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Fukushima e você Giuliana Capello - 05/04/2011 às 15:56
Há muito que dizer e refletir sobre o desastre que afetou o Japão semanas atrás. Mas o que mais me impressiona nos relatos, reportagens e comentários a respeito do tema é, na verdade, aquilo que não se diz e não se sente, uma tal indiferença e apatia que parece apagar por completo até mesmo as mais sombrias notícias. É como se houvesse uma blindagem entre nós e o que acontece com o outro e com nosso planeta.Alguns dos primeiros relatos me deixaram perplexas. Lembro-me da apresentadora do telejornal mencionar que tinha uma boa notícia para todos, pois os ventos estavam direcionando a nuvem com material radioativo para o Pacífico, afastando o perigo das cidades japonesas. Onde está a boa nova nessa história?! O mar é a principal fonte de alimento para a população, a vida marinha tem valor intrínseco, os oceanos são parte importante na formação de nuvens de chuva que atingem cidades, lavouras e áreas protegidas, sem falar nas correntes marítimas, responsáveis pelo fluxo natural das águas oceânicas.
É como se estivéssemos passando a mão em nossas cabeças o tempo todo, dizendo: não há nada de errado acontecendo, está tudo bem, os níveis de radiação estão centenas e até milhares de vezes acima do limite considerado seguro, mas não há riscos para a saúde humana, tá? Ainda em outras palavras, o risco é só para o planeta, mas já que não temos nada a ver com ele (!?!), podemos dormir tranquilos (?!). Até quando seremos tão cegos e negligentes?
A distância entre nós e o acidente nuclear em Fukushima é bem maior do que os milhares de quilômetros que nos separam geograficamente. Indiferença não tem tamanho, não se mede com régua ou softwares de ponta simplesmente existe. E se ela existe, é porque ainda não temos consciência do quanto estamos no mesmo barco chamado Terra, o único disponível, aliás, para mais de 6 bilhões de pessoas.
Por outro lado, na verdade, essa separação é artificial, por inúmeras evidências. O comércio internacional se encarrega de nos lembrar que o Japão entra no Brasil todos os dias com produtos dos mais diversos gêneros. Essa mesma distância, se mudarmos a forma de pensar para um ponto de vista mais contemporâneo e sistêmico, em termos de estrutura de pensamento – como a teoria de Gaia, do inglês James Lovelock, ou a teoria do caos e o efeito borboleta, do meteorologista americano Edward Lorenz perceberemos que a tal distância, na prática, sequer existe. Já ouviu a história (ligada à ideia do efeito borboleta) de que uma borboleta batendo asas no Brasil pode provocar, depois de algum tempo, um tufão nos EUA?
Tudo bem, a frase é alegórica, mas não deixa de representar as conexões ocultas que estão ao nosso redor, ainda que não as enxerguemos. Tudo como há muito se fala nas rodas de ambientalistas autênticos e também nas de marketeiros maquiados de verde tudo está conectado, interligado, interdependente. E é essa mesma teia de relações que faz com que o desastre japonês tenha efeitos em todo o globo terrestre. Portanto, pensar que o reator 2, 3 ou 4 da usina de Fukushima nada tem a ver com a nossa vida é um grande engano, um enorme equívoco.
Mas a nossa apatia disfarçada de falta de tempo, vida acelerada, excesso de trabalho, problemas familiares e cartão de crédito para pagar torna as notícias sobre o Japão apenas mais um dos temas irrelevantes (e absolutamente distantes de nossas vidas) que assistimos pela tv, enquanto engolimos um sanduíche industrializado, à espera do início da novela. Até quando?
Mais do que discutir se devemos ou não optar e avançar ainda mais na escolha da energia nuclear, penso que é preciso ir além e refletir, acima de qualquer coisa, sobre nossas demandas energéticas e sobre as consequências de nossas ações. Qual é a nossa real parte nessa história e o que podemos fazer para evitar que tenhamos de cogitar a necessidade de novas usinas nucleares no Brasil ou em qualquer canto do mundo? Já passou da hora de tirarmos esse escudo que nos mantêm blindados (e alienados) de problemas que começam dentro de nossas próprias casas, bem debaixo de nossos pés. Quando o assunto são os desastres ambientais, não existe inércia, meio termo ou café-com-leite. Ou agimos patrocinando futuros acidentes como esse ou começamos a mudar o rumo das coisas para evitar que outros ainda piores ocorram e venham nos lembrar que todos nós temos o mesmo e único endereço possível.
Foto: ©Nasa
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06/04/2011 às 00:34 Anonymous - diz:
Sabrina Braga – diz:Excelente matéria. Entra também aquela velha estória do “se cada um fizesse a sua parte…” Mas não fazem, e é nosso dever fazer a nossa e procurar conscientizar o máximo possÃvel de pessoas. Parabéns, vou divulgar.
07/04/2011 às 02:30 Anonymous - diz:
Vilma – diz:Infelizmente ninguém mais quer saber desse assunto, todos aguardam a próxima catástrofe..
07/04/2011 às 02:31 Anonymous - diz:
Vilma – diz:Infelizmente ninguém mais quer saber desse assunto, todos aguardam a próxima catástrofe..
08/04/2011 às 11:00 Anonymous - diz:
Bruno – diz:Parabéns, uma pena que nem todos os habitantes do planeta tem essa visão, esse posicionamento crítico em defesa da vida; a qual vivemos atribulados e no meio de tanta movimentação nos esquecemos da importância da vida.
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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