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Jardim de histórias tiago - 24/08/2010 às 15:31

O pequeno jardim da minha casa em São Paulo é, na verdade, um álbum de
memórias vivas. No fundo da casinha de vila convivem plantas que não
apenas deixam o lugar mais agradável, colaboram para a melhor qualidade
do ar, sequestram carbono e outras “utilidades” que podemos associar à
vegetação. Mais do que um punhado de espécies, elas têm para mim um
valor afetivo. E digo isso agora, a um mês da entrada da primavera,
momento em que muitas delas serão transplantadas para a casa na ecovila
Clareando, em Piracaia, SP. E por quê? Porque isso faz parte da minha
história – e do meu marido também. E vou contar um pouco dela a partir
das plantas que estão no nosso jardim…

A vontade de escrever
sobre isso veio da nossa pitangueira, que semana passada saudou-nos com
sua primeira flor em três anos. Foi um momento mágico, um presente. E,
aliás, temos muitos deles no nosso quintal. O jovem limoeiro mudou-se de
casa com a gente. Ele nasceu numa fresta de terra entre o portão e o
concreto da calçada da minha ex-casa. Sempre que chegávamos em casa, lá
estava ele, pequenino, dando sinais de que tinha uma vida longa pela
frente. Quando nos mudamos, achamos que ele se sentiria abandonado e,
então, resolvemos transplantá-lo para o quintal da nova casa. Não
demorou muito até que fincasse raízes e lançasse novas folhas – seu
jeito de nos agradecer.

A samambaia gigante foi presente da minha
avó. Já a outra, de folhas menores, foi comprada de um morador de rua
que bateu à minha porta pedindo que eu ficasse com ela em troca de
dinheiro para ele se alimentar. Algumas plantas, como a helicônia e as
espadas-de-são-jorge, já estavam na casa quando chegamos. E continuam
dando flores lindas. Tem também as mudas de abacateiro, plantadas da
semente do fruto que nos serviu de alimento. Da cozinha para o quintal.
Temos quatro delas aqui e uma quinta que já se mudou para a ecovila na
primavera retrasada (e anda curtindo o clima de montanha, porque está
crescendo forte e bonita).

As primaveras já floriram diversas
vezes, enfeitando o lugar. Tem ainda o maracujazeiro, que já nos deu
muitos frutos, mas teve de ser podado por causa da obra do prédio
vizinho, que o prejudicou muito (com resíduos que caíam sobre ele) e
impediu a polinização pelas mamangavas (acho que é esse o nome…) que
visitavam o jardim com muita frequência. Agora, menos de um ano depois
da poda, ele tem se desenvolvido muito bem.

Ah, sim, e tem também
as plantas que ganhei da minha mãe, quando ela se mudou de São Paulo
para Santos: uma arvorezinha da felicidade e outras duas cujos nomes,
infelizmente, não guardei. Convivi com elas antes de me casar, quando
ainda morava no apartamento dela e, também por isso, sempre que paro
para observá-las é como se voltasse por uns instantes no tempo.

Tem
bem-te-vi, sabiás, pardais, sanhaços e sebinhos (ou caga-sebos) que
frequentam o jardim todos os dias. Eles vêm em busca das flores, do
líquido cor-de-rosa (próprio para pássaros) que deixamos à disposição
deles e também de grãos de ração da Sofia, minha cachorra, que não gosta
nem um pouco de dividir sua comida com esses seres de asas. Vez ou
outra aparecem as maritacas, que já foram “freguesas” das sementes de
girassol que botávamos num prato suspenso para elas. Mas hoje, com os
prédios novos do bairro, elas andam mais sumidas, preferem ficar no
parque mesmo, a menos de um km daqui. Tudo bem.

E ainda tem mais
histórias. Parece que não cabe mais no jardim, mas ainda tem mais.
Tenho uma muda de ipê que já mudou de vaso duas vezes. Ganhei do Rubens
Matuck, artista plástico que me presenteou no fim de uma entrevista que
fiz com ele. Estou cuidando com muito carinho. Ele me disse que é ipê
verde e eu nunca vi um ipê dessa cor. O Rubens tem um viveiro incrível
na casa dele e uma coleção de sementes que é fantástica. Foi um enorme
prazer ganhar a mudinha dele.

A roseira de cachinhos também é
moradora antiga da casa. Deu-nos as boas-vindas quando chegamos aqui.
Meu marido fez uma muda a partir dela, que está brotando no nosso antigo
baú de ervas – que ficou desativado por uns dois anos, por causa (de
novo) da obra do prédio vizinho. Simplesmente não dava para cultivar e
consumir ervas aromáticas e medicinais com cimento e areia que insistiam
em “chover” nos nossos canteiros. A babosa, no entanto, resistiu e está
mais linda do que nunca, com a maria-sem-vergonha por perto, sempre
florida, e o gerânio que ganhei do meu marido recentemente.

Quanta
história! Ainda tem o jasmim e os lírios-da-paz no corredor lateral da
casa, o vaso fertilizado com meu sangue menstrual, que já rendeu
abóboras incríveis (mas essa é outra história…) e a maravilhosa
amoreira que fica em frente à casa, plantada por um antigo morador da
vila. Ela é testemunha de tudo que ocorre com a gente e com os vizinhos.
Já fizemos potes e mais potes de geleia e, sempre que ela está
carregada, ficamos conversando na porta de casa, comendo amoras.

Tenho
uma gratidão enorme por essas plantas. Toda vez que estou no jardim
sinto como se elas me conhecessem, compartilhassem comigo um pouco da
vida. Elas são companheiras no escritório, que fica na edícula do
quintal, e estão constantemente colorindo a imagem que vejo da janela.
Meu jardim, por fim, é um mosaico vivo de lembranças gostosas, fases da
minha vida, uma espécie de passado presentificado. Uma bênção.

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Comentários

24/08/2010 às 17:50 Anonymous - diz:

Sérgio – diz:Lindo texto.Obrigado. Muito obrigado.

26/08/2010 às 11:47 Anonymous - diz:

Michel – diz:Muito lindo…De todos textos seus que eu li, este é o mais poético, na minha humilde opinião!Muito obrigado por compartilha-lo!

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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