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Feriado unplugged Giuliana Capello - 08/09/2010 às 13:09
Este post é destinado a todos aqueles que não conseguem mais se imaginar longe da rede mundial de computadores, nem por algumas horas. Não é exatamente uma provocação, mas um testemunho de que é possível, sim!, viver bem e longe da internet, pelo menos por alguns dias… Ah, e sem esforço, sem tédio, sem crises de abstinência.
Sábado passado cheguei à ecovila Clareando à noitinha, depois de uma viagem tranquila, umas compras no mercado para garantir a alimentação e um sorvete na Casa do Artesão de Piracaia (SP), logo na entrada da cidade. Estava com a amiga Léia e minha cachorra Sofia. Dali até a ecovila, a 15 km do centro, sabia que o celular não funcionaria e que ficaria sem internet pelo resto do feriado. Para mim, isso não era nenhum problema, até porque seria uma viagem de feriado prolongado, para relaxar e descansar, certo?
Fomos recebidas pelo amigo Hiroshi na Casa Clara, a casa comunitária que abriga os integrantes da ecovila e convidados que ainda não têm suas próprias casas ou estão em fase de construção. Ele preparou um jantar, digamos, bem alternativo, à moda de um bom japonês: cará ralado com missô e shoyu, pão integral caseiro, salada e chá de jasmim. Mas antes, ainda ofereceu uma primeira aula de viola caipira para a Léia que assisti com atenção, como aluna-ouvinte.
Alimentados, saímos para uma caminhada noturna até a porteira da ecovila, sem lanternas. Era noite de lua nova, muito escura mesmo. Eu mal enxergava o chão ou minha cachorra que andava ao meu lado. Mas havia uma calma no ar e estrelas brilhantes, que inspiravam destemor e tranquilidade. Sob uma grande araucária, permanecemos mais de uma hora, sentados, cantando e ouvindo a viola, observando o céu e reparando na rota nova de aviões, que cruzavam o céu sobre nossas cabeças. Ao longe, um falso alvorecer revelava mais um incêndio de estiagem na região.
Foi tão bom cantar, arriscar uns acordes na viola caipira, sentir o ar úmido quando passávamos perto das nascentes. De repente, parecia que o tempo mudara de ritmo, preguiçoso. Foi assim, sem pressa alguma e muito presentificados, que retornamos à casa e nos preparamos para dormir.
No domingo, às 8 horas, acordamos com o Hiroshi tocando Melodia Sentimental no violão. Simplesmente lindo. Ele preparou o café, com direito a cuzcuz na manteiga, queijo branco e broa de fubá. Logo em seguida, saímos para uma caminhada pela ecovila (que me rendeu um carrapato…). Observamos as árvores plantadas em mutirão e já bem crescidas. Dá para ver as espécies que mais se adaptaram ao clima local. Aroeiras, cedros, manacás, suinãs, araucárias. Paramos na casa dos amigos Victor e Rosana, para mais um café. Depois, na casa do casal Elioenai e Celso. A viola sempre conosco. E a cantoria.
Voltamos na hora do almoço e encontramos na Casa Clara mais amigos que chegavam para o feriado: Laura, Sergio, Olívia, Samuel, Cristiano, Débora, Ângelo. Mais viola, mais saladas, histórias, arroz integral e uma oração para agradecer o alimento à mesa.
O tempo esfriou, fiquei oficialmente gripada e propus uma sessão de cinema para a tarde. Assistimos a Julie & Julia, alugado numa locadora da cidade. O resto do feriado para não ficar aqui descrevendo passo a passo incluiu muita roda de música ao vivo, meditações no fim do dia, pão e bolo caseiros, aulas de danças brasileiras com a Léia, leituras, visitas à horta e ao galinheiro da Lu (que instalou ao lado um cantinho para os filhotes de coelho, lindinhos).
Na segunda-feira, juntaram-se a nós os amigos Michel, Denise, Fabio e Bruno, que trouxeram mais música para a casa, frutas e verduras orgânicas produzidas no quintal e uma energia que contagiou todo mundo. Foi simplesmente delicioso dividir tudo com eles.
Pensei que, se tivéssemos acesso a internet, talvez alguns de nós teriam corrido para ler e-mails, twittar, dar uma olhada nas redes sociais, pesquisar algo ou ver vídeos curiosos. Mas nada disso teria sido tão bom quanto o que fizemos, fora de qualquer tomada. É bem provável que esse punhado de palavras não represente o que vivi e senti no feriado, mas tive vontade de compartilhar com você. E o mais curioso é que, agora, faço isso justamente…na internet.
Essa é a contradição dos nossos tempos. Um querer simplicidade e conviver com tecnologia cada vez mais perto de nós. Um desejo de tranquilidade que caminha lado a lado com nossos dedos digitando mensagens curtas para o outro lado do planeta. Onde isso vai dar? Não sei. Só sei que quero mais e mais viver nessa dimensão das trocas humanas, pessoais e intransferíveis. A internet, para mim, será sempre um apoio, nunca um fim em si mesma. Preciso de aromas, sabores e vento na pele. E isso que me perdoem os ciberentusiastas de plantão só existe no modo unplugged…
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09/09/2010 às 10:02 Anonymous - diz:
Luciana Luz – diz:Amei o post! Eu tb estou nessa mistura, e acho que encontrar o equilíbrio é o mais importante. Nem menos, nem demais, mas no caminho do meio, sabendo dar o devido valor à cada coisa, e buscando a qualidade em todos os meios, nunca a quantidade. Obrigada por partilhar!
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Giuliana Capello é jornalista ambiental especializada em construções sustentáveis, guarda-parque e permacultora. É colaboradora das revistas Arquitetura & Construção, Casa Claudia e Bons Fluidos. Formada em design de comunidades sustentáveis, mora na Ecovila Clareando, a 100 km de São Paulo. Sua casa, construída com técnicas de bioconstrução, reflete princípios que adota em seu cotidiano: conexão com a natureza, simplicidade voluntária e consumo responsável. Aqui, conta histórias de quem deixou a cidade grande para viver no campo ao lado de amigos - e tornar a vida mais plena, criativa e sustentável.
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