o Prêmio Planeta Casa, promovido pela revista CASA CLAUDIA e movimento Planeta Sustentável, e queria compartilhar com você algumas impressões pessoais. O concurso foi criado para valorizar e divulgar o trabalho de arquitetos, engenheiros, designers, ONGs e empresas que estão criando projetos alinhados com a necessidade planetária de reduzir impactos socioambientais.
É curioso notar que, em 2002, ano da primeira edição do prêmio, o número de pessoas que trabalhavam nesse setor era bem menor. Era muito mais difícil garimpar bons exemplos e convidar seus autores a inscreverem suas ideias no concurso. Também os critérios de avaliação eram menos rigorosos, já que um pequeno passo em direção a algo mais sustentável já soava como um esforço e tanto, digno de ser destacado. Hoje, no entanto, a coisa é bem diferente.
Escolher matérias-primas certificadas ou de reaproveitamento, por exemplo, não é o bastante para garantir produtos mais ecológicos. Quer um exemplo? Utensílios de bambu. Há empresas vendendo produtos feitos com bambu como sendo ecológicos. A gramínea de crescimento fácil e renovação rápida na natureza é, de fato, uma boa opção. Mas é preciso ter uma visão mais panorâmica da questão. Quer ver só? Muitos desses produtos são fabricados na China, sabe-se lá em que condições, com que mão de obra etc. e tal, e atravessam o planeta em navios ou aviões (consumindo combustível fóssil) até chegar ao Brasil. Boa parte de suas qualidades se perde nessa jornada pouco sustentável.
Outro exemplo são os móveis de madeira certificada pelo FSC (Conselho de Manejo Florestal). A origem da madeira é ok, vem de florestas com manejo sustentável e cuidados com os trabalhadores e comunidades tradicionais. Mas se o design da peça não for inteligente e significar um uso excessivo do material (o que dá ao móvel um aspecto pesado, robusto demais), lá se vai parte do esforço de dar à madeira um uso mais nobre. Sem falar nos casos em que a madeira de florestas nativas da Amazônia é transformada em produtos absolutamente inúteis ou, no mínimo, dispensáveis. (Já ouvi de designers de produto que alguns produtos simplesmente não deveriam existir ou você acha que os contêineres de quinquilharias de plástico que vêm de Taiwan são cruciais em nossas vidas?)
Produtos de plástico, por exemplo, são muitas vezes considerados ecológicos simplesmente porque podem ser reciclados embora o caráter reciclável não signifique necessariamente que o produto será reciclado ao final de sua vida útil. É preciso também considerar as condições para o descarte desse material e a durabilidade dos produtos, certo?
No caso dos projetos de arquitetura e design de interiores não são poucos os exemplos em que o cuidado com o meio ambiente e a escolha de materiais mais sustentáveis se perde em meio a outras escolhas menos conscientes, que tornam o resultado final menos consistente. De que adianta usar um piso ou um tijolo ecológico se os acabamentos (tintas, vernizes, louças e metais sanitários etc.) não foram coerentes com a proposta? Muitas vezes, escolhas contrastantes ficam evidentes e acabam reduzindo o mérito do projeto.
A boa nova é que, separando o joio do trigo, é bem verdade que temos hoje muito mais opções para construir e decorar a casa de um jeito mais compatível com as demandas do planeta. E isso só tende a aumentar, se houver mais e mais consumidores atentos a isso e dispostos a pressionar o mercado cada vez mais.
Dilemas como esses são comuns quando assumimos o compromisso de comprar com mais consciência, buscando informações e opções mais saudáveis para todos. Lembro-me de uma amiga que, certa vez, me perguntou: o que você considera mais ecológico, um kiwi orgânico produzido na Ásia ou uma banana com agrotóxico colhida na sua cidade?
ver este postcomente
Pois é, às vezes, o melhor é não comprar nem bananas nem kiwis… Com tantas frutas produzidas no Brasil, será que não tem nenhuma outra que possa satisfazer nosso organismo sem agredir tanto a natureza e nossa saúde? Será que precisamos de tanta diversidade na alimentação e no morar? Quantidade é qualidade? Será que o problema não estaria no fato de nossos desejos serem, muitas vezes, incompatíveis com o bem-estar da sociedade e da Terra? Será que realmente precisamos de uma casa com tantos acabamentos, detalhes, firulas e produtos que vendem a ideia de conforto, mas são um problema para o planeta?
10/08/2010 às 15:44 Anonymous - diz:
Karla Cunha – diz:Olá Giuliana,Muito bacana o seu post,e essa vem sendo a minha “briga” nos últimos tempos, a de tentar mostrar à s pessoas que depende de nós termos um pouco de critério na hora de distinguir o que e principalmente como consumimos.Infelizmente, como arquiteta, é muito difÃcil ainda convencer o cliente a ir até o fim na sustentabilidade, em se tratando de uma reforma, por exemplo. Em alguns casos, como nos acessórios, não temos muitas opções e quando temos, os custos ainda são um obstáculo. Mas vejo que o mercado a cada dia nos oferece mais opções e que, aos poucos, o consumidor está consciente de seu verdadeiro papel.Até mais,Karla.
11/08/2010 às 10:46 Anonymous - diz:
Michel Cantagalo. – diz:Giuliana! Tudo jóia? As pessoas esquecem que consumo consciente é antes de tudo reduzir o consumo ao nível das necessidades. Substituir por algo “sustentável” é somente a segunda opção. E outra coisa, se conseguissimos ver o verdadeiro preço dos produtos, apenas os ecológicos teriam espaço no mercado.
24/08/2010 às 14:57 Anonymous - diz:
Alexandre Oelsner – diz:Oi Giuliana, tudo bem?Concordo com você. E nessa busca por produtos ecologicamente corretos, com design bacana e produzidos em nosso país, eu criei a loja virtual Revira Ideias. Dê uma olhada e me diz o que você achou: http://www.reviraideias.com.brUm abraço.
Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!
Enviar
Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
• Ser limpinho num planeta sujinho?
• A simplicidade e a crise de imaginário
• Dias de mudança e gentilezas!
• Meio ambiente: por que custo e não investimento?
• Discurso sustentável tem limite
• A cidade, o campo e a estrela Sinhá
• A mágica das trocas de saberes
• Ideias para esverdear a construção
• Teste drive do banheiro seco
• O planeta numa bandeja (de isopor)?
• Reflexões sobre o slow life e a internet
• Vasos para melhorar o trânsito
• 2012: ano para entender o planeta
• Belo Monte, Rachel Carson e minhas velas artesanais
• O caipira e a mobilidade urbana
• O que dar a alguém que já tem “tudo”?
• Pela volta do fogo doméstico
• O empurrãozinho que faltava…
• Um lugar em você chamado Ahimsa
• RPPN El Nagual: cooperação, amizade e inspiração
• Um guarda-chuva para dois verões
• E quando não há rede de esgoto?
• Quem casa quer casa (ecológica!)
• Se não é divertido, não é sustentável
• Secador solar e generosidade
• Doze metros de muita história
• Liberdade anda junto com sustentabilidade
• Produtos que não deveriam existir
• Lixo é uma questão topológica
• Você e o fim da sacolinha em SP
• Ecovila: no pasto ou na mata nativa?
• O descaso com o lixo orgânico
• Espiritualidade e vida comunitária
• Produzir ou consumir cultura?
• Trocas solidárias que enriquecem
• Acordos comunitários para a ecovila
• Por que o simples é tão complicado?
• Só tecnologia não salva o planeta
• Bioconstrução na serra fluminense
• Petrofóbicos e locávoros, uni-vos!
• Permacultura para transformar
• A nova história dos três porquinhos
• Livrai-nos dos pecados do greenwashing!
• Dias de mudança (e desapego)
• Sustentável e mais barato, sim!
• Ecovila: mutirão na represa!
• Superadobe ou terra ensacada
• Primavera com onça e lobo-guará!
• Bioconstrução para multiplicar
• Por que adoro hortas permaculturais
• Sobre a formação de uma ecovila
• Quando o tamanho é documento
• Terra fértil e sangue menstrual
• O centro comunitário da ecovila
• Qual é a sua sustentabilidade?
• Ecodesign para cuidar do planeta
• Home centers e produtos ecológicos
• Ecovila com horta… e sem delivery
• A conta de gasolina na ecovila
• Patos, galinhas e outros bichos
• Esperança e cooperação na ecovila
• A COP15 e a síndrome do panetone
• Histórias de uma parteira na Amazônia
• Ecovila e sustentabilidade econômica
• Um carro, um jipe ou um cavalo?!
• Para iluminar a casa e curtir a noite
• Uma casa para abrigar nossos sonhos
• Uma moldura para o horizonte
• Quando o ecológico não é bem ecológico
• Não sei se é verdade, mas repasso?!?
• Por que adoro feiras de trocas
• Minha casa num programa de tv…
• Ah, esse excesso de e-mails…
• Socorro, não aguento mais SP!
• Para tecer uma vida na ecovila
• Entre na onda das roupas usadas
• Mata atlântica: mais que uma efeméride
• O que fazer com a madeira que sobrou?
• Histórias de reúso, economia e bons amigos
• Sua casa pode ser uma ecovila
• Meu telhado verde, verdinho, verdinho
• Celebrar ajuda a enfrentar problemas
• O segredo da abóbora mágica…
• Quanto vale o nosso trabalho?
• Meus vizinhos, minha família
• De que é feita a minha casa?
• A alegria de viver em comunidade
• Crise financeira ou chance para o planeta?
• O que eu vou fazer numa ecovila?
• Construir com as próprias mãos
• Confissão: eu não passo roupas
• As ecovilas e as mudanças climáticas
• Slow life: vida mais calma, lenta e confortável
• Tomada de decisão por consenso
• Tapioca: regional, gostosa e sustentável
• Para ter uma composteira caseira
• Água no copinho plástico? Tô fora!
• Música para sentir a natureza
• Bioconstrução e desastres naturais
• Democracia, consenso ou autocracia??
• Para construir uma comunidade
• O prazer das compras solidárias
• Poluição e Arte dentro do túnel
• Riqueza para além do dinheiro
• Nós e a natureza, conectados
• Impressões de uma ecochata (?) na Campus Party
• Horta vertical para pequenos espaços
• Receitas naturais para curar a ressaca do carnaval
• Aprendendo a costurar com a avó
• Festa infantil não precisa ser descartável!
• Consumo verde: tarefa difícil mas necessária
• Permacultura: do linear ao cíclico
• Cinco dias com o arquiteto descalço
• Sustentável é também saber ouvir
• Permacultura: transformando problemaem solução
• Falta de civilidade é fogo (na mata)!
• Design natural é tudo de bom!
• Dividir a lavanderia com o vizinho?!?
• Abaixo as fraldas descartáveis!
• Histórias de uma outra gastronomia
• Uma outra gastronomia – parte 2
• Por uma dieta que respeite o planeta
• Construtoras precisam se adaptar
• Reunião de condomínio? Não, de ecovila!
• Disk-pizza e permacultura na geladeira