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Um guarda-chuva para dois verões Giuliana Capello - 13/09/2011 às 10:12

Outro dia eu estava em São Paulo, quando começou a cair a maior chuva. Claro que eu estava sem guarda-chuva… Na hora, lembrei-me do quanto detesto comprar guarda-chuvas. Eles não duram nada! Não suportam a primeira brisa (eu disse brisa, não ventania…), ficam desmilinguidos, inúteis, com destino quase certo: o lixo. O lixo?! De novo? Será que não existem guarda-chuvas decentes, feitos para viver alguns verões, pelo menos?

Bom, entrei numa loja e fui logo perguntando por um guarda-chuva resistente, de qualidade, para eu conservar por alguns anos. O vendedor me mostrou um modelo (made in China, para variar, e o mais caro da vitrine) e disse que era o que ele tinha de melhor. Questionei sobre ter algum de fabricação nacional (menos petróleo consumido até chegar ali, menos CO2 na atmosfera, estímulo à economia local, sabe?). Mas ele nem entendeu direito a minha pergunta…

Fiquei por alguns minutos analisando a possível compra: aquele produto em minhas mãos havia atravessado oceanos num contêiner, depois de ser fabricado sabe-se lá por quem e em que condições, e já com o lucro da loja custava míseros 15 reais! Não dava para esperar muito dele. Resolvi procurar outra loja… E outra. E mais outra. Eu já havia elaborado todo um discurso que questionava por que precisamos de um guarda-chuva (lembrei-me do quanto era delicioso tomar banhos de chuva na infância e na adolescência), por que não podemos simplesmente atravessar a chuva e lavar a alma, por que eu precisava de um guarda-chuva naquele dia, por que eu toparia pagar mais para ter um que fosse durável, enfim, refleti ainda sobre o “R” do recusar e, quando me dei conta, já estava quase atrasada para a tal reunião.

E agora? Comprar ou não comprar um guarda-chuva? Sabe, já faz anos que me condicionei a praticar, na medida do possível, o que aquele vendedor à minha frente chamava naquele instante de “cliente chata” e que, para mim, mais se aproxima de uma vontade de ser uma cidadã mais consciente das minhas compras. Ok, sei que não dá para fazer isso o tempo todo com todo tipo de item, infelizmente, até porque as lojas e os fabricantes, muitas vezes, não ajudam nem um pouco… Mas precisamos cobrar, perguntar, mostrar que temos critérios de escolha e que, em alguns casos, eles podem nos levar a recusar o produto e sair da loja sem ter gasto um tostão.

Naquele momento, minha vontade era exatamente essa. Sair de mãos livres. No entanto, o tempo corria e seria péssimo chegar atrasada e molhada no trabalho – se alguém já passou o dia com meias encharcadas sabe o quanto isso é absolutamente desconfortável… Resumindo toda a história: voltei à segunda loja, que havia me mostrado um modelo aparentemente mais resistente – pelo menos isso, porque brasileiro mesmo não encontrei nenhum – e comprei o “mais caro”, a contragosto e meio de mau humor com a “lógica do mercado de itens descartáveis”

Escolhi a estampa mais discreta (porque incluir nessa compra um desenho de oncinha ou de zebra seria o fim dos tempos!) e fui logo tirando do plástico, que deixei na loja mesmo. Abri o guarda-chuva na porta e dei meus primeiros dois passos. Adivinhe o que aconteceu? Uma rajada de vento “assustou” meu guarda-chuva novinho e o fez levantar todos os seus lindos “bracinhos”. Uma gracinha…

Fiquei enfurecida, aborrecida, me sentindo tola e ligeiramente estúpida por insistir numa compra fadada ao fracasso. O vendedor que, muito solícito, ainda assistia à minha saída, segundos após me desejar um bom dia, viu minha cara de frustração, caminhando na direção dele… “Então, moço, esse era mesmo o que você tinha de melhor? O que faço com ele agora? Não sei se troco por outro ou peço meu dinheiro de volta”, disse, desanimada, atrasada e ligeiramente molhada. “Não é pessoal, não, sabe, mas odeio guarda-chuva”, completei, com a melhor cara que pude fazer.

Meio sem graça, o vendedor me explicou que “era assim mesmo”, ele virava do avesso, mas depois era só desentortar tudo que ele voltava à posição original. Uma belezinha… Sem tempo a perder, peguei o mesmo guarda-chuva desentortado e saí com ele fechado, passo apertado, e de marquise em marquise, até chegar ao trabalho, prometendo a mim mesma que não compraria mais guarda-chuvas… A menos que eu encontrasse um com potencial para ser parceiro de longa data, amigo confidente, essas coisas.

Dias depois, uma amiga (obrigada, Léia!) me enviou por email um remendo ótimo para essa história: o que fazer com um guarda-chuva quebrado (já que ter um decente, por enquanto, está bem difícil). Era um passo-a-passo de como retirar as hastes da peça – e encaminhar para a reciclagem – e usar o tecido para fazer uma almofadinha que lembra um fuxico gigante. Basta colocar algum tipo de enchimento (alguns amigos fazem almofadas com sacolas plásticas) e unir as bordas ao centro, costurando-as com a ajuda de um botão grande. Pronto. Fica aí a ideia, um paliativo apenas, mas também um começo – embora se recusar a cair numa fria dessas ainda seja a opção mais razoável. Melhor que isso seria curtir um bom banho de chuva, para lavar a alma das porcarias descartáveis que a indústria ainda produz sem constrangimentos.

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Comentários

13/09/2011 às 14:00 Anonymous - diz:

Dafne – diz:Só pra esclarecer, “lógica do mercado de itens descartáveis” tem nome: OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA.Isso é feito de caso pensado, afinal, numa economia monetária o dinheiro precisa circular, não é mesmo? E é por isso que precisam nos manter consumindo sempre…Aqui vai o link pra um ótimo documentário sobre obsolescência programada: http://vimeo.com/23524617

13/09/2011 às 14:35 Anonymous - diz:

Nilza Braga – diz:Resolvi este problema carregando uma capa plástica na bolsa. Dobrada ela fica do tamanho de um celular, mora na minha bolsa há anos… em cada chuva ela sai, me veste inteira e depois de seca volta para a bolsa. Fica a ideia!

14/09/2011 às 01:17 Verônica Semljanos - diz:

Moro em Joinville, SC, segunda cidade mais úmida do mundo! Idéias: ao comprar se der é claro, costurar todas as juntas de novo, melhor ainda com fio de nylon. Já encontrei grandes, com hastes de madeira, mas deixei no ônibus na primeira viajem…Capa é bom, mas molha todos os outros no ônibus até ser dobrada!

14/09/2011 às 17:40 Léia - diz:

Bacaninha, né, Giuliana? Vamos fazer muitas almofadas-fuxico e contar lindas histórias?

20/09/2011 às 14:16 claudia visoni - diz:

Muito legal a almofada feita de guarda-chuva. Mas realmente é uma pena que esse item tenha se tornado descartável, assim como tantos outros. A obsolescência programada atingiu o auge com os guarda-chuvas! Eu vou remendando, remendando os meus e mesmo assim logo acabam. Tenho preferido capa de chuva + boné para justamente evitar essa produção absurda de lixo.

05/10/2011 às 15:38 Manuela - diz:

Olá! Você já ouviu falar de um fabricante de guarda-chuvas que se chama Ronchetti?! é aqui em Botucatu- SP a fábrica. Tenho vários deles, inclusive um que vem com uma capa de plástico que você puxa para não pingar por tudo… nenhum deles quebrou até hoje (um deve ter uns 4 anos) e aqui chove e venta bastante!!!! Custa em torno de uns 25 reais pra mais, mas são de excelente qualidade!!!!
http://www.ronchetti.com.br/
Beijos

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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