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Impressões do interior Giuliana Capello - 15/02/2011 às 16:48

Moro numa cidade pequena há dois meses, com menos habitantes do que o pequeno bairro paulistano onde vivia até então. Estou há menos de 100 km da capital e, no entanto, estranho é não ver cavalos e charretes pelas ruas ou imaginar um único semáforo na cidade. Minha rua é de terra, não tem iluminação pública – o que é ótimo para ver as estrelas – e o parque municipal, espécie de Ibirapuera local, fica em frente de casa.

Nesse curto período de tempo, já conheci muita gente interessante. E tudo por conta da simpatia inerente ao povo do interior, que puxa conversa com você como quem não quer nada e, dali um pouquinho, já se tornou conhecido de tempos remotos, praticamente um confidente. Aliás, confesso que adoro isso, essa coisa de sair da apatia que reveste os rostos escondidos no anonimato dos grandes centros urbanos. Aqui não é assim. Ir ao comércio significa conversar com todo mundo, da sorveteria à locadora de filmes, da casa de agropecuária ao departamento de trânsito. E se você estiver triste, desanimado, alguém pode lhe perguntar o que houve ou até oferecer ajuda.

Outro dia fui a uma loja de tecido (coisa rara em tempos de roupas chinesas baratas) para comprar meio metro de tule, destinado à minha futura produção de brotos em casa. O vendedor, um senhor de provavelmente, uns 80 anos, muito atencioso, me ofereceu outros produtos, contou que trabalha lá desde 1962 (!) e que se lembra da época em que aquela casa servia de estábulo para os cavalos de passagem pela cidade.

No meio da conversa despretensiosa, ele me perguntou se eu não queria aproveitar para levar uns tecidos que estavam em oferta. Eu respondi que ainda não sei costurar muito bem, que estava esperando a visita da minha avó para pegar umas dicas e colocar a máquina de costura para funcionar novamente. Mas ele, muito esperto, me surpreendeu: “Espere um minutinho, que eu já volto”. Entrou numa salinha no fundo da loja e, meio minuto depois, voltou com um pedaço de cartolina na mão. “Aqui está, senhora, nessa lista tem todas as boas costureiras da cidade, com endereço e telefone. É só comprar o tecido e encomendar a roupa que a senhora quiser”.

Achei aquilo de uma simplicidade belíssima, sem preço. Valorizo muito os saberes locais e, naquele momento, aquele papel me pareceu um tesouro esquecido no tempo, um punhado de histórias de mulheres que ajudaram a família a se sustentar – exatamente como fez minha avó durante a vida inteira – e que hoje pouca gente conhece e só uns “gatos pingados” são capazes de enxergar o valor desse trabalho artesanal e a cultura que se perde ao substituir alfaiatarias por peças baratas fabricadas do outro lado do planeta.

Acabei não levando um corte de ‘fazenda’ porque não estou precisando de roupas novas, mas ainda quero encomendar um vestido, talvez, só para relembrar um ritual muito comum na minha infância: minha avó com uma fita métrica, tirando minhas medidas e anotando no caderninho surrado, que revelava de A a Z os centímetros secretos das vizinhas e amigas do bairro.

Tudo isso é meio nostálgico, sei disso. Mas para mim é de uma felicidade que me renova a cada dia. É muito bom sentir que cada pessoa tem sua história e que, de modo geral, ninguém aqui vive em função do trabalho. O comércio, por exemplo, abre a partir das 9h e não há supermercado na cidade que feche as portas após às oito da noite (aliás, precisei me adaptar a isso). Muita gente cultiva um hobbie ou uma habilidade artística e há até uma orquestra de viola caipira.

Outra coisa gostosa é ir ao mercado e poder comprar produtos locais com certa facilidade: ovos caipiras, hortaliças sem agrotóxicos (como eles divulgam na embalagem), banana “natural” (é assim que eles denominam a produção orgânica por aqui), paçoca artesanal, queijo caseiro e por aí vai. Dá para almoçar muito bem colocando à mesa apenas produtos locais, que não precisaram de embalagens especiais para viajar quilômetros e mais quilômetros. Assim, eles são mais frescos e saborosos também.

Enfim, mesmo com todas as facilidades que as metrópoles costumam oferecer a seus moradores, com um jeito próprio de nos fisgar pelas novidades e pelo ritmo alucinante, posso dizer que estou muito feliz no interior, curtindo o silêncio das manhãs, os passarinhos do fim de tarde, os arco-íris fantásticos que surgem depois das chuvas de verão. Não sei mais o que é hora do rush, não fecho a janela do carro com pressa quando alguém se aproxima nem caminho preocupada em segurar a bolsa colada ao corpo. Isso, para mim, é vida. Sabe aquela história do FIB (Felicidade Interna Bruta) substituir o PIB (Produto Interno Bruto)? É mais ou menos por aí… E você, o que acha de tudo isso? 

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Comentários

15/02/2011 às 18:55 Anonymous - diz:

Léia – diz:Acho “bão” também!bjs e felicidades!

16/02/2011 às 10:05 Anonymous - diz:

Daniel – diz:Acho lindo…..

16/02/2011 às 15:15 Anonymous - diz:

Maria Julia – diz:Adoro seus textos. Eu estou exatemente nesta dúvida. Tenho 26 anos, no momento estou morando no Peru trabalhando há 2 anos, más em 2 meses voltarei pro Brasil. Tb sou do interior de SP, Sorocaba, e minha dúvida é se devo voltar pra SP ou Sorocaba para procurar emprego. Enfim, tenho que decidir. Boa sorte para vc!

17/02/2011 às 13:43 Anonymous - diz:

klaus patriota – diz:Olá , moro em Palmas – To e apesar dos ainda poucos habitantes já sofre até engarrafamento e conta com pouca produção local . adoraria que tivessemos preservado os hábitos de uma cidade interiorana. adoro ler suas palavras semanalmente …. uma vida de paz para ti …

18/02/2011 às 17:22 Anonymous - diz:

sonia russo – diz: lindo, lendo seu texto e tendo prazer de ter trabalhado com vc, da para imaginar sua felicidade>

22/02/2011 às 13:00 Anonymous - diz:

denise vida – diz:sim…isso realmente é viver, ou pelo menos é por esse caminho que a gente se reentrega ao natural e ao que é de nossa natureza..um contato mais pessoal com todos os seus indivíduos…faz parte dos meus planos a tempo ter esse momento “pra sempre”, por enquanto vou vivendo na cidade de SãoPaulo e tentando ser um pouco melhor a cada dia, pra não sofrer tanto o desgaste que essa vida aqui nos dá…e quando, for o momento ideal estar preparada pra poder desenvolver na cidade escolhida projetos e parcerias!! boa sorte!

14/03/2011 às 08:31 Anonymous - diz:

denise – diz:interessante… eu cresci em cidade pequena, onde era comum ir à pé pra escola e pro cinema, onde o primeiro supermercado só chegou no fim dos anos 70, onde a gente não tinha medo das pessoas.hoje tenho tristeza em ver que meu filho mal sabe atravessar uma rua…

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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