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Histórias de uma parteira na Amazônia Giuliana Capello - 01/12/2009 às 14:51
Morar numa ecovila significa estar disposto(a) a se abrir para um novo jeito de olhar o mundo. Um jeitinho diferente (para dizer o mínimo), que vai se construindo dia após dia, sem que possamos antever muitas fórmulas ou receitas mágicas para o sucesso da empreitada. É algo muito especial, que nos mantém vivos e despertos. Num dia, você resgata uma técnica ancestral de construção. No outro, acrescenta uma novíssima descoberta de laboratório para aprimorar o que nossos tataravôs já faziam com certa eficiência. E, assim, descobre as riquezas do velho e do novo – e também o tesouro que é a comunhão entre esses conhecimentos que agora têm a chance de se encontrar no tempo e no espaço. O resultado desse molho é um vislumbre de esperança.
Nesse balaio de ideias, a-do-ro descobrir tecnologias antigas. Por isso, sempre que posso, procuro ouvir histórias contadas em primeira pessoa. Experiências de vida que nos dão força e coragem. O primeiro passo para isso, no entanto, é saber ouvir. Saber ouvir de verdade, algo que, nos dias de hoje, fica escondido pela ansiedade da fala que não espera a frase do outro terminar. Que não escuta com o coração, mas apenas com a mente sempre pronta para dar o bote e questionar, com soberba, o que o outro nem acabou de dizer.
Nas reuniões que realizamos na ecovila, temos tentado praticar uma escuta mais ativa. Logo no início, costumamos propor o exercício de fazer uns segundinhos de silêncio entre uma fala e outra. Parece pouco, mas já muda muito. Interromper o silêncio é mais difícil do que atropelar a fala do amigo. Isso torna a sua fala mais relevante e, portanto, suas palavras ganham mais força. Intuitivamente, se estas forem dispensáveis, serão evitadas e o impulso de falar é trocado pela vontade perceber e sentir o mundo com os olhos do outro. Mas isso tudo é outra história… Experimente quando tiver oportunidade!
Todo esse prêmbulo foi para contar a você que, semana passada, saí de casa às seis da tarde (debaixo de chuva e num trânsito de desanimar samaritanos) com uma única intenção: ouvir as histórias de uma índia, dona Francisquinha, que há anos é parteira tradicional na Amazônia. Ela mora em Rodrigues Alves, no Acre, e vem a São Paulo de vez em quando para ajudar uma ou outra paulistana a botar filho no mundo do jeito que a natureza ensinou.
Cheguei ao espaço onde ia acontecer a palestra (na verdade, uma roda de conversa bem informal) e fiquei esperando a chegada de dona Francisquinha. Um grupo de mulheres a maioria com uma barriguinha que denunciava o interesse óbvio em ouvir a parteira já estava no local, conversando, trocando receitinhas para uma gravidez saudável. E eu lá no meio, só querendo ouvir as histórias da moradora e médica da floresta, como ela mesma diz.
Nessas horas, não quero ser jornalista. Não quero fazer perguntas só para compor um texto. Quero apenas e tão somente ouvir. Deixar que o outro fale sem que eu fique direcionando a conversa para o ponto exato da pauta que me foi dada na redação. E foi o que fiz.
Por isso, sequer sei dizer a você a que etnia pertence a dona Francisquinha. Mas quando os olhos dela brilharam ao falar da alegria de pegar nas mãos uma nova luzinha para este mundo, senti a força da expressão Somos Todos Um, sem os rótulos e os títulos costumeiros; à minha frente estava apenas uma mulher, gente como a gente, de carne, osso e sentimento.
Dona Francisquinha fala com a simplicidade que só a sabedoria oferece. A mulher precisa ter força e confiança na hora do parto. Precisa se aproximar da natureza. Ela conhece um bocado de ervas e plantas da floresta que ajudam a mulher a ter uma gravidez mais tranquila. Muitos desses remédios, porém, só existem na Amazônia. Veio daí certa frustração das mulheres urbanas, sensação presente no ar, que ansiavam por receitinhas naturais.
Mãe de doze filhos, todos de parto natural, e avó de dez netos nascidos com a ajuda de suas mãos, dona Francisquinha conta que já fez muito parto em hospital porque as mulheres têm medo de parir em casa. Médico, para ela, quase nunca sabe ajudar a mãe a botar criança no mundo sem cortar a barriga. Quando estava grávida de meu mais novo, sonhei noites e noites seguidas que minha barriga tinha sido cortada pelo médico e nunca mais fechava. Ficava sempre aberta, a vida inteira.
Parteira desde os 15 anos, ela nunca se recusou a levar parturiente para o hospital. Quando a mulher pede, eu levo e vou junto para acompanhar. Às vezes preciso dizer que sou parente, que sou mãe da moça, porque senão não me deixam entrar. Filha de pai pajé, Francisca tem nome indígena que significa arara. E aprendeu os rituais de cura e de parto com o pai. As rezas usadas no trabalho de parto são sagradas. Ela não conta a ninguém, em respeito à força que só deve ser usada nos momentos de necessidade.
Entre receitas de banhos, óleos para massagear a barriga, chás para diminuir as dores do parto, ela deixa escapar uma música que costuma cantar segundos após o nascimento de uma criança, como parte do ritual aprendido na infância. Não vou saber reproduzir a letra, que falava da alegria da chegada de uma criança neste mundo. Mas não importa. O sentimento dela ao cantar ecoou por toda a sala, num instante de beleza incomum. Sempre choro quando uma criança nasce, como se fosse meu próprio filho. É uma alegria muito grande, muito grande mesmo, que sempre me faz chorar muito de felicidade, conta dona Francisquinha, com os olhos mareados e o sorriso tímido pela emoção revelada.
Beleza é a palavra. A beleza de ver uma índia se emocionar de gratidão pela vida. Delicadezas que a gente só percebe quando transcende a rigidez do mero raciocínio lógico, preocupado em extrair fórmulas universais para receitar a toda e qualquer mulher. A mulher ribeirinha, que vive na floresta, não é a mesma que habita o 15º andar de um edifício à beira da avenida Paulista. Os corpos, apesar de semelhantes são delineados pela ação cotidiana, de colher frutos na mata e tomar banho de rio ou de sentar à frente do computador sob o ar-condicionado, depois de chegar ao trabalho de carro, metrô e elevador.
Duas naturezas distintas, mas um só lugar para habitar: o planeta Terra. Quem sabe um dia os saberes daqui e ali possam se encontrar de igual para igual, cada um com seu valor, e em nome de algo maior: a manutenção da vida sob todas as suas formas. Às vezes, é preciso esperar a hora do parto…
p.s.: agradeço ao pessoal da Morada da Floresta pela oportunidade de conhecer um pouquinho da beleza de dona Francisquinha.
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01/12/2009 às 18:20 Anonymous - diz:
Mariana – diz:Lindo post! Emocionei-me muito com a delicadeza como você escreveu sobre D. Francisquinha, com certeza uma inspiração de mulher. “Por isso, sempre que posso, procuro ouvir histórias contadas em primeira pessoa. Experiências de vida que nos dão força e coragem” – você, Giuliana, me dá força e coragem, por isso aguardo sempre ansiosa pelos posts: pela delicadeza envolta de realidade e experiências reais.Grata por ser exemplo e inspiração.Flores.
01/12/2009 às 20:58 Anonymous - diz:
Olivia – diz:Obrigada vc por partilhar, eu queria ter ido, mas essa vida agitada acaba nos tolhendo certas ooprtunidades. beijos
02/12/2009 às 00:46 Anonymous - diz:
Camila – diz:Que lindo Giu!Emocionante! Saudades de ti! Saudades da conversa, de me emocionar junto com vocês, de compartilhar coisas boas! Um abraço da sua amiga-irmã!
03/12/2009 às 12:34 Anonymous - diz:
renata – diz:thats what life is about.
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02/02/2010 às 19:53 Anonymous - diz:
Bianca – diz:Vc traduziu em palavras o meu sentimento: “Saber ouvir de verdade, algo que, nos dias de hoje, fica escondido pela ansiedade da fala que não espera a frase do outro terminar. Que não escuta com o coração, mas apenas com a mente – sempre pronta para dar o bote e questionar, com soberba, o que o outro nem acabou de dizer.”Faço Enfermagem e sempre ouvimos em sala de aula a importância de OUVIR o paciente e só. Mas o que é isso?!!:)
06/04/2011 às 22:52 Anonymous - diz:
cicera gabriel – diz:ainda , bém que os sabios já faziam partos humanizados ,é o enderesso é o mesmo , p terra (amazonas maÊ)
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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