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Governança na ecovila Giuliana Capello - 17/11/2009 às 17:10


Presidente de ecovila? Isso existe? Ou será rei e rainha? Síndico? Guru? Só mulheres no poder? Alguém tem ideia de como nos organizamos na Ecovila Clareando? Pois vou contar a você um pouquinho dos primeiros passos que estamos dando por lá, para estimular a convivência harmoniosa entre todos na comunidade.

Toda família que entra para a comunidade, ao comprar um dos lotes privados à venda, automaticamente passa a integrar a Associação de Moradores da Ecovila Clareando. Com isso, vem o compromisso de participar das reuniões periódicas e pagar uma mensalidade (mínima) para despesas com o caseiro Silvam e manutenções gerais.

Juridicamente, a Associação tem uma diretoria, composta por presidente e vice, secretário(a) e tesoureiro(a), eleitos pelos integrantes em assembléia, para um mandato de dois anos, com possibilidade de reeleição. As votações, quando necessárias para a aprovação de uma nova construção, uma manutenção mais cara no sistema hidráulico, eventos, ações emergenciais etc. e tal, ocorrem durante as reuniões periódicas realizadas na ecovila. Como numa democracia simples, vence a proposta aceita pela maioria (50% mais um).

Mas isso tudo é muito parecido com o funcionamento de um condomínio convencional, não? Para ser uma ecovila, queríamos avançar um pouco mais na participação e nas decisões comunitárias. Mas como fazer isso?
Bom, cada ecovila, no mundo inteiro, tem um jeito particular de lidar com a questão. As mais antigas testam hoje um sistema de tomada de decisões por consenso, em que as propostas, para serem aprovadas, precisam do aval de todos os integrantes. Há toda uma estratégia para esse tipo de decisão grupal – se quiser saber mais, já escrevi sobre isso em post mais antigo.

Só que para chegar nesse nível, é preciso muito amadurecimento, coisa que, realisticamente falando, ainda não temos. Pé no chão, decidimos caminhar devagar, fincar raízes fortes antes de começar a espalhar galhos enormes para o alto e para os lados. Assim, por mais de três anos, tentamos minimizar o problema das minorias insatisfeitas (elas sempre existem, pode acreditar, e são até saudáveis) estendendo as discussões das propostas, apresentando tudo de forma detalhada antes de uma votação.

Muitas vezes, no entanto, as ideias apareciam ainda cruas, sem muita reflexão ou detalhamento. Uma ideia é diferente de uma proposta, certo? E o que aparecia muito eram as boas ideias que, no entanto, não tinham qualquer vínculo com a realidade ou o momento da ecovila. E mais: as pessoas lançavam ideias e queriam que a diretoria cuidasse do resto. Nas ecovilas, um lema interessante adotado por muitas diz que “se você faz uma proposta, você é responsável por ela”.

Talvez seja uma herança cultural de uma sociedade acostumada a achar que o governo deve cuidar de tudo. Depois ficamos reclamando, porque não saiu como gostaríamos – ou sequer saiu alguma coisa… Numa ecovila, espera-se que as pessoas participem mais ativamente das decisões, e que não fiquem apenas sentadas passivamente aguardando que tudo se resolva de cima para baixo.

No discurso, é simples. Todo mundo acha lindo poder participar e dar pitaco em tudo. Mas na prática, garanto a você, a história é outra. Talvez por comodismo ou falta de experiência, o mais comum é querer terceirizar a responsabilidade pela execução da proposta. Dar ideias é fácil. Difícil e botá-la em prática, monitorá-la, aperfeiçoá-la e por aí vai. Dá um trabalho!

Mas, enfim. Em setembro, tivemos mais uma votação para a diretoria da Associação e meu companheiro foi eleito o novo presidente. Meses antes, eu e ele passamos horas e horas à noite tentando formular um modelo do que pudesse vir a ser um sistema mais participativo de tomada de decisões. E sua “candidatura” – aliás chapa única (veja como na hora de trabalhar ninguém quer se comprometer…) – foi ancorada nesse projeto de uma nova forma de decidir coletivamente.

Deu certo. No último fim de semana, a comunidade aprovou a proposta de mudança no desenho institucional da ecovila. Agora, além dos quatro integrantes da diretoria, temos uma assembléia de representantes, que defende as ideias e interesses dos três grupos distintos que convivem na ecovila: donos de lotes, construtores e moradores. Uma quarta pessoa integra o grupo como representante do interesse geral da ecovila, para evitar que um ou outro grupo faça propostas que possam afetar o espírito comunitário geral. Eu, que não estava presente na votação (minha cachorra, Sofia, ficou doente e passei o fim de semana cuidando dela), fui eleita representante do interesse geral. Responsa.

Bom, aí temos o Conselho, com três integrantes que analisam as propostas da diretoria e da assembléia de representantes, sempre questionando se são viáveis, se respeitam as normas internas vigentes, se podem ser consideradas sustentáveis etc. Esse Conselho seria uma espécie de CCJ – Comissão de Constituição e Justiça, do Senado (mas espero que seja beeeeeem diferente! Foi só uma comparação com intenção didática…).

De modo geral, gosto da proposta e vejo muito sentido nela sempre que reflito sobre os desafios que temos pela frente. Ela é um convite para que mais e mais pessoas participem, saibam dos problemas e restrições da comunidade. Mas é preciso testá-la na prática. Não basta que seja elegante ou eticamente bela. Nossa Constituição é maravilhosa e nem por isso temos uma democracia plena e madura no país… Nossa legislação ambiental é uma das mais bonitas do mundo e nem preciso dizer que está majoritariamente restrita ao papel…

Também penso que seria interessante criarmos nomes diferentes para cada instância. Conselho, diretoria e assembleia andam muito batidos… Já que queremos ser um laboratório da Agenda 21, inventar nomes pode ser inspirador e libertador também. Quem sabe nomes de flores, árvores, animais, estrelas e planetas… Muito bicho-grilo? Talvez, mas pode tornar a coisa mais leve, com menos cara de burocrática, sabe? Vou sugerir isso ao grupo, e volto depois para contar os próximos capítulos… E você, tem alguma história interessante de modelo de tomada de decisões em grupo? Se tiver, me escreva. Compartilhar experiências é muito bom e ajuda sempre. Será um prazer ouvir seu relato! Um grande abraço e até semana que vem!

 

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Comentários

19/11/2009 às 13:09 Anonymous - diz:

Cristiano – diz:Olá Giuliana,Adoro ler seus posts voçê e bem antena e esta de acordo com o mundo atual. Tenho uma pizzaria e vou construir outra em Ubá MG. Uso materiais de demolição e outros sustentáveis, gostaria de saber se a estrutura da sua casa e feita de eucalipto tratado ou que vc fez para trata-lo.Alias meu blog é adoropizza.blogspot.com se voçê quiser dar uma olhada nas minhas idéias para negócios suatentáveis.Cristiano

23/11/2009 às 11:44 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Olá, Cristiano, obrigada por passar por aqui. O eucalipto da minha casa é de reflorestamento local, da espécie citriodora, mais resistente e indicada para construção. Não foi tratada (ou “envenenada”)em autoclave para evitar a contaminação do solo e da água – e também para garantir um ar interno mais saudável para os futuros moradores. Para aumentar sua resistência, as pontas que ficam enterradas no solo (cerca de 1,5 m) foram queimadas e ensacadas em lona plástica, antes da execução das sapatas de concreto. Na parte externa, a madeira recebeu neutrol, e nas internas, óleo de linhaça. É isso. Espero tê-lo ajudado um pouquinho. Vou fazer uma visita no seu blog. Grande abraço, Giuliana.

12/03/2010 às 18:17 Anonymous - diz:

cleber – diz:olá, Giuliana.Moro numa comunidade e estamos discutindo o estatuto e o rebimento interno. pensei ser uma ótima oportunidade para se criar uma instância de mediação de conflitos, uma comissão de ética, sei lá. Você tem alguma sugestão para os moldes de uma ecovila?

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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