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Infância desplastificada Giuliana Capello - 19/07/2011 às 21:10
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Quando eu era criança, minha mãe costumava levar eu e minha irmã ao parque infantil da cidade. Era divertido, sem dúvida. Tinha balanço, gangorra, gira-gira… Mas, de todas as brincadeiras que ficaram na memória (corporal, sensorial, afetiva), as mais marcantes foram também as mais simples: os brinquedos improvisados com papelão e pedaços de madeira, o jogo de taco com os amigos da minha rua e, sobretudo, o corre-corre atrás de bola na companhia das nossas cachorras, Lisa e Tuta.
Por conta disso, sempre defendi que brinquedo é coisa superficial. Criança saudável cria seus próprios brinquedos, inventa jogos, atividades, se diverte sem precisar que alguém fique o tempo todo conduzindo cada passo de sua vida. O problema é que para que isso aconteça, é preciso ter tempo para brincar, coisa rara hoje em dia. No reino da eficiência e da produtividade, infelizmente, brincar parece inútil, inócuo, dispensável. Tempo livre precisa ser usado para aprender habilidades novas, que serão valiosas no futuro: uma segunda língua, um bom curso de informática e, de quebra, aulas de natação para gastar energia e dar sossego em casa.
Isso não é infância, é treinamento para tempos difíceis… E a vida não precisa ter esse peso todo muito menos antes dos doze anos de idade. Aliás, também não precisa ser pesada para o planeta, né? Já parou para pensar na pegada ecológica dos brinquedos da criançada do seu prédio? Uma amiga minha, quando faz festinha de aniversário para a filha, manda um recado no convite: Não se preocupe em comprar um presente. Mas, se fizer questão, evite produtos de plástico.
Para algumas pessoas, pode parecer radical, mas se o consumo responsável é algo consistente dentro de casa, evitar tralhas e excessos faz parte do dia a dia. E não dói nada. Convivo diariamente com a pequena Beatriz, de apenas cinco meses, e já sinto nela o quanto as coisas simples parecem ter mais valor. Deitada sobre uma mantinha no jardim, com vários brinquedinhos coloridos ao seu redor, ela se vê encantada com uma folha de árvore…
Crianças são grandes descobridoras. Só precisam de oportunidades. É por isso que, na ecovila, sou da turma que acha que o tal do playground não precisa ser algo condensado num único lugar. Vejo a ecovila como um grande espaço para brincadeiras, experiências, descobertas incríveis. Para que serve um trepa-trepa se você tem dezenas de árvores para escalar? E o que dizer do cenário para um esconde-esconde ou caça ao tesouro? Até é legal ter um balanço no meio do jardim, um jogo de amarelinha pintado no chão, cordas para pular. Mas acho fundamental que o espaço do brincar esteja sempre aberto às inovações e à criatividade que surgem do próprio ato de brincar.
Mas não. As mães de hoje querem mesmo é saber que o filho está dentro de uma quadra, de uma sala fechada, de uma brinquedoteca, e sob a supervisão de uma babá que, no fim, é quem vê a criança crescer… É claro que existem exceções e, por sorte, convivo mais com crianças desse segundo time, que suja as mãos de terra, que pinta o rosto com urucum, que não tem medo de formiga…
O mundo precisa dessas crianças que são simplesmente crianças, sem pressa de crescer, sem medo de ficar de fora do mercado de trabalho, sem ambição de vencer sempre e a qualquer preço. Refletir sobre sustentabilidade passa também por pensar em como criamos ou não – oportunidades para que nossas crianças possam entender o ambiente natural, vivenciar os bichos, as plantas, aprender com o olfato, o tato, enfim, resgatar a infância, vivê-la plenamente e atravessar a vida vendo beleza nas bolinhas de sabão e nas pintinhas da joaninha.
Foto: sempre ao lado da minha irmã, fui muito feliz na infância (mesmo com esse cabelo estilo tigela…).
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20/07/2011 às 09:50 Anonymous - diz:
Michel.. – diz:Que coisa linda Giu…Até me emocionei! Bjs
20/07/2011 às 10:43 Anonymous - diz:
Rebeca Bref – diz:Muito lindo Giu…amei seu post! realmente é isso mesmo!bjuss
20/07/2011 às 22:01 Anonymous - diz:
Fabiana Estevão – diz:Simplismente é isso!!! o simples cnntato com a natureza ja se torna uma brincadeira uma descoberta em cada folha de arvore em cada castelo de areia vira uma diversão sei disso porque brinquei muito com a terra e ainda brinco agora com um motivo a mais o meu filho Davi.bjus
21/07/2011 às 14:03 Anonymous - diz:
Mariana Capello – diz:Ter uma irmã mais velha nos permite continuar sendo um pouco crianças sempre.Um beijo da sua irmã mais nova!
21/07/2011 às 19:21 Anonymous - diz:
Janete Canteri – diz:Gosto muito do que vc escreve pois penso assim também. Hoje em dia as brincadeiras das crianças tem que ser supervisionadas pelos adultos. Não concordo com isso pois tira a espontaneidade das brincadeiras. Também sou contra colocar crianças com menos de um ano na escola e deixá-las lá o dia todo. Não é sem causa que a juventude está da forma como está hoje.Abraços
14/09/2011 às 03:49 Kaley - diz:
Very true! Makes a change to see soemone spell it out like that.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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