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Sobre a formação de uma ecovila Giuliana Capello - 29/06/2010 às 17:52

Muitas ecovilas são formadas a partir de grupos de amigos com interesses afins, em especial, o de viver sem pesar muito sobre o planeta, buscando respostas em hábitos ancestrais (que descobrimos eficientes e atualíssimos) e também nas mais novas tecnologias verdes. Alguns grupos já nascem com um número definido de integrantes, que são cotistas da terra, por exemplo. Em outros casos, a entrada de novos membros depende de aceitação por parte da comunidade.

No caso da ecovila Clareando, os novatos incorporam o projeto quando adquirem um dos lotes disponíveis para a compra. A comunidade não tem poder de veto sobre a entrada de uma nova família, mas as conversas prévias, que antecedem a assinatura do contrato, muitas vezes são decisivas, porque esclarecem pontos importantes.

É muito curioso ouvir os sonhos e motivações das pessoas que aparecem por lá, querendo conhecer e, quem sabe, comprar um terreno por lá. Já ouvi cada história… Tem gente que vai para lá porque leu o livro do Hiroshi Seó, fundador da comunidade (Unidade da Vida – Manual de Agricultura Natural), e gostou das ideias dele. Outras pessoas vão porque são terapeutas holísticas e querem trabalhar em um ambiente mais puro, mais em contato com a terra e a natureza. Tem ainda o grupo do yoga, da macrobiótica, da antroposofia, do kung fu, do vegetarianismo ou veganismo, dos permacultores, dos bioconstrutores.

Mas o mais engraçado e intrigante é exatamente o grupo dos paraquedistas, sem noção alguma do que pode vir a ser uma ecovila. Teve quem pisasse lá reclamando das condições para a construção das casas (que devem ter alguns equipamentos verdes e uso correto da madeira, por exemplo). Não entendo. Se quer o convencional, por que não procura um condomínio “normal”? Se não está disposto a fazer algumas coisas de modo diferente, por que, então, vai atrás de uma proposta diferente?? Você acredita que já teve gente querendo montar um canil para cães abandonados? Apesar de ser uma intenção mais do que legítima e importante, ela simplesmente não cabe na nossa ecovila. Animais domésticos são bem-vindos, desde que seus donos saibam evitar problemas com hortas e jardins dos vizinhos, caçadas a animais silvestres e outras travessuras típicas desses bichanos que tanto adoramos. Mas daí a termos um canil há uma grande distância.

Nesses tempos de novos vizinhos, toda vez que surge um visitante, vou logo conversar para saber mais sobre ele. E sabe o que estou aprendendo? A não fazer pré-julgamentos. É, não é nada fácil. Pense comigo: você vê a pessoa descer do carro (já analisa o modelo do carro, certo?), depois observa o modo como ela se veste, o modo como cumprimenta as pessoas, as gentilezas (ou a falta delas), as perguntas que faz. Difícil não rotular, né? Confesso que no início, para mim era muuuuuito difícil. Olhava e já pensava: xi, esse aí não tem nada a ver com a ecovila, ou, essa família parece bacana…

Hoje posso dizer que, algumas vezes, minhas primeiras impressões foram equivocadas. E adoro descobrir isso. Adoro me surpreender, ser surpreendida. Muita gente me surpreendeu nessa história. Gente que ficou meses namorando a ecovila, visitando, e foi embora, sem comprar um lote. Gente que surgiu discretamente e já foi logo comprando dois lotes. Gente que parecia bacana e, com o tempo, mostrou-se chata, pouco agradável, digamos assim. E gente que tem pinta de urbanóide-consumista, mas que está afim de trabalhar para a comunidade e mudar de hábitos.

Em resumo, na ecovila Clareando, tem gente de todo tipo. Essa é, sem dúvida, nossa maior riqueza e nosso maior desafio. Afinal, conciliar ideias de mundo, valores, sonhos tão distintos é bem complicado – embora possa ser simples se tivermos, ao menos, uma essência forte em comum.
Tempos atrás, um médico da comunidade resolveu aceitar uma proposta de trabalho e saiu da ecovila para morar em Urubici, SC. Depois, a médica homeopata que morava lá também saiu. Lembro-me de ter pensado: puxa, ficamos sem médicos morando na ecovila. Pois não é que recentemente duas médicas compraram lotes na Clareando? A primeira está estudando medicina ayurvédica e a segunda é obstetra, faz partos naturais em casa. Não é o máximo?

Pois é, aprendi a não querer controlar tudo o que acontece na ecovila. Tem hora em que é preciso saber entregar, deixar acontecer. De tudo isso, sinto que a comunidade precisa estar bem, saudável, em harmonia. Assim, terá mais chances de atrair pessoas afinadas com o modo de vida que queremos construir – e estamos construindo. Não é assim que acontece, no fim das contas?

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Comentários

30/06/2010 às 14:17 Anonymous - diz:

Daniel – diz:Olá Giuliana,Você poderia me dizer se na ecovila existe a produção de alimentos orgânicos em escala que atenda a todos os moradores? Vocês praticam a economia solidária ou a base de troca? Existe algum tipo de trabalho social realizado pela Ecovila dentro e fora dela? E na parte de saúde e educação de seus moradores? Obrigado

07/07/2010 às 10:27 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Daniel, hoje ainda temos poucas famílias morando na ecovila. As atividades ainda estão no início. Por enquanto, temos uma pequena horta que complementa a alimentação dos moradores, um pomar com mais de 1500 frutíferas e um galinheiro que fornece ovo caipira. De um dos vizinhos compramos queijo tipo minas e ovos (quando necessário). A economia solidária ainda é bastante informal entre nós. De tempos em tempos realizamos uma feira de trocas, mas alguns vizinhos estão sempre trocando materiais excedentes, especialmente os de construção das casas. Um dos moradores, médico, está atendendo no posto de saúde das cidades mais próximas, Piracaia e Joanópolis. E outras pessoas estão em fase de discussão de projetos junto à prefeitura nas áreas de infraestrutura e educação. A intenção, em resumo, não é o isolamento, mas sim a união de esforços para melhorar todo o nosso entorno. Um desafio e tanto. Grande abraço, Giuliana

05/08/2010 às 18:55 Anonymous - diz:

Paulo Bastos – diz:Giuliana, só queria te dar parabéns pelo que aprendeu sobre controlar as coisas… a vida fica muito mais fácil quando acolhemos o que ela oferece… lindo caminho.abraço,Paulo

10/08/2010 às 17:52 Anonymous - diz:

Kelly Figueira – diz:Olá, Giuliana. Sou Bióloga e fiquei super interessada em conhecer uma EcoVila. Moro na região norte, mas, pretendo adquirir uma casa em São Paulo. Podes me indicar alguma ecovila e de que forma posso visitá-la? Abraço. Kelly

17/08/2010 às 22:39 Anonymous - diz:

Kátia Servilheira – diz:Olá. “Por acaso” (entre aspas, porque nada é por acaso) este blog caiu em minhas mãos. Há alguns anos venho me preparando para viver uma vida simples, ecologica e socialmente corretas, sem consumismo, trabalhando e ajudando o próximo, visando o bem comum. Gostaria de conhecer a Comunidade Clareando. Em que cidade ela está? É possível conhecer vcs? Abraços. Kátia

19/08/2010 às 13:33 Anonymous - diz:

Giuliana – diz:Olá, Kátia, Kelly e Paulo, fiquei feliz por ler os comentários de vocês. Kátia, a ecovila fica em Piracaia, a 100 km de São Paulo (www.clareando.com.br). Será um prazer recebê-la por lá. Kelly, estendo o convite a você também. Vocês podem entrar no site e cadastrar seu email para receber a agenda de eventos e visitas. Paulo, grata. Abraço, Giuliana

21/08/2010 às 00:15 Anonymous - diz:

Michel.. – diz:Isso ae irmã clareanda…Foi ótimo entrar neste sonho!Nos vemos por lá!

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Gaiatos e GaianosGiuliana Capello

Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.

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